Capítulo 5 QUATRO ANOS ANTES
PONTO DE PARTIDA
SOFIA
Hoje é meu primeiro dia na presidência da Stuart Corporation.
Eu repito essa frase mentalmente, mas as palavras parecem grandes demais para caber na minha boca. Elas pesam. Parecem pertencer à vida de outra pessoa, a um roteiro de cinema que assisti em um domingo qualquer, e não à realidade de uma mulher que, até quarenta e oito horas atrás, contava moedas para decidir se comprava um bilhete de metrô ou um litro de leite.
Encaro meu próprio reflexo no pequeno espelho redondo e manchado que fica pendurado acima da pia do banheiro. A moldura plástica está descascando, exatamente como as paredes deste apartamento antigo. Uso as palmas das mãos, ligeiramente úmidas pelo suor frio da ansiedade, para alisar o tecido da minha saia social preta pela enésima vez. É uma peça simples, de poliéster áspero, comprada na seção de liquidação de uma grande loja de departamentos do centro. Não tem o corte perfeito das grifes, mas passei o ferro quente na noite anterior com tanto esmero que vincos geométricos delimitam sua forma. É o melhor que posso fazer com o que tenho. É o meu disfarce de dignidade.
Depois de quase um ano inteiro mergulhada no desemprego, engolida por um mar de rejeições burocráticas, e-mails automáticos que começavam com "agradecemos o seu interesse, mas..." e portas que batiam na minha cara antes mesmo que eu pudesse terminar de falar, essa vaga não é apenas uma oportunidade de carreira. É a minha salvação. É a única corda jogada ao mar para alguém que já sentia a água salgada invadir os pulmões.
O peso das contas de consumo atrasadas, com aquelas tarjas vermelhas ameaçadoras que prometem o corte do fornecimento a qualquer momento, os avisos de cobrança do aluguel empilhados de forma desordenada sobre a mesa de fórmica da cozinha, o saldo negativo no banco que eu evitava olhar no aplicativo do celular… tudo isso martela na minha cabeça em um ritmo frenético, ditando a velocidade com que termino de prender meu cabelo em um coque firme, baixo e estritamente profissional. Ainda me parece uma alucinação de privação de sono. Eu ainda não consigo entender como eu, entre dezenas de candidatas com currículos impecáveis, formadas em universidades de elite e vestindo terninhos que custavam o triplo do meu orçamento anual, consegui essa vaga de assistente executiva.
— Minha filha, você vai arrasar. A sua mãe estaria olhando para você com o peito explodindo de orgulho.
A voz suave, ligeiramente arrastada pela idade e profundamente reconfortante, ecoa pelo corredor apertado do apartamento.
Viro-me sobre os calcanhares e encontro dona Mari encostada no batente de madeira lascada da porta. Ela segura uma xícara de cerâmica fumegante, de onde sobe o aroma forte de café fresco com canela. Ela exibe aquele sorriso doce de sempre, os olhos pequenos cercados por rugas profundas que contam a história de uma vida inteira de trabalho duro. Há uma bondade genuína emanando dela, o tipo de calor humano que se tornou escasso no mundo cinzento lá fora.
Olho para ela e sinto um nó apertado e doloroso se formar na minha garganta. Retribuo o sorriso, embora meus lábios estejam trêmulos pela descarga de adrenalina que corre pelas minhas veias. Se não fosse por essa mulher… eu honestamente não sei o que teria restado de mim. Quando o chão sumiu debaixo dos meus pés após a morte da minha mãe, quando o luto me paralisou e o dinheiro acabou, foi dona Mari quem estendeu a mão. Ela não me deixou afundar.
— Senhora Mari, eu prometo… — minha voz sai um pouco embargada, mais grossa do que eu gostaria, e eu me forço a engolir a saliva para espantar o choro. — No dia em que o meu primeiro salário cair na conta, a primeiríssima coisa que farei é transferir o dinheiro para a senhora. Quero quitar tudo o que está atrasado. Cada centavo dos aluguéis acumulados, a conta de luz que a senhora pagou do próprio bolso e a comida que tem dividido comigo nessa mesa.
Ela solta um suspiro manso, balança a cabeça negativamente e dá um gole curto no café, demonstrando a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para compreender que os prazos dos homens não são os mesmos do coração.
— Não gaste os seus pensamentos com isso agora, Sofia. Nós vamos ajustando as coisas aos poucos, sem pressa nenhuma. A única prioridade que você tem hoje, e nas próximas semanas, é se reerguer. O resto é apenas papel.
Engulo em seco, sentindo o peso da culpa e da gratidão esmagar os meus ombros sob a blusa de algodão branca.
— Mesmo assim… eu sinto que é injusto com a senhora. A senhora tem suas próprias despesas, seus remédios…
Dona Mari caminha até mim a passos lentos. Ela deixa a xícara sobre a pequena cômoda de madeira compensada e segura o meu rosto com as duas mãos. As palmas de suas mãos são calejadas pelo tempo, ásperas devido aos anos dedicados aos serviços domésticos, mas o toque nas minhas bochechas tem um carinho maternal tão profundo que quase me desmonta por completo.
— Você me faz companhia, Sofia. Desde que sua mãe partiu e a casa dela foi entregue, esse andar ficou silencioso demais. A minha própria casa parecia vazia. Eu prometi a ela, no final, que ficaria de olho em você, e é exatamente isso que estou fazendo. Deixe uma velha ser útil. Família não é uma questão de sangue, minha filha. É uma questão de quem escolhe ficar com você quando a tempestade aperta.
Sinto meus olhos arderem imediatamente. Pisco com força, olhando para o teto, tentando afastar as lágrimas que ameaçam transbordar. Borrar a maquiagem barata que comprei na farmácia da esquina logo no meu primeiro dia de trabalho definitivamente não é uma opção aceitável. Eu preciso parecer profissional, impecável, inabalável.
— A senhora é um anjo na minha vida, dona Mari. Um anjo de verdade.
Ela ri baixinho, um som rouco e gostoso que parece aquecer instantaneamente o ambiente frio e úmido do banheiro.
— Anjo não usa avental de cozinha, Sofia. Você é quem trouxe vida para este lugar. Só de ver você aqui, de pé, pronta para lutar todos os dias com essa garra, eu já me sinto recompensada. Você é como uma flor que teima em nascer no asfalto rachado. Agora, ande. Chegue cedo. O mundo lá fora não tem a menor pena de quem se atrasa, e você tem um império inteiro para ajudar a administrar hoje.
— Eu sei… — Puxo o ar com força, inflando os pulmões de coragem e tentando fixar essa energia no meu peito. — Tenho que estar na mesa antes das sete.
Pego minha bolsa de material sintético imitando couro, ajusto a alça no ombro e dou um beijo estalado e demorado no rosto enrugado dela.
— Me deseje sorte, por favor.
— Você não precisa de sorte, minha menina. Você tem competência. Vá com Deus e morda o mundo.
O trajeto até o centro financeiro da cidade é uma maratona desumana e claustrofóbica contra os ponteiros do relógio.
Primeiro, o ônibus de linha, sacolejando pelas ruas esburacadas do bairro até a estação de integração. Depois, o metrô subterrâneo. Uma massa humana e sufocante de corpos espremidos, de trabalhadores apressados, rostos cansados que olham para o vazio e respirações pesadas que embaçam as janelas dos vagões. O cheiro forte de café barato de estande, perfumes doces misturados e o odor metálico dos trilhos impregnam o ar impregnado. Meu coração bate acelerado contra as minhas costelas, ditando o ritmo frenético dos meus passos enquanto desvio dos pedestres nas calçadas largas da avenida principal.
Mas eu consigo, e chego lá.
Quando finalmente paro diante do imponente edifício de vidro temperado e aço escovado que abriga a sede da Stuart Corporation, sinto o ar faltar nos meus pulmões por um motivo totalmente diferente.
—
