Capítulo 4 1

ZEPHYR

Meus passos me trazem ao lago de Noxara porque não há outro lugar que me tolere. Cada árvore ali guarda algo apodrecido, memórias antigas que nunca tiveram descanso. Troncos retorcidos, raízes expostas, sombras espessas demais para serem naturais. É o tipo de lugar que entende o que eu sou sem exigir explicações.

É aqui que venho quando o mundo exige que eu fique quieto. Não por paz. Nunca por paz.

Este silêncio não me oferece consolo; ele alimenta o que me define. Foi nele que aprendi que o ódio não é ausência de algo — é presença demais. É a única companhia que nunca tentou ir embora.

Mas esta noite não respeita nem isso.

O ar muda sem pedir permissão. Um vento atravessa a margem do lago e arranha minha pele como um aviso mal disfarçado. Não pertence a Noxara. Não pertence a mim. Algo está errado, e meu ódio reage antes da razão, se espalhando quente pelo peito, acordando o que deveria continuar contido.

Sinto as correntes antes mesmo de pensar nelas.

Elas não aparecem aos olhos de ninguém além de mim, mas estão lá — cravadas fundo, presas ao que sou e ao lugar que me foi imposto. Hoje, porém, não estão quietas. Vibram sob a pele, tensionadas, como se algo do outro lado estivesse puxando de volta. Cada passo que dou faz o metal invisível ranger dentro de mim, um som que não ecoa no mundo, apenas no ódio que carrego.

Pego um cigarro do bolso, levo aos lábios e trago fundo. A fumaça queima o peito de um jeito familiar, reconfortante. Ao soltá-la, percebo que ela se move diferente — não se dispersa, não sobe livre. As minhas sombras a capturam, a enrolam, a mantêm ao meu redor como cães raivosos esperando as ordens. Elas querem sair. Querem avançar. Querem machucar alguma coisa.

Eu também quero.

Continuo subindo. O terreno se eleva, as árvores se afastam, e o silêncio pesa como uma ameaça contida. As correntes apertam um pouco mais, respondendo à proximidade do ponto mais alto, como se soubessem que estou me aproximando de algo que não deveria ser ignorado.

Quando chego à clareira, paro.

Ergo o olhar.

A lua não é mais a mesma.

Onde deveria haver prata fria, há sangue. Uma esfera vermelha domina o céu, grotesca, aberta como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Sua luz não ilumina — provoca. Mancha o firmamento com um brilho carmesim e doente, como se o próprio céu estivesse sangrando por algo que foi despertado cedo demais.

Sinto o peso desse erro se acomodando em mim.

Solto a fumaça devagar, os olhos fixos na lua sangrenta. Não sinto surpresa. Sinto a certeza amarga de que o equilíbrio que me mantém preso está prestes a ser testado. Algo mudou nesta noite.

E se ela realmente estiver voltando, então essas correntes não vão aguentar por muito mais tempo.

Eu não estou sozinho.

Percebo antes de olhar. As sombras se retraem levemente, não em alerta, mas em reconhecimento. Um aviso sutil. Viro o rosto devagar e o vejo.

Dexter está encostado em uma das árvores na borda da clareira, quase confundido com a própria sombra do tronco. Uma perna dobrada, o ombro apoiado na casca áspera, o olhar baixo. O canivete gira entre seus dedos com precisão irritante — sobe, cai, gira de novo, passando perigosamente perto da pele sem nunca tocar. Nenhuma pressa. Nenhum erro. Crueldade pura, sempre foi assim: silenciosa, paciente, letal.

Levo o cigarro à boca e trago fundo antes de falar.

— Faz tempo que você chegou?

Ele não levanta o olhar. O canivete continua dançando entre os dedos.

— Antes de você — responde, a voz baixa, sem emoção. — O suficiente pra saber que não foi coincidência.

Dou um passo à frente. As correntes se contraem de novo, inquietas, como se reagissem à presença dele também. As sombras se agitam ao meu redor, desconfortáveis.

— Então você sentiu — digo, mais como constatação do que pergunta.

O canivete para por um segundo. Dexter fecha com um estalo seco e, só então, ergue os olhos para mim.

— Senti — ele diz. — Foi… claro demais pra ignorar.

Olho de volta para a lua sangrenta. Ela parece maior agora. Mais próxima.

— Não era pra isso acontecer ainda — rosno. — As correntes não deveriam reagir assim.

Dexter descruza a perna da árvore e se endireita lentamente, cada movimento calculado. Ele guarda o canivete no bolso, mas a sensação de lâmina continua no ar.

— Nada reage sem motivo — responde. — E você sabe disso melhor do que ninguém.

Solto a fumaça em uma expiração longa. Ela se espalha entre nós, presa pelas sombras como um véu espesso.

— Ela está se aproximando — digo, por fim.

Dexter inclina levemente a cabeça, um gesto quase imperceptível.

— Eu sei.

O silêncio que se segue é pesado. Não há perguntas. Não há negação. Apenas a certeza compartilhada.

— O chamado ficou mais forte quando a lua mudou — ele acrescenta. — Como se alguém tivesse… aberto uma porta.

Meu maxilar se contrai.

— Ou forçado uma.

As correntes vibram de novo, mais fortes desta vez. Sinto o metal invisível puxar, reclamar, ameaçar ceder. As sombras se enrolam ao meu redor, possessivas, irritadas. Dexter observa tudo sem se mover, como se estivesse avaliando o momento exato de agir.

— Se ela atravessar — ele diz, num tom quase casual — isso aqui deixa de ser uma prisão.

Desvio o olhar da lua e encaro Dexter.

— Não — respondo, com um sorriso curto, cheio de ódio contido. — Isso aqui vira um campo de caça.

Por um instante, algo parecido com satisfação cruza o rosto dele e sob a lua vermelha de Noxara, crueldade e ódio entendem, sem precisar dizer mais nada, que o mundo está prestes a sangrar de novo.

O que antes era inimaginável se torna realidade diante dos meus olhos atônitos: uma estrela se despedaça no alto, e junto dela, uma cauda flamejante queima intensamente, desenhando no céu uma dança de luzes e cores que desafiam toda lógica.

Dentro de mim, sinto meu sangue pulsar com uma intensidade febril, fervendo em minhas veias como se um fogo invisível se espalhasse. Não a vejo, não posso tocá-la ainda, mas tenho a certeza absoluta de que ela voltou e está respirando em algum lugar agora. E somente essa certeza é suficiente para incendiar cada parte de mim, para fazer todo o meu ser clamar desesperadamente por sua presença.

E eu, Zephyr, com todo o peso da minha maldição e a chama do meu ódio, sei com plena certeza que nada no mundo poderá me deter quando chegar o momento de encontrá-la.

Porque, mesmo que eu esteja preso nesta existência amaldiçoada, mesmo que só reste de mim o ódio que consome minha alma, sou dela. Sempre fui e sempre serei seu, independentemente do que o destino ainda reserva para nós. Ela nasceu para ser a última esperança, o princípio e o fim da minha existência, e eu, seu servo irredimível, aguardarei o tempo necessário para que possamos finalmente nos encontrar e cumprir o papel que nos foi destinado desde o início dos tempos.

Trago o cigarro com as mãos trêmulas e puxo profundamente o ar denso e impregnado de tabaco, sentindo a fumaça invadir cada canto dos meus pulmões, preenchendo-os com seu sabor amargo e familiar.

O calor incandescente da brasa brilha vívido e me puxa com força para dentro daquele passado sombrio que me assombra incessantemente, resgatando-me, quase como um fio invisível que me liga de volta àquela noite fatídica e eterna.

Eu me vejo novamente caminhando por aquelas ruas incendiadas, onde o chão está coberto por um manto de cinzas que vêm das chamas vorazes que devoram a cidade por inteiro. Naquele cenário apocalíptico, a cidade não parecia mais viva, mas sim um cadáver em chamas, irradiando um inferno sem fim.

O ar está impregnado por um cheiro nauseante de carne queimada, misturado a um odor metálico e ácido que arde as narinas. Enquanto eu sigo entre os escombros de construções destruídas, homens da ordem chamada de “primeira voz” surgem, bloqueando meu caminho. Eles estão prontos para impedir aquilo que não compreendem com a certeza de que podem controlar aquilo que foge à lógica humana. Mas eu não hesito. Nunca hesito.

Do meu comando, as sombras surgem — não simples trevas, mas entidades vivas, versáteis e pulsantes, que ondulam como feras selvagens não domesticadas. Elas são negras, densas, quase sólidas, parecem feitas das entranhas do próprio manto pesado que cobre a noite. Erguem-se do chão, afiadas e retorcidas, ferozes e vorazes, prontas para o que quer que eu ordene. Sem compaixão, elas avançam, atravessando gargantas com a precisão de uma lâmina invisível, rasgando ventres com um poder desumano, esmagando ossos como se fossem frágeis galhos secos.

O sangue jorra em véus escarlates, um espetáculo macabro que tingia as pedras, uma pintura cruel feita de desespero e morte. A noite é dilacerada por gritos — gritos lancinantes de dor, súplica desesperada, um lamento profundo que perfura o silêncio da destruição. Do caos que se segue, nada resta senão pura carnificina, uma lembrança sangrenta da minha ira.

E ali, entre o horror e o derrame da minha fúria, ela estava lá — minha testemunha silenciosa e aterrorizada, observando cada gesto que eu fazia, cada ato de destruição que saía das minhas mãos. Seus olhos de arco-íris, amplos e viscerais, refletiam as mortes que provoquei, o pavor estampado em cada centímetro do seu rosto lindo e trêmulo. Ela me olhava como se eu fosse um pesadelo encarnado, uma visão que nenhum ser deveria presenciar. Eu deveria ter feito tudo para esconder aquilo de seus olhos, deveria ter me escondido junto com a escuridão que me consome. Mas não consegui — eu quis que ela visse, quis que ela entendesse a essência verdadeira do que sou, que me fez conhecido como Senhor das Trevas.

Foi então que sua voz cortou o silêncio como uma lâmina fria, mais cruel e dolorosa que qualquer ferida física que eu poderia suportar.

— Jamais poderia amar um monstro como você.

Aquelas palavras caíram sobre mim como uma sentença definitiva de condenação, uma certeza eterna de rejeição e solidão. A dor que elas provocaram rapidamente se transmutou em uma fúria ardente, uma chama negra que cresceu dentro do meu peito até me consumir por completo.

As sombras responderam ao meu sentimento como feras enlouquecidas pelo cheiro do sangue. Sem hesitar, lancei essas entidades obscuras contra ela, envolvê-la com elas como se fossem cobras violentas. Elas começaram a rasgar sua carne viva, dilacerando o que por tanto tempo existira como alma e corpo. A pele se abriu em feridas vermelhas e pulsantes, músculos se romperam como cordas frouxas, ossos estalaram como galhos secos sob uma tempestade. Seu grito — um som desesperado, ancorado na mais profunda agonia — cortou o ar, e eu ouvi cada nota dele como se fosse uma melodia perversa que me alimentava, que me fortalecia.

Vi o sangue escorrer de sua boca, seus olhos cristalinos perderem todo o brilho de vida, enquanto eu continuava. Não porque fosse imperativo, não por necessidade, mas porque eu queria, porque meu ódio não conhece limites, nem tem espaço para a compaixão ou para o perdão. Eu não detive aquela carnificina; eu a alimentei, acabei por me afogar naquela maré negra de destruição que nascia daquilo que sou e do que ela me havia escolhido ser.

Eu a dilacerei, pedaço a pedaço, com as mesmas trevas corrompidas que há tanto tempo me consomem e me definem. Matei-a com as minhas próprias mãos, encharcadas da maldição que carrego, e mesmo então, apesar de tudo, mesmo coberto com seu sangue rubro, sua carne despedaçada e sua vida cessada diante de mim, continuei a desejá-la — talvez mais intensamente que antes. Porque dentro da monstruosidade que sou, ainda existe uma dolorosa verdade: ela representa tudo aquilo que perdi e que não posso ter, o amor negado que me arde eternamente.

Foi naquela existência, naquela noite apocalíptica, que eu tirei sua vida para sempre. Dilacerei o que mais queria no mundo, deixando-me consumir pelo abismo que mora dentro do meu ser. Desde aquela hora, o ódio que sinto não fez senão aprofundar-se, tornando-se mais cruel, mais perverso, uma sombra viva que se alastra em cada canto da minha alma. E se antes eu a destruí por rejeição, por sentir-me um monstro impossível de amar, agora, no presente, isso não importa mais. Não importa se ela me ama ou não, porque desta vez o destino segue seu curso, e meu caminho é traçado por uma força sombria, que me condena a carregar esse fardo eternamente, mergulhado na escuridão.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo