Capítulo 2 DANNA DAVE II
- O senhor Dave não está em casa, senhorita.
Eu ri, com escárnio:
- Acha que não sei disto? Por acaso imagina que sou cega?
- Não, senhorita. Me perdoe a forma como falei... Não quis ofendê-la... Ele só... Não chegou... Ainda.
Respirei fundo, não disposta a demitir outra empregada naquela semana. Meu dia não havia sido de um todo ruim para que eu destruísse a vida de uma pobre coitada que se achava capaz de trabalhar na minha casa. Lhe daria uma nova chance, já que eu era uma boa pessoa. Mas se novamente me tratasse como uma débil mental, já que era óbvio que eu sabia que meu pai não estava em casa e caso soubesse não me daria ao trabalho de perguntar, gastando minha preciosa voz.
Voltei para meu quarto e peguei o celular, discando diretamente para ele:
- Pai, onde você está?
- Oi, Danna. Irei jantar com Nadine hoje.
- Como assim irá jantar com Nadine?
- Sim, é isso mesmo. Convidei-a para jantar só nós dois. Ou vai dizer que queria jantar conosco? Saiba que tive que sair de minha própria casa para jantar com minha namorada porque não aguento mais a forma com a trata.
- Trato Nadine como ela merece ser tratada: uma pistoleira, papa-viúvos.
- Você está em casa?
- Como sabe?
- Mandei rastrear seu telefone.
- Isso é ilegal. Não sou de menoridade. Posso processá-lo por invasão de privacidade.
Ele riu:
- Pois o faça. E a próxima vez que chamar Nadine de pistoleira ou papa-viúvos, terei que tomar providências mais severas com você.
- Estou tremendo de medo.
- E eu cansado de você!
- Como pode dizer isto da sua própria filha? Qual o pai se cansa de falar com a filha? Qualquer juiz me daria ganho de causa... Estou sendo profundamente afetada psicologicamente com a forma como me trata.
- Qualquer juiz perceberia que você tem sérios transtornos psicológicos os quais se recusa a tratar. Sobre não ter ido na faculdade... Quer reprovar novamente este semestre?
- Estou me fodendo para isto! – Encerrei a ligação e joguei o telefone longe.
Deitei na cama e fechei os olhos. Eu odiava Nadine. Ela estava tentando tirar o meu pai de mim... E tomar o lugar de minha mãe. Será que aquela mulher não entendia que jamais poderia fazer parte da nossa família? Celli Davi era insubstituível.
Eu não me importei em jantar naquela noite. No meu pensamento só queria que Nadine se engasgasse com a comida e morresse sobre a mesa, junto de meu pai, para que ele carregasse a culpa da morte dela pelo resto da vida. Então ele entenderia o que se passava dentro de mim e perceberia que eu não era uma adolescente em busca de atenção... Eu era uma mulher, adulta, que nunca seria perdoada. Sabia que quando eu morresse iria diretamente para o inferno e pagaria por todos os meus pecados, principalmente o de ter matado minha própria mãe.
Mas eu não queria mais pensar naquilo. Já havia me martirizado e maltratado por muitos anos da minha vida. Aliás, tantos que já nem tinha mais lágrimas para chorar.
Quando percebi minha mente foi ficando longe e o sono tomou conta de mim. Então encontrei aquela árvore, estranha, de caule fino, magro, cinza claro. Sua folha era verdinha e tenra e quando eu a dobrava, a sensação de quebrá-la ao meio era estranha e ao mesmo tempo satisfatória. Tinha tantas folhas... Estreitinhas, mas longas, uma a uma agarrando-se aos galhos finos, que desciam como ondas até o chão, como se quisessem fazer uma cabana para que alguém pudesse morar dentro. Os galhos se balançavam com vento fresco... E conforme eu me afastava e a via de outro ângulo, a grande árvore parecia chorar...
Abri os olhos e sentei-me num sobressalto. De novo aquela árvore no meu sonho! Desde a morte de minha mãe ela costumava povoar meus sonhos vez ou outra. E eu não entendia o que aquilo queria dizer, tampouco consegui identificar que tipo de árvore era aquela, já que a descrevia na internet e vinham várias espécies, mas nenhuma a que eu via no meu sonho. Talvez eu jamais soubesse o que ela significava... Ou quem sabe ela era só a minha mãe que vinha me ver no meu subconsciente e acariciar-me... Seriam as folhas tão verdinhas e perfeitas os seus dedos macios que me faziam sentir uma saudade sem fim?
Apertei o botão do controle e as persianas começaram a abrir, mostrando que já o dia já estava amanhecendo. Pulei da cama, lembrando que tinha aula com Jax naquela manhã.
Fui ao meu closet e fui escolhendo vários looks que combinavam, incerta sobre o que usar. Acabei optando por um vestido preto DG, com um farto decote, acompanhado de uma meia calça preta e sapatos Jimy Choo. Por cima um blazer Dior, com detalhes brancos. Pensei em passar no salão antes e arrumar os cabelos, mas olhei no relógio e talvez não desse tempo. E como a aula de Jax era a primeira, não poderia me atrasar um minuto sequer.
Observei meus cabelos pretos lisos, iguais aos de minha mãe. Eu ainda lembrava que quando estávamos ao sol, eu dizia que os fios dela brilhavam. E ela sempre rebatia, orgulhosa: “Seus cabelos são como os meus”.
Naquele ano eu havia cansado do corte de sempre e optei por uma franja reta, para mudar o visual. No fim, gostei muito do resultado embora Moana insistia que o corte era ultrapassado e fora de moda e em nada combinava comigo.
