Capítulo 3 Prólogo
Não sei dizer em qual tempo estou.
É como se estivesse suspensa, entre o sopro da última respiração e o silêncio que vem depois. Já morri tantas vezes que as memórias se confundem; vidas inteiras se diluem como tinta em água, mas as cicatrizes que elas deixaram permanecem gravadas em mim.
Eu me lembro das maldições físicas. Cada uma delas marcou meu corpo, minha alma, minhas escolhas. Às vezes, penso que não fui eu quem viveu tudo isso, mas sim uma sucessão de sombras que me moldaram até aqui. Ainda assim, sinto o peso de cada erro, cada renúncia, cada derrota que o destino impôs.
O que me assusta não é a morte — aprendi a conhecê-la de perto. O que me assusta é que esta seja, de fato, a última vida. O fio que me prende aos perversos está mais tênue, e a sentença deles ecoa em meu sangue: não haverá outra chance.
Sei que algo mudou.
Não é só o peso da repetição que me esmaga. Há uma diferença sutil, quase invisível, mas que pulsa dentro de mim. É como se uma fome tivesse surgido para desafiar o fio que dita o meu destino.
Não sei explicar. Sinto algo maior do que eu, maior do que todos nós. E, pela primeira vez em muitas vidas, não aceito calada. Sinto dúvida, sinto medo, mas acima de tudo esperança; talvez essa seja a parte mais cruel de todas: achar que, de alguma forma, posso ser mais do que aquilo para o qual fui criada.
Então vejo-os à minha frente, aqueles que carregam o mesmo fardo que o meu.
Três silhuetas se movem com a calma de quem já aceitou a descida. Cada gesto deles parece carregado de um silêncio antigo, como se suas almas também lembrassem do que fomos e do que perdemos em outras vidas.
Eles se preparam, ajustam suas marcas e respiram fundo. Há uma seriedade em seus olhos que não consigo compartilhar. Eu os observo, e dentro de mim cresce a certeza: não chegou a minha vez.
Meu corpo permanece imóvel, suspenso entre o impulso de segui-los e a compreensão de que devo esperar. Não sei se essa espera é uma condenação ou uma misericórdia. Apenas sei que há um instante reservado para mim, e ele ainda não se abriu.
Eles caminham adiante, e eu permaneço aqui. Eles descem um a um, como se respondessem a um chamado que apenas eles podem ouvir. Não há pressa, mas também não há retorno em seus passos.
Fico para trás.
A espera nunca me pareceu tão longa, mas aqui o tempo passa diferente do outro plano, transformando segundos em eternidades. Observar os outros seguirem em frente me traz um misto de sensações.
Se este é o último ciclo, que seja o meu. Que minhas escolhas sejam minhas, ainda que me levem à ruína. Melhor a queda pela própria vontade do que sobreviver incompleta.
É nesse pensamento que começo a andar. Não decido a direção, apenas caminho, guiada por uma urgência que desconheço. Só percebo quando o espaço ao redor se abre para revelar uma árvore imensa. Seu tronco é retorcido, antigo, mas o que me prende são os frutos: pesados, brilhantes, quase pulsando de vida, como se chamassem por mim. A tentação é tão viva que chega a doer.
Sentada junto às raízes, como se fosse parte da própria árvore, está uma mulher. Seus cabelos descem em ondas escuras, e seu rosto parece comum até que o terceiro olho, bem no centro da testa, se revela.
Não sei quem ela é, mas ao me fitar, sinto como se todo o silêncio do mundo se transformasse em voz dentro de mim. Ela inclina a cabeça e aquele terceiro olho arde, e sinto como se todos os meus segredos estivessem expostos, como páginas viradas por mãos invisíveis.
— Você carrega em si o vazio e a fome que nenhuma vida preencheu.
Minha pele arrepia e não há como negar — ela lê tudo.
— Acredita que nunca teve escolha real — ela continua, suave, quase em tom de lamento. — Foi ceifada antes da hora, sempre interrompida, sempre arrastada pela corrente que não controla. Não lhe permitiram descobrir o propósito que a move.
Fecho os punhos. Um turbilhão explode dentro de mim — memórias de mortes, de amores arrancados, de vidas que nunca se completaram.
— Sempre acreditou que era apenas uma peça, não é? — A mulher ergue o queixo, e o terceiro olho pulsa como uma chama imóvel. — Uma chave que serve, mas não vive.
Minha garganta está ardendo.
As palavras ecoam como verdades que sempre temi admitir.
— E não é isso o que sou? — Minha voz sai rouca, carregada de um peso antigo. — Em cada vida, só fui conduzida. Morrendo cedo demais. Perdendo antes mesmo de aprender o que era viver. Nunca pude escolher. Nunca pude decidir nada.
Seus três olhos me observam sem julgamento, refletindo apenas cada dor que tento esconder.
— Você sente como se fosse apenas um detalhe na história deles — ela inclina a cabeça levemente. — Nunca protagonista da sua.
Meu peito aperta. O que ela diz é verdade, e dói ouvir em voz alta.
— Eu não quero ser só isso — respondo, e as palavras me escapam como se tivessem esperado eras para emergir. — Não quero ser apenas uma sentença que alguém escreveu para mim. Cansei de ser marionete dos deuses, cansei de morrer sem entender meu propósito.
— Mas já viu o que acontece com aqueles que ousam levantar-se contra eles… — Sua voz é calma, mas o aviso é claro. — Todos foram esmagados. Alguns perderam tudo, outros, a si mesmos.
— Então, que seja! — minha voz treme, mas não de medo, e sim de fervor. — Não aceito continuar sendo apenas uma chave que abre ou sela o destino dos outros. Quero ser mais.
Ela se cala. O terceiro olho pulsa, e sinto que ela me atravessa por dentro, esperando que eu continue.
— Quero sentir — digo, quase em súplica. — Quero amar sem que o amor seja arrancado de mim. Quero viver sem que cada vida termine em sangue. Quero saber quem sou, além das correntes que me prendem.
Por um instante, o silêncio pesa entre nós. Então, a mulher fala, quase como um eco do que já sei:
— Você não teme a morte; teme a vida que ainda não viveu.
Fecho os olhos. As lágrimas queimam, mas junto delas há um fogo novo.
— E é por isso que vou desafiar. Pela primeira vez, quero ditar os meus passos. Não importa o preço.
Os três olhos me fitam em silêncio, e, nesse silêncio, sei que minha decisão foi ouvida.
Algo muda na árvore.
Os frutos começam a pulsar como corações despertos. A casca translúcida se rompe em fendas luminosas e, delas, escorrem rios de cor — azul, verde, roxo, laranja, dourado, vermelho vivo, rosa, preto e branco. As cores escorrem em fios líquidos, mesclando-se e se separando, como um arco-íris que respira.
A mulher ergue a mão e colhe um único fruto. Ele brilha com intensidade impossível, cada tom se movendo sobre sua superfície como labaredas que se entrelaçam.
— O Pomum Nefas… — sua voz ecoa dentro de mim, carregada de uma verdade antiga demais para ser negada. — Ele não pertence aos deuses, e jamais pertencerá. Porque nele não há submissão, apenas ruptura.
Os três olhos dela se fixam em mim. O terceiro arde, e sinto que aquela oferenda é mais do que um teste: é um veredito.
— Coma, se tiver coragem. Coma, se ousar desafiar a sentença que sempre lhe foi imposta. Este é o presente que posso oferecer para sua última vida.
Minhas mãos tremem ao segurar o fruto. Sua casca é quente, viva, e as cores escorrem pelos meus dedos, tingindo minha pele como fogo líquido.
Ela se inclina e sua voz vibra como trovão contido:
— Ao ousar escrever o próprio destino, você altera o curso do mundo. Nenhum deus perdoa a insolência de ser desafiado. Esteja pronta para a guerra que virá.
Então, sua provocação ecoa dentro de mim como uma lâmina sussurrada:
— Diga-me se prefere rasgar o véu e compor sua própria canção, ou seguir dançando ao som de uma melodia que nunca lhe pertenceu?
Olho para aqueles três olhos e, no fundo, a resposta já me consome: não dançarei mais a música que os deuses escolheram.
Seguro o fruto com firmeza. Levo-o aos lábios e dou a primeira mordida.
O sabor explode como um arco-íris em chamas — doce e amargo como se cada cor tivesse sua própria voz dentro de mim: o azul devolve o reflexo do eu fui, o verde recompõe a vida que me foi arrancada cedo demais, o vermelho reata a ligação com o outro mundo, o roxo reabre passagens seladas, o laranja se ergue me protegendo, o dourado cura a minha alma e cada parte do meu corpo, o rosa devolve o encanto esquecido, e o preto e o branco, inseparáveis, duelam — um absorvendo o castigo, o outro revelando a falha — abrindo uma brecha na penalidade imposta pelos deuses.
As oito chamas correm pelo meu corpo, atravessam meu sangue, despedaçam tudo o que eu fui.
— Lembre-se — diz a mulher, firme e serena —, esta é a tua forma verdadeira, aquela que só se manifestará quando completar vinte e um anos. Até lá, ela permanecerá oculta, aguardando o momento certo.
E quando o último eco do fruto se dissolve em meu ser, sou tomada por dor e êxtase, e então, o mundo se parte.
A árvore, a mulher, o espaço suspenso — tudo desaparece.
Das fendas da noite, ergue-se uma lua vermelha, sangrando no firmamento como um olho aberto sobre o destino. Seu brilho cobre a terra em véus de escarlate, e sinto-me despencar em queda lenta, como estrela arrancada do cosmos.
As cores explodem ao meu redor, serpenteando no céu em labaredas vivas, e minha descida se transforma em um cometa colorido, um arco em chamas atravessando a noite.
POMUM NEFAS - Do Latim, fruto proibido.
