Capítulo 2 2
Poucos minutos depois, Marlene entrou na sala carregando uma enorme bandeja.
O aroma doce se espalhou imediatamente pelo ambiente.
Panquecas.
Muitas panquecas.
Todas cobertas por uma generosa camada de chocolate.
Sobre uma delas, uma vela acesa iluminava o rosto sorridente da diretora.
Aquele era um ritual de aniversário.
Uma tradição simples, mas que todos aguardávamos ansiosamente quando nosso dia chegava.
— Hoje todas as panquecas são da nossa aniversariante. Um presente de aniversário e despedida.
Algumas crianças protestaram de brincadeira.
Outras riram.
E, pela primeira vez naquela manhã, consegui esquecer por alguns minutos o peso que carregava dentro do peito.
O café não durou muito.
Talvez porque ninguém soubesse exatamente o que dizer.
Quando terminamos, alguém se ofereceu para buscar minha mala enquanto eu dava os últimos abraços.
Recebi tantos votos de boa sorte que perdi a conta.
Quando finalmente atravessei a porta principal, Marlene caminhou ao meu lado.
O vento da manhã balançava levemente as árvores que cercavam o casarão onde vivi toda a minha vida.
Olhei para o prédio e senti um nó se formar em minha garganta.
— Já sabe para onde vai? — Marlene pergunta enquanto me acompanha até o portão.
— Com uma pesquisa na internet, Tori me ajudou a tirar alguns anúncios de apartamentos baratos. Mas primeiro, vou atrás de um emprego.
Marlene concorda com a cabeça.
— Está com dinheiro?
— Tudo o que ganhei quando começamos a fazer aqueles serviços de buffet. Quase mil libras.
Ela parece aliviada ao ouvir isso.
Ainda assim, seu olhar carregava preocupação.
Como o de uma mãe vendo um filho sair de casa pela primeira vez.
— Use esse dinheiro com sabedoria. — diz, segurando meu rosto entre as mãos. — Descubra o seu passado. E se precisar de qualquer coisa, conte comigo.
As lágrimas que eu estava segurando desde cedo finalmente ameaçam cair.
Marlene podia ser rígida quando precisava, mas também tinha cuidado de mim durante toda a minha vida.
— Obrigada por tudo!
Ela me abraça apertado antes de se afastar.
Poucos minutos depois, entro no táxi que me esperava em frente ao portão.
O motorista coloca minha mala no porta-malas e assume seu lugar atrás do volante.
Quando o carro começa a se mover, olho pela janela.
Marlene continua parada na entrada, Tori está ao seu lado e algumas crianças também saíram para se despedir.
Ergo a mão e aceno.
Eles fazem o mesmo.
E, enquanto o orfanato vai desaparecendo aos poucos no retrovisor, percebo que estou deixando para trás a única vida que já conheci.
Agora, pela primeira vez, o futuro dependia apenas de mim.
[...]
— Desculpe, senhorita Swan, mas você não tem nenhuma experiência para o cargo de vendedora. Sinto muito.
— Infelizmente já preenchemos a vaga de estoquista. Sinto muito.
— Você não se encaixa na vaga. Desculpe.
— Recém-saída de um orfanato? Sem residência fixa? Não fazemos caridade.
— Desculpe, querida.
— Não.
— Sem vagas.
— Vê na loja ao lado.
— Estude e depois tente algo.
— Você é bonita. Com um banho de loja e maquiagem, daria até uma boa modelo. Mas não estamos procurando no momento.
Aquela última resposta quase me fez rir.
Quase.
Porque, naquele momento, eu estava cansada demais até para isso.
Passei o dia inteiro andando de um lado para o outro, entrando em lojas, mercados, restaurantes e escritórios. Sempre começava da mesma forma.
Um sorriso, um cumprimento educado, um pouco de esperança.
E terminava exatamente igual.
Com mais um não.
No início da manhã, eu acreditava que encontraria alguma coisa rapidamente. Afinal, não estava procurando um emprego perfeito. Não me importava em carregar caixas, limpar chão, organizar estoque ou servir mesas.
Eu só precisava de uma oportunidade.
Mas, conforme as horas passavam, comecei a perceber que o mundo lá fora era muito diferente do que imaginava.
Ninguém queria contratar uma garota de dezoito anos sem experiência e sem endereço fixo.
O peso da minha mala parecia ter dobrado ao longo do dia.
Meus pés e pernas doíam.
E a pequena reserva de dinheiro que eu possuía parecia cada vez menor em minha mente.
Quando o fim da tarde começou a colorir o céu de tons alaranjados, decidi parar por alguns minutos em uma feira de rua. Precisava descansar e comer alguma coisa.
Com algumas moedas, comprei frutas suficientes para me manter alimentada pelo resto do dia.
Enquanto escolhia algumas maçãs, ouvi duas mulheres conversando atrás de mim.
— Vá lá! Os Lennox pagam bem.
— Mas eles têm empregada. A velha está na família há anos.
— Ela morreu ontem, menina! A família está louca por uma empregada nova.
— Vou lá amanhã bem cedo! Esse emprego já é meu.
Meu coração acelerou.
Emprego.
A palavra parecia mágica naquele momento.
Esperei as duas mulheres se afastarem antes de me virar para o feirante à minha frente.
— Poderia me dar uma informação?
Ele assentiu.
— Onde fica a casa dos Lennox?
O homem apontou para uma rua mais adiante.
— Você vira à direita e pega toda a rua. No final dela, há um condomínio. A casa deles é a maior de todas.
— Obrigada.
Saí da feira segurando uma maçã e comecei a seguir o caminho indicado.
Enquanto caminhava, mordia a fruta e tentava ignorar a pequena culpa que surgiu dentro de mim. Afinal, a outra mulher claramente pretendia disputar aquela vaga.
Mas, pensando melhor, ela nem sequer tinha ido até lá ainda.
O emprego não era dela e muito menos meu.
Seria de quem conseguisse convencer os Lennox.
E eu precisava daquela oportunidade.
Mais do que qualquer coisa.
Continuei andando até avistar os portões do condomínio. Mesmo de longe, era impossível não notar o luxo do lugar.
A entrada parecia maior do que algumas casas onde eu já havia trabalhado nos serviços de buffet.
Tudo parecia impecável.
Elegante.
Caríssimo.
Aquilo me fez questionar exatamente o quão ricos os Lennox eram.
Ao chegar ao portão, apresentei meus documentos e expliquei o motivo da visita.
O segurança me observou por alguns segundos antes de liberar minha entrada.
— Siga reto. Você vai encontrar a casa facilmente.
Assenti em agradecimento.
Não era difícil acreditar nele.
Bastava olhar ao redor.
As casas que se espalhavam pela rua pareciam ter saído de um conto de fadas.
Mansões enormes; Jardins exuberantes; Fontes; Varandas; Colunas.
Tudo era tão grandioso que eu me sentia deslocada apenas por caminhar ali.
Estava distraída admirando uma das propriedades quando ouvi o ronco de um motor.
Ao me virar, vi um carro avançando pela rua em alta velocidade.
Na minha direção.
Meu corpo reagiu antes mesmo que eu pudesse pensar.
Me joguei para o lado, caindo com força na calçada.
O carro passou por mim sem diminuir a velocidade. Sem buzinar ou sequer demonstrar que havia me visto.
— Droga... — resmungo.
A ardência no joelho surge imediatamente.
Olho para baixo e encontro a pele raspada, coberta por pequenos pontos de sangue.
Fecho os olhos por um instante.
Era exatamente o que faltava para completar aquele dia maravilhoso.
Com alguma dificuldade, volto a ficar de pé. A dor irradiava pelo joelho a cada passo.
Ainda assim, continuei caminhando.
Eu não tinha chegado até ali para desistir por causa de um tombo.
