Capítulo 3 3
Alguns minutos depois, finalmente avisto a casa dos Lennox.
Ou melhor...
A mansão dos Lennox.
Ela fazia todas as outras propriedades parecerem pequenas.
Um caminho de pedras atravessava o jardim impecável e levava até uma enorme porta de entrada.
Respirei fundo.
Alisei a roupa na tentativa inútil de parecer mais apresentável e então toquei a campainha.
Poucos segundos depois, a porta se abriu.
Uma mulher surgiu do outro lado.
Seu olhar percorreu minha aparência lentamente.
Dos cabelos desalinhados; à roupa simples; Ao joelho machucado.
Por um momento, tive a impressão de que ela estava decidindo se me mandaria embora imediatamente.
— Oi... — murmuro, sentindo a insegurança retornar. — Me chamo Lacey e... fiquei sabendo da vaga de empregada.
Uma de suas sobrancelhas se ergue.
— Você quer ser empregada?
— Eu aceito qualquer coisa.
Era a verdade.
Depois de me analisar por mais alguns segundos, a mulher finalmente deu um passo para o lado.
— Entre.
Obedeci imediatamente.
Assim que atravessei a porta, meus olhos se arregalaram.
O interior era tão luxuoso quanto o exterior.
Talvez até mais.
Lustres enormes; móveis elegantes; escadarias dignas de filmes.
Eu tentava absorver tudo ao mesmo tempo.
— O que aconteceu com você? — ela pergunta.
Baixo o olhar para meu joelho.
— Quando estava a caminho daqui, um carro avançou em mim com toda força e eu precisei me jogar na calçada para não ser atropelada.
A mulher pisca algumas vezes.
Como se estivesse processando aquela informação.
Então sua expressão muda ligeiramente.
— Me acompanhe.
Saímos do enorme hall de entrada e seguimos por um corredor tão amplo que parecia maior do que alguns cômodos do orfanato.
Eu tentava não parecer impressionada, mas estava falhando miseravelmente.
Cada detalhe daquela casa gritava riqueza.
Os quadros nas paredes, os lustres elegantes, os tapetes impecáveis e os móveis que pareciam ter saído de uma revista de decoração.
Passamos por uma sala de jantar e meus passos diminuíram involuntariamente.
No centro do ambiente havia uma mesa gigantesca.
Não uma mesa grande.
Gigantesca.
Ela era tão comprida que eu tinha certeza de que caberiam todos os moradores do orfanato sentados ali ao mesmo tempo.
— Quantas pessoas moram aqui? — pergunto, já imaginando a quantidade absurda de trabalho que aquela casa deveria dar.
— Apenas três.
Quase tropeço.
Três?
Olho novamente para a mesa.
Decido guardar meu comentário para mim.
Se aquilo era a casa de apenas três pessoas, eu nem queria imaginar como viviam as famílias realmente numerosas.
Continuamos caminhando até chegarmos à cozinha.
Panelas ferviam sobre o fogão. O cheiro de comida fresca preenchia o ar.
E, próxima ao balcão, uma senhora mexia uma das panelas com movimentos experientes.
Por um instante, meu coração afundou.
Se a empregada já estava ali...
Talvez eu tivesse entendido tudo errado.
— Essa é a Úrsula. — diz a mulher ao meu lado. — Nossa cozinheira. Úrsula? Você avisou a essa menina sobre a vaga?
A cozinheira se vira para nós.
Seu olhar repousa sobre mim por alguns segundos antes de ela negar com a cabeça.
— Não, senhora.
A mulher ao meu lado volta sua atenção para mim.
— Então como soube da vaga?
Sinto minhas bochechas esquentarem.
De repente, minha estratégia parecia muito menos inteligente do que havia parecido na feira.
— Eu ouvi duas mulheres conversando na feira... — admito. — E como estou precisando muito de uma oportunidade, resolvi vir primeiro que elas.
O silêncio que se segue dura apenas alguns segundos, mas para mim parece uma eternidade.
— Sabe que pode estar roubando o emprego de alguém, não é?
Assinto lentamente.
Talvez ela estivesse certa. Eu deveria me sentir culpada, mas estava desesperada demais para pensar nisso.
— Adorei!
Eu pisquei.
Uma vez.
Duas.
Três.
— O quê?
Ela começou a rir. Uma risada sincera e divertida.
— Você é sagaz. Gostei disso.
Minha confusão apenas aumentou.
Durante todo o dia eu havia recebido portas fechadas na cara.
Agora aquela mulher parecia me elogiar por algo que provavelmente deveria me deixar envergonhada.
— Sente-se, amorzinho. Vamos conversar.
Ela apontou para uma das cadeiras da cozinha.
— Está com fome? Úrsula, prepare um lanche para ela. Então, como se chama mesmo?
As palavras saíam tão rapidamente que eu mal conseguia acompanhá-las.
Quando finalmente se calou, apoiou os braços sobre a mesa e me encarou.
Seus olhos azuis transmitiam curiosidade. E uma gentileza que eu não encontrava havia horas.
Talvez até anos.
— Me chamo Lacey Swan. Bem... é o nome que me deram quando me acharam na porta de um orfanato.
O sorriso dela desapareceu suavemente.
— Você é órfã?
Engulo em seco.
Era uma pergunta simples.
Mas nunca uma resposta fácil.
— Eu... eu não sei.
Ela permaneceu em silêncio, esperando que eu continuasse.
— Fui deixada na porta de um orfanato quando tinha quase dois anos. E só sabem a minha data de aniversário porque a única coisa que a pessoa que me largou lá deixou foi uma pulseira de ouro, com a data gravada, e um bilhete dizendo que não podiam cuidar de mim.
Por um instante, a cozinha ficou silenciosa.
Nem mesmo a movimentação de Úrsula pareceu quebrar aquele momento.
— E você nunca foi adotada?
Nego com a cabeça.
— Por quê?
Aquela pergunta arrancou uma dor que eu normalmente mantinha escondida.
Baixo os olhos para minhas mãos.
— Eu tinha esperança de que alguém fosse me procurar.
Minha voz sai mais baixa do que pretendia.
— E se eu tivesse sido adotada, corria o risco de nunca mais ver minha família de sangue.
Pela primeira vez desde que começamos a conversar, Aby não parece saber exatamente o que dizer.
Ela apenas me observa.
— Quanto tempo faz que você saiu do orfanato?
Uma risada sem humor escapa dos meus lábios.
— Algumas horas...
Agora sim sinto vergonha.
Eu havia saído do orfanato naquela manhã e passei o dia inteiro ouvindo negativas.
Terminei ali, machucada, cansada e sem rumo.
— Tem residência fixa?
Balanço a cabeça negativamente.
— Dinheiro?
— O pouco que consegui juntar. Dona...
— Abigail. Mas me chame de Aby.
— Dona Aby...
— Só Aby, Lacey.
Ela sorri.
E, pela primeira vez naquele dia, sinto que alguém realmente me enxerga como uma pessoa.
Não como um problema. Apenas como alguém que precisava de uma chance.
Respiro fundo.
Era agora ou nunca.
— Aby... eu gostaria que pudesse me dar essa chance.
Ela permanece em silêncio.
Escutando.
— Sei que não tenho experiência nesse cargo, assim como em muitos outros que tentei hoje, mas eu preciso de um emprego para que eu possa usar o meu salário para descobrir o que aconteceu no meu passado. É só o que lhe peço.
Quando termino de falar, meu coração está acelerado.
Era a primeira vez que eu admitia aquilo para alguém. Que encontrar minhas origens era mais importante do que qualquer outra coisa.
Aby cruza as mãos sobre a mesa.
— Olha, querida, suponho que você não tenha carteira de trabalho. Certo?
Assinto.
— Então eu não poderia te contratar legalmente.
Meu estômago afunda.
Outra vez.
Mais uma porta fechada. Mais uma derrota.
Sinto meus olhos queimarem imediatamente.
Não.
Eu não iria chorar.
Não ali.
Não na frente dela.
— Mas posso deixar que trabalhe aqui e receba o que lhe é de direito. Mesmo sem comprovação de renda.
Por alguns segundos, tenho certeza de que ouvi errado.
— O quê?
— Você está contratada, Lacey Swan.
O mundo parece parar.
E, depois de um dia inteiro ouvindo "não", aquela simples frase parece a coisa mais bonita que já escutei na vida.
