Capítulo 2 O CONFRONTO

Meu nome é Jonas.

Há muito tempo aprendi que as pessoas enxergam primeiro a minha cadeira de rodas e somente depois o homem que existe por trás dela. Algumas demonstram pena, outras tentam esconder a curiosidade e há aquelas que simplesmente desviam o olhar, como se a minha presença fosse um lembrete inconveniente de que a vida pode mudar quando menos esperamos.

Eu já me acostumei com muita coisa, mas nunca aceitei a ideia de que deveria desistir dos meus sonhos por causa de um acidente.

Naquele dia, assim como em tantos outros, passei horas percorrendo a cidade em busca de uma oportunidade de emprego. Entreguei currículos, preenchi formulários e ouvi promessas que, pela experiência, sabia que provavelmente não seriam cumpridas.

— Vamos entrar em contato, senhor Jonas.

Quantas vezes eu havia escutado aquela frase?

Já tinha perdido a conta.

O problema não era receber uma resposta negativa. Eu entendia que nem sempre seria escolhido e sabia que precisava continuar tentando. O que me machucava era perceber que algumas pessoas sequer se davam ao trabalho de conhecer minhas habilidades antes de concluir que eu não seria capaz de exercer determinada função.

Eu não queria tratamento especial.

Queria apenas uma oportunidade justa.

Precisava trabalhar, pagar minhas contas e construir uma vida na qual não dependesse da boa vontade de ninguém. Depois de tudo o que havia acontecido comigo, conquistar minha independência se tornara uma questão de dignidade.

Quando o sol começou a baixar, guardei os currículos restantes na pasta e decidi voltar para casa.

Estava cansado, frustrado e com uma dor incômoda nos braços, resultado das horas movimentando a cadeira por calçadas que nem sempre facilitavam a passagem. Tudo o que eu desejava era chegar à minha pequena casa, tomar um banho, preparar alguma coisa para comer e esquecer, pelo menos por algumas horas, as dificuldades daquele dia.

Eu morava sozinho na rua 5, a única rua plana daquela região. Minha casa era pequena, simples e longe de tudo o que um dia imaginei conquistar, mas era minha. Depois de tantas perdas, ter um lugar onde pudesse fechar a porta e respirar sem precisar explicar minha existência a ninguém já representava uma vitória.

Eu ainda estava distante de casa quando percebi que havia alguma coisa errada.

Algumas pessoas caminhavam apressadas, outras chamavam os familiares para dentro das residências. Um comerciante baixava a porta do estabelecimento enquanto uma mulher tentava convencer duas crianças a entrarem rapidamente.

Estranhei a movimentação.

— O que está acontecendo? — perguntei a um rapaz que passou correndo.

Ele nem sequer parou.

— Invasão! Sai da rua!

Meu coração acelerou.

Antes que eu pudesse pensar em uma rota alternativa, o som de tiros rompeu o ar.

Naquele instante, a tranquilidade que eu tanto desejava desapareceu.

Pessoas começaram a correr em todas as direções. Portas foram fechadas às pressas, vozes desesperadas se misturaram aos estampidos e o medo tomou conta das vielas.

Eu precisava chegar em casa.

Apertei as mãos nas rodas e tentei avançar, mas a movimentação dificultava qualquer tentativa de seguir em frente. Uma pessoa esbarrou em mim, fazendo minha cadeira desviar para o lado. Minha pasta caiu, e alguns papéis se espalharam pelo chão.

Por um segundo, pensei em recolhê-los.

Desisti imediatamente.

Naquele momento, meus currículos não significavam nada. Eu precisava encontrar abrigo antes que alguém se machucasse.

Segui por uma passagem lateral que conhecia desde que havia começado a morar ali. Acreditava que conseguiria chegar à rua 5 sem precisar atravessar a área mais movimentada, mas ouvi gritos próximos e percebi que algumas pessoas vinham em minha direção.

Tentei mudar de caminho.

Foi quando uma das rodas ficou presa em uma irregularidade do piso.

Forcei os braços para trás, tentando liberar a cadeira, mas o ângulo não ajudava. O barulho dos tiros parecia cada vez mais próximo, e minha respiração ficou descompassada.

— Vamos, Jonas! — murmurei para mim mesmo. — Você consegue.

Tentei novamente.

Nada.

A sensação de impotência foi imediata. Eu odiava aqueles momentos em que precisava enfrentar um obstáculo e não conseguia resolvê-lo com a rapidez necessária. Não porque acreditasse ser incapaz, mas porque sabia que, em determinadas situações, o tempo fazia toda a diferença.

Um novo estampido ecoou.

Assustado, perdi o equilíbrio ao tentar me movimentar e acabei caindo da cadeira para o lado. O impacto contra o chão arrancou o ar dos meus pulmões, e uma dor aguda atravessou meu braço.

Protegi a cabeça com as mãos e permaneci abaixado, tentando me manter longe de qualquer coisa que pudesse me atingir.

Eu nunca havia me sentido tão vulnerável.

Não sabia de onde vinham os disparos, quem estava atacando quem ou quanto tempo aquela situação duraria. Só conseguia pensar que não queria morrer ali, sozinho, sem sequer ter a chance de realizar metade dos meus sonhos.

Foi então que ouvi passos se aproximando.

Passos firmes.

Diferentes da correria desesperada das pessoas que tentavam escapar.

Levantei um pouco a cabeça e vi uma silhueta feminina surgindo na entrada do beco.

A mulher caminhava com uma segurança impressionante, acompanhada por homens atentos ao movimento ao redor. Ela parecia conhecer cada passagem, cada muro e cada ponto de acesso daquele lugar.

Naquele cenário de caos, sua postura chamava a atenção.

Ela não corria sem direção. Observava, avaliava e avançava apenas quando parecia ter certeza de que aquele era o caminho mais seguro.

Eu ainda não sabia quem ela era.

Só percebi que, quando seus olhos encontraram os meus, ela interrompeu o movimento.

— Tem alguém caído ali! — avisou um dos homens.

— Eu estou vendo — respondeu ela, sem tirar os olhos de mim.

A mulher fez um sinal para que os acompanhantes mantivessem distância e se aproximou com cautela. Sua mão estava próxima da arma que carregava, e seu olhar alternava entre mim e a rua.

Eu estava assustado demais para entender o que aconteceria.

Quando ela se abaixou e tocou meu ombro, levei um susto.

— Calma! — ordenou, mas sua voz não tinha a intenção de me machucar. — Sou eu. Você está ferido?

Afastei um pouco o rosto, tentando recuperar o fôlego.

— Acho que machuquei o braço.

Ela observou o ferimento e depois examinou rapidamente o entorno.

— Consegue falar comigo?

— Consigo.

— Ótimo. Então olhe para mim.

Obedeci.

Foi nesse momento que realmente a enxerguei.

Era uma mulher bonita, mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Havia uma intensidade incomum em seu olhar, uma mistura de autoridade e frieza que me fez compreender que eu estava diante de alguém acostumado a ser obedecido.

Ela me encarou por alguns segundos.

Eu não sabia explicar o que aconteceu naquele breve instante. Talvez fosse o contraste entre o perigo ao nosso redor e a maneira como ela parecia controlar as próprias emoções. Talvez fosse a proximidade inesperada de uma desconhecida em uma situação na qual eu não sabia em quem confiar.

Só sei que aquele olhar ficou gravado na minha memória.

— O que faz aqui em meio a uma invasão? — perguntou ela. — Onde você mora? Qual é o seu nome?

Respirei fundo antes de responder.

— Meu nome é Jonas. Moro na rua 5, a única rua plana daqui. Estava subindo quando tudo começou. Vim o mais rápido que pude, mas minha cadeira ficou presa e acabei caindo.

Ela olhou na direção indicada.

— Rua 5?

— Sim.

Por um instante, sua expressão mudou.

— Naquela rua só tem uma casa vazia e algumas residências pequenas. Você mora em qual delas?

— Na casa pequena, perto do muro azul.

— E mora com quem?

A pergunta me incomodou um pouco, mas a situação não permitia que eu me demorasse em desconfianças.

— Moro sozinho.

Ela voltou a olhar para mim.

Havia algo naquela resposta que parecia ter despertado seu interesse, embora eu não conseguisse compreender o motivo.

— Sozinho? — repetiu.

— Sim. Algum problema?

Um dos homens atrás dela pareceu surpreso com meu tom. Eu também teria preferido responder com mais tranquilidade, mas estava machucado, assustado e cansado de ser tratado como alguém que precisava justificar cada detalhe da própria vida.

A mulher, entretanto, não demonstrou irritação.

Pelo contrário.

O canto de sua boca se moveu discretamente, como se ela tivesse encontrado alguma coisa inesperada naquela conversa.

— Nenhum. Só preciso saber para onde levar você.

Ela se virou para os homens.

— Abram caminho. E tragam a cadeira dele.

Os dois se movimentaram imediatamente.

A mulher voltou sua atenção para mim e estendeu a mão.

— Vamos tirar você daqui.

— Eu consigo me levantar com ajuda — expliquei. — Só preciso que minha cadeira fique na posição certa.

— Então me diga como prefere fazer.

A resposta me surpreendeu.

Ela poderia simplesmente ter decidido tudo por mim, como tantas pessoas faziam. Em vez disso, esperou que eu explicasse o que precisava.

Indiquei a posição da cadeira e o apoio necessário para que eu conseguisse voltar a me sentar sem forçar o braço machucado. Ela ouviu minhas instruções com atenção e me ajudou com cuidado.

Quando finalmente me acomodei, soltei o ar que estava prendendo.

— Obrigado.

— Ainda não me agradeça. Precisamos chegar à sua casa primeiro.

Ela ajeitou a posição da cadeira e verificou se eu estava confortável antes de começar a me conduzir pelo beco. Mantinha uma das mãos próxima à arma e os olhos atentos ao movimento ao redor.

Dois homens se aproximaram para dar cobertura, e seguimos pelo caminho que ela havia escolhido.

Eu nunca havia visto alguém agir daquela maneira durante uma situação tão perigosa. Aquela mulher parecia conhecer cada detalhe do lugar e não precisava consultar ninguém para decidir por onde seguir.

— Você conhece bem essa região? — perguntei, tentando afastar os pensamentos ruins.

Ela lançou um olhar rápido na minha direção.

— Conheço cada canto daqui.

Havia tanta certeza em sua voz que não fiz outra pergunta.

Continuamos avançando até alcançar a rua 5. Minha casa apareceu no fim da passagem, pequena e silenciosa, exatamente como eu a havia deixado horas antes.

Nunca imaginei que sentiria tanto alívio ao enxergar aquela porta.

Quando chegamos, a mulher parou a cadeira diante da entrada.

— Pronto. Está entregue.

Olhei para ela.

— Você me salvou de ficar no meio daquele confronto. Eu não sei como agradecer.

— Já disse que não precisa agradecer.

— Mesmo assim, obrigado.

Dessa vez, ela sustentou meu olhar por mais alguns segundos.

— Entre, Jonas. Tranque a porta e cuide desses machucados. Não saia enquanto a situação não estiver controlada.

Assenti.

— Vou fazer isso.

Ela começou a se afastar, mas uma pergunta escapou antes que eu pudesse pensar melhor.

— Qual é o seu nome?

A mulher parou.

Virou o rosto lentamente, e seus olhos encontraram os meus mais uma vez.

— Serpente.

O nome me fez recordar imediatamente algumas histórias que havia escutado sobre a mulher que comandava o morro.

Serpente.

A dona do lugar.

A mulher que poucos ousavam contrariar e que, segundo diziam, era capaz de descobrir uma traição antes mesmo que o traidor percebesse que havia cometido um erro.

Eu estava diante dela havia vários minutos sem saber.

— Você é a dona do morro? — perguntei.

— Sou.

Ela respondeu sem qualquer hesitação.

Não havia necessidade de acrescentar explicações. Sua postura e a maneira como os homens a obedeciam já diziam muito.

— Então... obrigada, Serpente.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça.

— Cuide-se, Jonas.

E foi embora.

Fiquei observando até que ela desaparecesse na passagem, acompanhada por seus homens. Só então percebi que ainda estava tremendo.

Entrei em casa, fechei a porta e girei a chave. Encostei a cabeça no encosto da cadeira, tentando organizar os pensamentos.

Tudo havia acontecido rápido demais.

Poucas horas antes, minha maior preocupação era conseguir um emprego. Agora, eu estava dentro de casa depois de quase ter sido atingido durante uma invasão, com o braço machucado e a imagem de uma mulher desconhecida ocupando minha mente.

Serpente.

Eu já havia ouvido histórias sobre ela, mas nunca pensei que a conheceria daquela maneira.

Muito menos que seria ela a me ajudar quando eu mais precisava.

Passei a mão pelo rosto e soltei uma risada sem humor.

— Que dia, Jonas...

Mas o pior não era o susto.

O pior era que, apesar de toda a tensão, eu não conseguia esquecer a maneira como ela havia me olhado.

E isso me incomodava.

Eu não estava preparado para conhecer alguém. Depois do acidente, minha vida havia se transformado de uma maneira que jamais imaginei. Antes, eu tinha planos, uma família com a qual acreditava poder contar e uma mulher que dizia me amar.

Então tudo mudou.

O acidente levou embora parte da minha independência física, mas as atitudes das pessoas que eu considerava importantes foram responsáveis por feridas que demoraram muito mais a cicatrizar.

Minha família começou a me tratar como um problema. Minha noiva, que jurava permanecer ao meu lado nos momentos difíceis, encontrou uma maneira de se afastar quando percebeu que a vida ao meu lado não seria exatamente como havia planejado.

No início, ela dizia que precisava de tempo.

Depois, passou a evitar minhas ligações.

Até que um dia deixou claro que não queria continuar.

Não foi apenas o fim de um relacionamento. Foi a descoberta dolorosa de que algumas pessoas amam a versão de nós que consideram conveniente, mas não sabem o que fazer quando a realidade exige paciência, companheirismo e coragem.

Desde então, eu havia prometido a mim mesmo que não permitiria que outra pessoa tivesse tanto poder sobre meus sentimentos.

Precisava reconstruir minha vida primeiro.

Precisava aprender a confiar novamente em mim antes de pensar em confiar em alguém.

E, definitivamente, não precisava me envolver com uma mulher como Serpente.

Eu mal a conhecia, mas sabia que seu mundo era muito diferente do meu. Ela vivia cercada por perigos, conflitos e responsabilidades que eu não conseguia compreender completamente.

Eu queria paz.

Ela parecia ter nascido no meio da guerra.

Como duas pessoas tão diferentes poderiam encontrar algum ponto em comum?

Balancei a cabeça, afastando a pergunta.

Não havia motivo para pensar naquilo.

Ela me ajudara porque me encontrou em perigo. Eu agradecera. Cada um seguiria seu caminho.

Era simples.

Ou deveria ser.

Serpente voltou à linha de frente com a expressão completamente transformada.

A mulher que havia conversado com Jonas desapareceu atrás da figura implacável que todos conheciam. Suas ordens eram objetivas, sua atenção estava voltada para o confronto e nenhum de seus homens se atrevia a questionar suas decisões naquele momento.

Ela conhecia os caminhos, sabia onde encontrar abrigo e compreendia a importância de agir com rapidez. A movimentação dos invasores exigia atenção, e qualquer descuido poderia colocar os moradores em risco.

Apesar da tensão, Serpente não permitia que o nervosismo controlasse suas atitudes.

— Quero saber quem autorizou essa movimentação e por que fomos surpreendidos dessa maneira — ordenou a um de seus responsáveis pela segurança. — E não aceito respostas pela metade.

— Estamos verificando, chefe.

— Verifiquem mais rápido.

Ela seguiu adiante, observando a movimentação e dando instruções para que os moradores permanecessem protegidos.

Entretanto, em meio a tantas preocupações, sua mente insistia em retornar a uma pequena casa na rua 5.

Jonas morava sozinho.

A informação parecia simples, mas havia despertado nela uma curiosidade que não conseguia explicar.

Quem era aquele homem antes de chegar àquela região? O que havia acontecido para que precisasse enfrentar o mundo sozinho? Por que seus olhos carregavam uma mistura de cansaço e determinação que ela não conseguia esquecer?

Serpente estava acostumada a descobrir tudo sobre as pessoas que despertavam sua atenção. Era uma maneira de se proteger, de compreender possíveis riscos e de impedir que alguém se aproximasse sem que ela soubesse suas verdadeiras intenções.

Mas, dessa vez, a curiosidade parecia ter outra origem.

Ela queria conhecê-lo.

Queria ouvir sua história diretamente dele.

Queria descobrir se aquela firmeza continuaria presente quando ele não estivesse assustado, se aquele humor inesperado fazia parte de sua personalidade e se ele sempre enfrentava as pessoas sem se importar com a posição que ocupavam.

Serpente estreitou os olhos, irritada consigo mesma.

Não podia permitir que um encontro casual interferisse em suas prioridades.

Ainda assim, enquanto a noite avançava, uma ideia começou a tomar forma em sua mente.

Ela encontraria uma maneira de se aproximar de Jonas.

Não precisava decidir tudo naquela noite. Poderia começar descobrindo mais sobre ele, encontrando uma justificativa para conversar novamente e observando como ele reagiria à sua presença.

Era um plano simples.

Pelo menos, assim ela tentou acreditar.

O que Serpente ainda não compreendia era que a vontade de conhecer alguém poderia se transformar em algo muito mais intenso quando misturada à necessidade de controlar os próprios sentimentos.

Ela não estava acostumada a esperar.

Não estava acostumada a desejar algo sem saber como conseguir.

E, principalmente, não estava acostumada a encontrar alguém que despertasse seu interesse sem demonstrar medo ou tentar conquistar sua aprovação.

Jonas não havia feito nada para impressioná-la.

Talvez fosse justamente isso que a intrigasse tanto.

— Chefe, está tudo sob controle nesta área — informou João Paulo, aproximando-se.

Serpente voltou a atenção para ele.

— Ótimo. Continue acompanhando a movimentação e me informe qualquer novidade.

— Sim, senhora.

João Paulo hesitou por um instante antes de acrescentar:

— A senhora parece distraída. Aconteceu alguma coisa?

O olhar que recebeu foi suficiente para fazê-lo se arrepender da pergunta.

— Estou pensando em como essa invasão começou. Você deveria fazer o mesmo.

— Entendido.

Ele se afastou.

Serpente permaneceu em silêncio, mas sabia que não estava pensando apenas na invasão.

Estava pensando em Jonas.

Na maneira como ele havia respondido às suas perguntas, no orgulho que demonstrava ao falar sobre a própria independência e na expressão que surgiu em seu rosto quando ela lhe perguntou se morava sozinho.

Havia uma história ali.

Uma história que ela queria conhecer.

E, pela primeira vez em muito tempo, Serpente sentiu vontade de se aproximar de alguém sem saber exatamente o que encontraria.

Não era amor. Ainda não.

Era curiosidade, atração e uma vontade insistente de reencontrá-lo.

Mas, dentro de uma mulher que havia passado a vida inteira confundindo controle com segurança, até mesmo um sentimento pequeno poderia crescer de maneira perigosa.

Serpente ergueu os olhos para as luzes espalhadas pelas casas.

Em algum lugar daquela rua, Jonas provavelmente tentava esquecer o susto e cuidar dos ferimentos. Talvez estivesse agradecendo por ter chegado em casa. Talvez estivesse pensando na mulher que o ajudara.

Ou talvez já tivesse decidido que nunca mais queria cruzar seu caminho.

A possibilidade a incomodou mais do que deveria.

Ela não gostava de perder o controle de uma situação antes mesmo de compreender o que estava acontecendo.

E Jonas, sem perceber, já havia se tornado uma incógnita.

— Você ainda vai me dar trabalho, Jonas — murmurou para si mesma.

Um sorriso discreto surgiu em seus lábios, desaparecendo quase imediatamente.

Ela não tinha como saber se aquela aproximação seria bem recebida, se ele confiaria nela ou se acabaria se afastando ao descobrir que a mulher que o salvara também era alguém capaz de despertar medo em tantas pessoas.

Mesmo assim, Serpente decidiu que não deixaria aquela curiosidade desaparecer tão facilmente.

A invasão ainda não havia terminado, os segredos por trás do ataque permaneciam escondidos e muitas perguntas precisavam de respostas.

Mas, naquela noite, outra questão começou a ocupar espaço em sua mente.

Até onde ela estaria disposta a ir para manter Jonas por perto?

Serpente ainda acreditava que poderia conduzir aquela situação da mesma maneira como conduzia todas as outras: com inteligência, estratégia e controle.

Não imaginava que o homem que encontrara caído em um beco seria justamente aquele que colocaria suas certezas à prova.

Muito menos que, ao tentar descobrir os segredos de Jonas, acabaria sendo obrigada a encarar os próprios.

Afinal, ela não tinha nada a perder.

Ou era exatamente isso que gostava de dizer a si mesma.

Continua...

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo