Capítulo 5 2

ZEPHYR

De repente, ouço passos pesados se aproximando entre as árvores, o som grave que ecoa na floresta como um aviso. Conheço cada um deles. Porra. Era óbvio que eles viriam até aqui.

Knox surge primeiro. Maldito Knox, sempre com aquele sorriso debochado de quem parece intocável e mordendo o resto do pirulito de morango que ele sempre carrega, indiferente ao que acontece ao redor, como se nada pudesse realmente machucá-lo ou afetá-lo de verdade.

— Olha só, fumando e filosofando de novo, chefinho. Aposto que sua cabeça estava cheia, né? — Sua voz, cheia de sarcasmo, tenta cutucar, provocando a ferida aberta entre nós.

Sinto meu sangue ferver, a raiva crescer ali dentro, mas não respondo.

Em seguida, aparece Kaisar, que caminha em silêncio, mas o peso de sua presença jamais passa despercebido. Seus olhos azuis são como abismos que guardam segredos profundos, e mesmo no silêncio, ele impõe respeito. Quando finalmente fala, sua voz baixa corta o ar, e a floresta parece silenciar em reverência à sua palavra.

— Eu senti também. Tudo isso, a energia, a presença. — disse, apenas isso, mas o ambiente ficou ainda mais denso.

Por último, aparece Ashton, aquele filho da puta insolente e impaciente, que não tem medo de cuspir palavras afiadas como lâminas, destilando verdade crua em cada sílaba.

— Vocês sentem toda essa merda e ficam calados? A porra da lua está sangrando, e vocês querem fingir que é só uma coincidência? Não é coincidência, porra. Ela voltou — sua voz é implacável, quase um grito de alerta para todos nós.

Eu me levanto devagar, como se estivesse despertando de um transe profundo. Apago a ponta do cigarro no chão com firmeza, sentindo o estalido do filtro enquanto piso nele. O lago atrás de mim reflete a lua vermelha que está alta no céu, lançando um brilho sangrento sobre tudo, e o cometa que ainda deixa rastros luminosos e coloridos cruzando a escuridão do céu noturno.

Eles sabem o que está acontecendo. Eu sei. O fio invisível que nos conecta puxou todos até aqui. Não há retorno e nada, absolutamente nada, vai conseguir segurar o inferno que está para desabar sobre nós.

— Caralho, Zephyr — Ashton explodiu, cuspiu palavras carregadas de mau humor enquanto se aproximava com passos firmes — Você sabia disso antes de todo mundo, né?

Dou um meio sorriso, meio cínico, puxo outro cigarro para dentro da boca com calma, tragando fundo até a ponta ficar vermelha, e então expiro a fumaça direto no rosto dele, como um aviso silencioso.

— E o que você queria que eu fizesse, seu puto de merda? Que eu abrisse uma garrafa de champanhe? Ela nasceu. Ponto final.

Knox dá uma gargalhada alta, como se tudo aquilo fosse mais uma piada do que um motivo para tensão.

— Olha só você, todo sentimental, escondido atrás da sua pose de fodão. Aposto que está aí, imaginando as perninhas dela chegando correndo até você, não está?

— Cala a porra da boca, Knox — rosno, sentindo as sombras irrequietas ao meu redor começarem a se mover, como se captassem minha raiva. — Senão, vou arrancar sua língua e fazê-la gargalhar por você.

Kaisar levanta a mão com autoridade, sua voz firme como se fosse feita de ferro bruto.

— Chega. Este não é o momento para brincadeiras, muito menos para começarmos essa briga estúpida. Ela retornou e temos uma nova chance.

Ashton responde com um tom carregado de sarcasmo, cuspindo no chão com desprezo.

— Chance? — rebate, olhando para mim com desprezo. — Duvido muito, Zephyr vai acabar transformando tudo em um desastre, como sempre.

Sinto meu sangue começar a ferver, dou um passo à frente, e as sombras ao meu redor começam a responder, tremendo inquietas como se sentissem minha fome insaciável.

— Repete isso, seu arrombado.

Ashton abre os braços, soltando uma risada provocativa e desafiadora.

— Parece que toquei em um ponto sensível. Vai repetir o show ridículo que você protagonizou? Vai me dilacerar do mesmo jeito que fez com ela, quando te encarou nos olhos e te rejeitou?

Dou outro passo, e a sombra se ergue, transformando-se em uma chama negra pronta para consumir. De repente, sinto um empurrão violento no peito. É Dexter gritando, sua voz estrondosa, como um trovão rompendo o silêncio ameaçador.

— CHEGA, PORRA! — Sua voz retumba no ambiente — Vocês estão se esquecendo do que está realmente em jogo aqui. Essa é a última vida. Se começarmos a nos matar aqui, entregaremos a vitória aos deuses sem que eles sequer precisem mover um dedo.

O ar fica denso, carregado, quase palpável em sua opressão. O único som que escuto é minha respiração pesada, curta e marcada pela fúria, como se cada inspiração me envenenasse ainda mais.

Knox, ainda sorrindo com aquela malícia típica dele, balança a cabeça em um gesto cínico. Uma risada rouca e amarga escapa de sua garganta numa proeza de escárnio.

—Em toda porra de vida, alguém fode tudo. É tradição aqui entre nós. Por isso, pergunto: quem será o primeiro a estrear o espetáculo desta vez?

Nesse instante, Ashton não consegue mais segurar seu desdém e cospe no chão, colocando o dedo em mim com um olhar penetrante e acusador.

— Zephyr, óbvio. O monstro de sempre.

O frio percorre minha espinha enquanto minhas sombras, como feras guardiãs da minha alma, tremem, ansiosas e ameaçadoras.

— Filho da puta... — Minha voz emerge como um rosnado sombrio, carregado de ameaça e perigo iminente.

Num tom grave e cortante, Kaisar intervém, querendo equilibrar os ressentimentos e jogar a culpa para o outro lado.

— Zephyr não foi o único, Ashton. Ela morreu nos seus braços porque você não aguentou segurar o pau dentro das calças. Você trepou e, no instante seguinte, ela morreu. Quem fodeu tudo realmente foi você, e digo isso no sentido mais literal possível.

Assolado pela fúria, Ashton avança sem medir palavras, soltando sua raiva de forma quase animalesca.

— Vai tomar no cu, Kaisar! E você? Achou que beijá-la sujaria menos suas mãos? Ela caiu morta, envenenada, e foram seus lábios que a mataram.

Eu solto uma risada rouca, amarga e cruel, como se cada palavra fosse uma lâmina que corta fundo.

— E o Knox? Ah, o Knox usou uma lâmina fria, cravada nas suas costas, com a frieza de quem usa um escudo humano para salvar a própria pele. Ela confiava em você e você a traiu da pior maneira possível.

Knox retorna o sorriso, cínico e desprovido de qualquer remorso ou arrependimento.

—Ela morreu, eu fiquei. No fim das contas, é isso que importa, certo? Sobreviver é a verdadeira vitória.

Dexter, até então calado, explode em um desabafo doloroso, sua voz vibrando de raiva misturada a uma vergonha profunda e esmagadora.

— Vocês falam como se fossem os únicos culpados, mas fui eu quem a destruiu de verdade.

Com um suspiro pesado, como se estivesse quase pesando as próprias palavras, Dexter continua:

— Eu só a toquei. Só encostei nela. E o meu toque foi a arma que fez seu corpo agonizar até a morte, nos meus braços. Não precisei de lâminas afiadas, nem sombras agitadas, muito menos veneno e nem meu pau. Só precisei ser quem eu sou para destruí-la.

Por um momento, ninguém ousa quebrar o silêncio. O peso da maldição que nos envolve é tangível, um fardo invisível que paira entre nós, rememorando cada dor, cada erro, cada queda. De repente, Knox, sempre o provocador imperturbável, bate palmas lentamente, seu sarcasmo espalhado como veneno no ar.

— Perfeito. Cada um aqui já matou ela de um jeito diferente. Cada um é um capítulo de desgraça e culpa. Então, irmãos, a pergunta permanece: quem será o primeiro a foder tudo de novo desta vez?

Minhas sombras se levantam, afiadas como lâminas, famintas como feras prontas para atacar. Minha voz emerge rouca e ameaçadora, quase um rosnado primal.

— Se algum de vocês ousar tentar de novo, eu juro que mato antes que sequer encostem nela.

Somos prisioneiros de um ciclo vicioso de destruição, onde a confiança se rompe e a traição é a única certeza. Assim, seguimos, condenados a repetir nossos erros, aguardando quem será o próximo a desencadear o caos e transformar tudo em ruínas mais uma vez.

Kaisar anda com passos firmes e fortes, como se o chão sentisse sua vontade.

— Vocês realmente acham que isso é um maldito jogo? — a voz dele explode na quietude da floresta.

Até as minhas próprias sombras parecem recuar em respeito, intimidadas pelo poder da sua voz retumbante e pelo significado por trás de cada palavra pronunciada.

Kaisar ergue a mão no ar, ele fala com a convicção de quem entende a seriedade do momento e sabe que as vidas de todos dependem da decisão a ser tomada.

— Não se trata de apostas quaisquer, não se trata de quem mata, quem trai ou quem beija agora. O que está em jogo aqui é o destino inteiro — a maldita roda que sustenta tudo que conhecemos. Se quisermos realmente sobreviver a tudo que está por vir, não há outra saída senão estar unidos até o fim, como um só, sem hesitar.

Enquanto a proposta ecoa no ar, sinto minhas sombras dançarem inquietas ao meu redor, tremendo com uma mistura de ansiedade e raiva furiosa. Aperto os punhos com força, a fúria crescendo em meu peito como uma tempestade prestes a explodir, e ainda assim, respiro fundo e abaixo a cabeça em sinal de concordância, tentando afogar a tempestade interna.

— Eu aceito esse pacto, por mais difícil que seja manter essa união enquanto nossos desejos nos puxam em direções opostas.

Ashton retrocede alguns passos, soltando uma risada carregada de desprezo, cujo som é agudo e cortante, como um espinho enfiado em nossa tentativa de acordo. Sua voz carrega uma mistura de cinismo e frustração profunda, revelando uma mágoa que não se apaga com o tempo.

— Vocês só podem estar brincando, certo? Da última vez que nos unimos por um pacto de sangue, foi exatamente isso que nos trouxe até esse caos. Correntes, maldições que nos aprisionam até hoje, mortes que mancham nossas almas. Vocês querem repetir essa mesma piada trágica?

Dexter cerra os dentes com força, seu olhar fixo no horizonte à beira do lago, a voz dele quase reverberando pelas águas calmas

— Chega de tudo isso. Se vamos nos destruir uns aos outros antes mesmo que a verdadeira guerra comece, então que fique claro: quem já venceu são os deuses que nos manipulam. Não podemos permitir que isso aconteça.

Kaisar dá um passo decidido à frente, seu olhar tão profundo e pesado que parece carregar todos os abismos do mundo em seu interior. Sua voz é um sussurro ameaçador, mas carregado de uma certeza incontestável.

— Vocês podem rir à vontade, cuspir no chão, podem fugir de suas responsabilidades e seus destinos, mas quando ela olhar nos olhos de cada um de nós, o fio invisível vai puxar. E, nesse momento, vamos descobrir até onde cada um será capaz de ir por ela.

Ashton solta uma gargalhada seca, quase cortante, e levanta as mãos de maneira teatral, como se estivesse no centro de um palco e soubesse exatamente a atenção que sua presença merece. Sua voz tem um tom desafiador e irônico ao falar:

— Tá bom, caralho. Eu aceito fazer o pacto, pronto. Só para não dizerem que eu fui o primeiro covarde a fugir desse jogo.

Knox, com seu jeito desafiador de quem está sempre um passo à frente em qualquer situação, dá um passo à frente, rumo a Kaisar, e prende firmemente o pulso do irmão. Seu sorriso malicioso e cruel revela o quanto ele gosta de provocar e de manter o controle. Sem perder a pose, ele fala, direcionando suas palavras a mim, com sarcasmo explícito.

— Ah, que se foda. Eu também estou dentro. — ele cruza o olhar comigo, debochando com aquela superioridade irritante.

Dexter inspira profundamente, fechando os olhos com determinação, como se estivesse convocando uma força invisível para legitimar o compromisso que estamos prestes a firmar. Sua voz soa firme, quase solene, carregada de significado:

— Então, que seja assim. Do sangue até o fim. Sem volta, sem desculpas.

Num movimento pesado e simbólico, unimos nossas mãos, e imediatamente uma energia densa e palpável se condensa no ar. A natureza ao redor se cala como se a própria floresta tivesse se tornado testemunha silenciosa desse pacto antigo e sombrio que acaba de ser selado.

Naquela noite fatídica, sob a vigília severa da lua vermelho-sangue nós cinco nos transformamos novamente naquilo que fomos destinados a ser desde sempre: uma maldição encarnada, feita de carne, sangue, erro e revolta.

E, no fim, independentemente da distância, das escolhas ou dos caminhos tortuosos que cada um tome, sei que todos os rastros, toda essa trajetória confusa que trilhamos, vão levar, inevitavelmente, de volta a ela.

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