Capítulo 10 A INVEJA TEM OLHOS ATENTOS
Alana narrando
Eu nunca fui a noiva perfeita, e também nunca fiz questão de fingir que era.
Enquanto Jonas acreditava que estávamos construindo uma vida juntos, eu mantinha um relacionamento escondido com meu antigo chefe. Nosso caso durou mais de um ano, e durante todo aquele tempo consegui sustentar a mentira sem grandes dificuldades. Jonas confiava em mim, acreditava nas minhas palavras e fazia planos para o nosso futuro.
Eu sabia que ele me amava.
E, naquela época, achava que isso significava que nunca me faltaria nada.
O problema começou quando a esposa do meu amante descobriu tudo.
Ela não apenas colocou um ponto final naquela história, como também fez questão de me humilhar diante de pessoas da empresa. Fui exposta, demitida e obrigada a deixar para trás a vida confortável que imaginava ter garantido.
Nunca senti tanta raiva quanto naquele dia.
Não porque tivesse perdido um homem que amava, mas porque perdi as vantagens que aquela relação me proporcionava.
Meu antigo chefe não estava disposto a enfrentar as consequências do caso. Preferiu salvar o casamento e a própria reputação, deixando que eu lidasse sozinha com a vergonha e os problemas financeiros.
Foi então que comecei a pensar em Jonas.
Antes do acidente, ele tinha um bom emprego, uma carreira promissora e planos para o nosso casamento. Eu poderia ter permanecido ao lado dele, ajudado durante a recuperação e tentado reconstruir nossa relação. Talvez, se tivesse feito isso, ainda estivesse vivendo confortavelmente.
Mas eu não queria aquela vida.
Não queria passar os dias em hospitais, acompanhar fisioterapia, enfrentar dificuldades e me adaptar às limitações que o acidente havia deixado.
Eu queria continuar desfrutando das coisas boas sem precisar me sacrificar por ninguém.
Por isso, fui embora.
Naquele momento, achei que estava fazendo a escolha mais inteligente.
Não imaginava que Jonas conseguiria se reerguer, muito menos que encontraria alguém disposto a lhe oferecer aquilo que eu nunca quis dar: apoio, respeito e companheirismo.
Quando soube que uma empresa respeitada estava contratando funcionários, enxerguei uma oportunidade de recomeçar. A companhia figurava entre as cinco melhores do mercado, oferecia boas condições de trabalho e tinha uma reputação que poderia me ajudar a recuperar parte do prestígio perdido.
Enviei meu currículo e participei do processo seletivo.
A seleção foi difícil. Havia candidatos experientes, entrevistas rigorosas e etapas que exigiam muito mais do que uma aparência agradável. Ainda assim, consegui a vaga.
Quando recebi a confirmação da contratação, senti que finalmente estava recuperando o controle da minha vida.
Até descobrir quem era a dona daquela empresa.
No meu primeiro dia, fui apresentada a alguns funcionários e recebi as orientações necessárias. Tudo parecia normal até que vi a mulher que comandava aquele lugar.
Meu queixo quase caiu.
Ela era linda.
Elegante, segura e dona de uma postura que fazia as pessoas prestarem atenção antes mesmo que abrisse a boca. Usava roupas impecáveis, caminhava com confiança e parecia absolutamente confortável no lugar que ocupava.
Não era apenas bonita. Havia algo na maneira como se comportava que deixava claro que ninguém precisava explicar a ela como as coisas funcionavam.
Fiquei observando por alguns segundos, tentando esconder minha surpresa.
Jamais imaginei que uma mulher daquele nível fosse a esposa de Jonas.
E, sinceramente, aquilo não fazia sentido para mim.
Por que uma mulher tão bonita, rica e poderosa escolheria um homem que havia ficado cadeirante?
Eu sabia que Jonas tinha sido inteligente, trabalhador e dedicado. Antes do acidente, admirava sua capacidade profissional e gostava da segurança financeira que ele poderia me proporcionar. Mas, depois de tudo o que aconteceu, eu o considerei um problema do qual precisava me livrar.
Na minha cabeça, ele havia perdido boa parte do que o tornava interessante.
Aquela mulher, porém, parecia enxergar algo que eu nunca quis procurar.
E isso me irritava profundamente.
O pior veio depois.
A disputa judicial terminou com a devolução dos bens e a restituição do dinheiro que Jonas havia recebido como indenização pelo acidente de trabalho. Eu não era a única pessoa envolvida naquelas consequências, mas a decisão atingiu diretamente a vida confortável que havia conseguido manter por algum tempo.
Tive que devolver o apartamento e o carro.
Acabei voltando para a casa dos meus pais.
Para mim, aquilo foi uma humilhação difícil de suportar. Eu, que já havia desfrutado de conforto e independência, agora precisava explicar minhas escolhas e conviver com perguntas que preferia não responder.
Meus pais não escondiam a decepção.
E eu não suportava olhar para eles sabendo que, de alguma maneira, todos aqueles acontecimentos eram consequência das minhas próprias decisões.
Era mais fácil culpar Jonas.
Mais fácil culpar a esposa dele.
Mais fácil imaginar que alguém havia tirado de mim aquilo que eu merecia.
A verdade era que eu estava com raiva.
Muita raiva.
Mas também sabia que não poderia enfrentar aquela mulher de qualquer maneira. Bastava observar a forma como os funcionários reagiam à sua presença para perceber que ela não era alguém com quem se pudesse brincar.
Eu precisava ser cuidadosa.
Afinal, havia conseguido uma vaga naquela empresa e não pretendia perder mais uma oportunidade por agir por impulso.
Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesma.
Porque, no fundo, havia pensamentos que eu não conseguia afastar.
Em alguns momentos, imaginava Jonas sofrendo novamente, perdendo a segurança que havia recuperado e descobrindo que nem tudo poderia ser resolvido com a ajuda daquela mulher.
Cheguei a pensar em empurrá-lo escada abaixo, apenas para vê-lo perder a confiança que demonstrava agora.
A ideia surgiu na minha cabeça com uma crueldade que, por alguns segundos, me assustou.
Mas eu não me considerava uma pessoa cruel.
Na minha versão dos acontecimentos, eu era apenas alguém que havia sido prejudicada e queria recuperar o que perdera.
Era assim que justificava meus pensamentos.
Eu sabia, entretanto, que não poderia fazer nada contra Jonas sem correr o risco de destruir a pouca estabilidade que ainda me restava.
Então continuei trabalhando.
Observei os funcionários, aprendi a rotina da empresa e tentei descobrir mais sobre a mulher que havia conquistado o homem que eu abandonara.
Eu queria entender o que ela tinha de tão especial.
Queria descobrir por que Jonas parecia tão feliz ao lado dela.
E, acima de tudo, queria saber como ele havia conseguido recuperar a vida que eu acreditava ter acabado.
Foi numa manhã aparentemente comum que recebi a resposta mais inesperada.
Eu estava perto da recepção quando ouvi o aviso do elevador.
As portas se abriram, e a primeira pessoa que vi foi ela.
A dona da empresa.
Impecável como sempre, caminhava de mãos dadas com um homem que, por um instante, não reconheci.
Então ele virou um pouco o rosto.
Meu coração pareceu parar.
Jonas.
Era Jonas.
Mas não o homem que eu lembrava das últimas semanas em que estivemos juntos.
Não o homem que eu havia deixado para trás numa cadeira de rodas, acreditando que ele jamais voltaria a ter uma vida independente.
Ele estava andando.
Sozinho.
Sem muletas.
Caminhava com a mesma elegância de antes do acidente, os ombros alinhados e a expressão tranquila. Vestia uma roupa social que parecia ter sido feita sob medida, e sua postura transmitia uma segurança que me deixou desconcertada.
Por alguns segundos, fiquei olhando, incapaz de compreender o que estava vendo.
Ele havia voltado a andar.
Jonas, o homem que eu julgara incapaz de reconstruir a própria vida, estava ali, caminhando pelo corredor da empresa como se tivesse recuperado não apenas os movimentos, mas também toda a confiança que eu acreditava ter destruído.
A mulher ao seu lado apertou delicadamente a mão dele, e Jonas sorriu para ela.
Foi aquele sorriso que mais me incomodou.
Eu conhecia aquele homem. Sabia como ele sorria quando estava feliz, como seus olhos se iluminavam quando falava sobre alguma conquista e como gostava de compartilhar boas notícias com quem amava.
Durante muito tempo, acreditei que aquele sorriso me pertencia.
Agora, ele sorria para outra mulher.
E parecia genuinamente feliz.
Baixei os olhos por um instante, tentando controlar a expressão, mas então percebi algo que tornou minha irritação ainda maior.
A aliança.
Uma aliança enorme brilhava na mão de Jonas.
Não era uma joia usada apenas para compor o visual. Era o símbolo de um compromisso que ele havia assumido com aquela mulher.
Eles estavam casados.
Meu ex-noivo havia se casado com a própria chefe.
A mulher rica, elegante e poderosa que eu jamais imaginara encontrar ao lado dele agora caminhava pela empresa como sua esposa, sem esconder o carinho que sentia.
Senti o estômago se revirar.
Como aquilo era possível?
Eu havia passado tanto tempo convencida de que Jonas nunca mais conseguiria se reerguer que sequer considerei a possibilidade de ele encontrar alguém melhor do que eu.
E, pelo visto, encontrara.
— Bom dia! — cumprimentou uma funcionária que se aproximou de mim.
Demorei a responder.
— Bom dia.
Ela acompanhou meu olhar e sorriu ao ver o casal.
— Eles formam um casal lindo, não é? Espero que tenham logo filhos. Imagina como seriam os bebês dos dois!
A vontade que tive foi de mandar aquela mulher cuidar da própria vida.
Filhos?
Era só o que me faltava!
Jonas sempre falara sobre ser pai. Antes do acidente, fazia planos para o futuro, imaginava como seria ensinar uma criança a andar de bicicleta e dizia que queria construir uma família diferente daquela em que havia crescido.
Eu sabia disso porque, naquela época, ainda fazia parte da vida dele.
Mas nunca levei seus sonhos tão a sério. Pensava que havia tempo para tudo e que ele acabaria se adaptando às minhas prioridades.
Agora, a possibilidade de Jonas realizar aquele sonho com outra mulher me parecia insuportável.
Eu não queria assistir àquela família feliz.
Não queria ver os dois chegando juntos, trocando sorrisos e construindo uma vida que poderia ter sido minha se eu tivesse feito escolhas diferentes.
E, principalmente, não queria ficar naquela empresa enquanto todos celebravam a felicidade do homem que eu havia abandonado.
— Você está bem? — perguntou a funcionária, percebendo meu silêncio.
Forcei um sorriso.
— Estou, sim. Só estou um pouco cansada.
Ela não pareceu desconfiar de nada.
— Acontece. Mas trabalhar com eles deve ser maravilhoso. A dona Lucy é uma mulher admirável, e o marido dela parece ser muito gentil. Dizem que ele é excelente na contabilidade.
Lucy.
Aquele era o nome pelo qual a dona da empresa era conhecida ali.
Guardei a informação, embora naquele momento ela não fosse suficiente para me ajudar a compreender o que estava acontecendo.
A funcionária se despediu, e eu voltei a olhar na direção do casal.
Jonas e Lucy já estavam perto dos elevadores internos. Ele disse alguma coisa ao ouvido dela, e a mulher riu antes de lhe dar um beijo discreto no rosto.
A naturalidade daquele gesto me incomodou mais do que qualquer demonstração exagerada de afeto teria incomodado.
Eles não pareciam estar tentando convencer ninguém de que eram felizes.
Pareciam simplesmente viver aquela felicidade.
E eu odiava isso.
Respirei fundo e voltei para minha mesa, tentando me concentrar nas tarefas que precisava concluir. Abri alguns documentos, conferi mensagens e comecei a trabalhar, mas minha cabeça continuava presa à imagem de Jonas caminhando ao lado da esposa.
Eu precisava aceitar que ele havia seguido em frente.
Precisava entender que o dinheiro recuperado não era meu, que o apartamento e o carro nunca deveriam ter sido tratados como se fossem garantias de uma vida que eu tinha o direito de manter.
Mas aceitar tudo isso significava admitir que eu havia perdido.
E eu nunca fui boa em perder.
Naquela tarde, enquanto guardava alguns documentos, tomei uma decisão: não faria nada precipitado. Não colocaria meu emprego em risco por causa de ciúmes, nem permitiria que alguém percebesse o quanto aquela situação me afetava.
Eu observaria.
Tentaria descobrir mais sobre a relação dos dois e entender como Jonas havia recuperado os movimentos. Também prestaria atenção à maneira como Lucy administrava a empresa.
Talvez, com o tempo, eu conseguisse compreender o que estava acontecendo.
Ou talvez encontrasse uma maneira de recuperar parte do controle que sentia ter perdido.
Por enquanto, eu precisava me manter discreta.
Porque havia uma coisa que eu já tinha entendido ao olhar para aquela mulher.
Lucy não era alguém que eu pudesse enfrentar sem pensar nas consequências.
E Jonas, ao contrário do que eu havia imaginado, não era mais o homem abandonado que eu deixara para trás.
Ele tinha uma esposa, uma carreira e uma vida nova.
Enquanto eu continuava tentando reconstruir a minha.
A diferença era que ele parecia ter encontrado a felicidade.
E eu ainda não sabia como suportar isso.
Continua...
