Capítulo 4 ENTRE O DESEJO E A TENTAÇÃO

Jonas narrando

Acordei com o barulho da chuva batendo contra o telhado. Por alguns instantes, permaneci de olhos fechados, tentando aproveitar o conforto da cama, mas logo senti meu corpo reclamar. Meus braços estavam doloridos, e o tombo que havia levado durante a invasão parecia ter deixado suas consequências.

Soltei um suspiro e me virei cuidadosamente.

— É só o que me faltava... — murmurei.

Eu precisava me acostumar a prestar mais atenção aos meus limites, principalmente quando estava cansado. Não gostava de admitir que sentia dor, mas fingir que nada havia acontecido também não resolveria o problema.

Decidi tomar um banho para aliviar a tensão muscular. Depois de alguns minutos, desliguei o chuveiro, peguei a toalha e a acomodei sobre o colo. Ainda estava tentando me secar quando ouvi batidas na porta.

Franzi a testa.

Quem poderia ser àquela hora?

Não havia feito amizade com ninguém na comunidade, e a chuva estava tão forte que eu não imaginava alguém disposto a sair de casa sem necessidade.

As batidas se repetiram.

— Já vai!

Como ainda não estava vestido, precisei me organizar rapidamente. Coloquei a toalha sobre o colo, ajeitei a cadeira e fui até a porta.

Quando a abri, fiquei completamente surpreso.

Serpente estava do lado de fora, com algumas gotas de chuva escorrendo pelos cabelos e uma expressão tranquila, como se aparecer na casa de um desconhecido logo pela manhã fosse a coisa mais natural do mundo.

— Bom dia, Jonas!

— Bom dia! Você ficou maluca? Está chovendo muito!

Ela soltou uma risada discreta.

— Percebi. Posso entrar?

Afastei a cadeira imediatamente.

— Claro! Entra, antes que fique ainda mais molhada.

Serpente entrou carregando algumas caixas, sacolas e uma pasta. Colocou tudo sobre a mesa e começou a retirar os objetos, sem demonstrar qualquer pressa.

— Trouxe os documentos, o computador, algumas planilhas e outras coisas que comprei na papelaria. Também trouxe seu café da manhã.

Olhei para a quantidade de coisas espalhadas sobre a mesa e depois para ela.

— Você trouxe tudo isso sozinha?

— Não, Jonas. A chuva trouxe o computador, as planilhas e as sacolas. Eu só vim acompanhando.

Demorei um segundo para perceber a ironia.

— Está debochando de mim logo cedo?

— Um pouquinho. Adoro quando você fica tentando descobrir se estou falando sério.

Balancei a cabeça, sorrindo. Aquela mulher tinha um jeito peculiar de conduzir as conversas. Era difícil saber quando estava brincando e quando pretendia realmente dar uma ordem.

Foi então que percebi seu olhar percorrendo meu corpo.

Eu ainda estava com a toalha sobre o colo, sem ter conseguido me vestir. Serpente demorou um instante a mais do que eu esperava antes de voltar os olhos para meu rosto.

Senti minhas bochechas esquentarem.

— O que foi? — perguntei, constrangido.

Ela se aproximou um pouco, com um sorriso provocador.

— Nada. Só estou percebendo que você fica muito bonito quando está envergonhado.

Baixei os olhos imediatamente.

Eu não estava acostumado a receber aquele tipo de atenção. Depois do acidente, minha autoestima havia sofrido muito. Durante meses, eu me perguntara se alguém voltaria a olhar para mim como homem, se conseguiria me relacionar novamente e se teria coragem de me aproximar de outra pessoa sem medo de ser rejeitado.

— Você sempre fala assim com as pessoas? — perguntei.

— Só quando tenho vontade.

Levantei o rosto e encontrei seus olhos fixos nos meus.

Havia uma intensidade ali que me deixava sem saber como reagir.

— Jonas, posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— Você se relacionou com alguém depois do acidente?

A pergunta me pegou desprevenido.

Respirei fundo antes de responder.

— Não. Depois que me recuperei da fase mais complicada, vim direto para cá. Não tive cabeça para pensar em relacionamentos.

Serpente deixou de sorrir por alguns instantes.

— Por causa do que aconteceu com sua noiva?

Assenti.

— Também. Mas não foi só isso. Eu precisei aprender a lidar com muita coisa. Meu corpo mudou, minha rotina mudou e as pessoas que eu imaginava que estariam ao meu lado simplesmente desapareceram. Às vezes, ainda tenho dificuldade para acreditar que tudo aconteceu comigo.

Ela permaneceu em silêncio, prestando atenção.

— Tenho medo de começar alguma coisa com alguém e acabar passando pela mesma situação novamente — continuei. — Não quero que uma pessoa fique comigo por pena, muito menos que me trate como se eu fosse incapaz de viver um relacionamento.

Serpente aproximou-se mais um pouco.

— E quem disse que você precisa aceitar alguém que tenha pena de você?

Dei de ombros.

— Ninguém. Mas é difícil esquecer certas coisas.

— Então não se obrigue a esquecer. Apenas não permita que o passado decida tudo o que você ainda pode viver.

Aquelas palavras me fizeram pensar.

Eu não esperava encontrar tanta compreensão justamente nela. Serpente tinha fama de ser fria, calculista e difícil de agradar. Entretanto, quando conversávamos, eu percebia que havia muito mais por trás daquela postura.

Ela estendeu a mão e tocou delicadamente meu rosto.

— Posso beijar você?

Meu coração acelerou.

A pergunta foi simples, mas me atingiu de uma maneira que eu não sabia explicar. Não havia pena em sua voz, nem aquela cautela exagerada que tantas pessoas demonstravam quando se aproximavam de mim.

Ela estava perguntando porque queria.

E esperava que eu também quisesse.

Olhei para seus lábios e depois para seus olhos.

— Pode.

Serpente se inclinou e me beijou suavemente. O contato foi breve, quase uma pergunta silenciosa, e ela se afastou o suficiente para observar minha reação.

Eu poderia ter ficado quieto, agradecido pela gentileza e deixado que aquele momento terminasse ali.

Mas não queria.

Segurei sua mão e a puxei delicadamente para mais perto, correspondendo ao beijo.

Ela pareceu surpresa por um instante, mas logo sorriu contra meus lábios.

Aquele sorriso me deu coragem.

Beijei-a novamente, dessa vez sem tanta hesitação, enquanto ela acariciava meu rosto. Durante alguns segundos, esqueci a chuva, os problemas e todas as inseguranças que havia carregado desde o acidente.

Eu era apenas um homem beijando uma mulher que despertava meu interesse.

E aquilo me fez sentir vivo de uma maneira que não experimentava havia muito tempo.

Quando nos afastamos, Serpente continuou perto de mim.

— Então você também sabe tomar a iniciativa — comentou.

— Só quando vale a pena.

Ela soltou uma risada baixa.

— Gostei da resposta.

Seu olhar permaneceu preso ao meu, e a proximidade entre nós deixou claro que aquele encontro havia ultrapassado a simples entrega de documentos.

Ainda assim, eu precisava ter certeza de que não estava confundindo a intensidade daquele momento com alguma obrigação de corresponder às expectativas dela.

— Serpente...

— Diga.

— Você tem certeza de que quer estar aqui comigo?

Ela franziu a testa.

— Por que não teria?

Respirei fundo.

— Porque minha vida mudou muito. Existem coisas que ainda não sei se conseguirei fazer como antes. Não quero que você crie expectativas e depois se decepcione comigo.

A expressão dela suavizou.

— Jonas, eu não vim aqui para avaliar o que você consegue ou não consegue fazer. Vim porque quis ver você novamente. E, se estamos nos beijando, é porque os dois querem. Não existe nenhuma obrigação entre nós.

Senti um alívio que não sabia que precisava.

— Obrigado por falar assim comigo.

— Não precisa agradecer por eu tratar você como um homem adulto.

Sorri, e ela acariciou meu rosto mais uma vez.

O que aconteceu depois foi uma escolha compartilhada, sem promessas precipitadas ou cobranças. A proximidade entre nós se tornou mais íntima, e permiti que a confiança ocupasse, por alguns momentos, o espaço que antes era dominado pelo medo.

Não precisei fingir que minhas inseguranças haviam desaparecido. Também não precisei provar que era capaz de corresponder a algum padrão que existia apenas na minha cabeça.

Serpente demonstrou carinho, e eu correspondi porque queria estar ali.

Quando finalmente nos acomodamos na cama, a chuva continuava caindo do lado de fora.

Eu estava com a cabeça apoiada no travesseiro, tentando compreender a rapidez com que aquela manhã havia mudado de rumo.

Serpente estava deitada ao meu lado, tranquila, passando os dedos pelos meus cabelos.

— Por que essa cara? — perguntou.

Virei o rosto para ela.

— Estou pensando em algumas coisas.

— Coisas boas ou ruins?

— Ainda não decidi.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Quer compartilhar?

Hesitei antes de falar.

— Você realmente gostou de estar comigo?

Serpente me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando compreender de onde vinha aquela dúvida.

— Gostei, Jonas. Por que está perguntando isso?

Passei a mão pelo rosto.

— Porque ainda tenho dificuldade para acreditar que alguém possa sentir desejo por mim sem enxergar primeiro a minha cadeira de rodas. Às vezes, fico pensando se vou conseguir ter uma vida normal novamente.

Ela se aproximou e segurou minha mão.

— Escute uma coisa. Você não precisa provar sua masculinidade para mim. Não precisa competir com o homem que era antes do acidente, nem tentar adivinhar o que estou pensando. Eu gostei de estar com você, e isso deveria ser suficiente para este momento.

Engoli em seco.

— Você não achou estranho?

— Estranho seria eu fingir sentir alguma coisa que não sinto. Mas não é o caso. Você é um homem interessante, Jonas. Tem suas inseguranças, assim como qualquer pessoa, mas isso não diminui quem você é.

Fiquei olhando para ela, emocionado com a sinceridade.

— Obrigado por pensar assim de mim.

— Penso muito mais coisas, mas vou guardar algumas para outra ocasião.

Sorri.

— Você não perde uma oportunidade de me provocar, não é?

— E você fica adorável quando tenta disfarçar que gosta.

Revirei os olhos, arrancando uma risada dela.

Por alguns minutos, permanecemos conversando. Descobri que Serpente gostava de café forte, não tinha paciência para pessoas desonestas e detestava quando alguém tentava decidir por ela. Ela também perguntou sobre meu trabalho, meus estudos e os planos que havia feito antes do acidente.

Quando falei sobre minha vontade de voltar a estudar e conseguir pagar pelas cirurgias, ela prestou atenção sem interromper.

— Vamos fazer o seguinte — disse finalmente. — Primeiro, você começa a trabalhar e organiza suas finanças. Depois, procura um especialista para avaliar suas possibilidades de tratamento. Não quero que tome decisões precipitadas por causa da ansiedade.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não disse que será fácil. Estou dizendo que você não precisa resolver tudo hoje.

Olhei para ela e sorri.

Talvez fosse exatamente isso que eu precisava ouvir.

Depois de algum tempo, Serpente se levantou e pegou uma roupa que havia deixado sobre a cadeira.

— Vamos tomar banho. Depois precisamos organizar seus documentos e conferir o material que trouxe.

— Você tem certeza de que não estou atrapalhando seus compromissos?

Ela virou o rosto lentamente.

— Jonas, se você me atrapalhasse, eu já teria ido embora.

— É que você deve ter um monte de coisas para resolver.

— E tenho. Mas consigo administrar meu tempo.

Ela se aproximou e me ajudou a organizar o que precisava, respeitando minhas orientações sobre a melhor maneira de me movimentar. Não tentou fazer tudo por mim, e eu não precisei esconder minhas dificuldades para impressioná-la.

Aquela naturalidade significava mais do que eu conseguia explicar.

Quando terminamos, fomos para a cozinha e encontramos o café da manhã que ela havia trazido. Havia frutas, pães, queijo, suco e café.

— Você trouxe comida suficiente para alimentar uma família inteira — comentei.

— E você precisa se alimentar direito. Não quero meu contador desmaiando antes de começar a trabalhar.

— Seu contador?

Ela sorriu.

— Já está arrependido de aceitar o emprego?

— Nem pensar. Estou gostando dessa parte.

Sentamos à mesa, e ela começou a me explicar as primeiras responsabilidades do trabalho. Falou sobre os documentos que eu precisaria analisar, as planilhas que deveria organizar e a maneira como poderíamos manter contato sem que eu precisasse sair de casa diariamente.

Eu estava concentrado nas explicações quando percebi que Serpente observava o espaço ao redor.

Ela olhou para a passagem estreita entre a mesa e a parede, depois para a porta do banheiro.

— Você tem certeza de que está bem nesta casa?

— Tenho. É simples, mas serve para mim.

— Está cheia de mofo, os móveis ocupam quase todo o espaço e você precisa fazer manobras para passar de um cômodo para outro.

— Eu vou me acostumar. Não precisa se preocupar.

Serpente cruzou os braços e me encarou.

— Você tem uma mania irritante de dizer que vai se acostumar com tudo.

— Talvez porque eu não tenha muitas alternativas.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Existem alternativas, sim. Você só precisa parar de acreditar que deve aceitar qualquer condição porque sua vida mudou.

Eu não soube o que responder.

Ela estava certa sobre algumas coisas, mas eu ainda não tinha condições financeiras para alugar outro lugar ou comprar tudo o que precisava.

— Quando eu estiver trabalhando e tiver dinheiro suficiente, posso procurar uma casa melhor — respondi.

Serpente inclinou a cabeça, analisando minha expressão.

— E se eu oferecer uma solução antes disso?

— Que solução?

Ela se aproximou, apoiando as mãos nos braços da minha cadeira.

— Se você continuar me olhando desse jeito, vou acabar levando você para morar comigo.

Meu coração acelerou.

— Você está falando sério?

O sorriso dela se tornou enigmático.

— Talvez.

Fiquei sem palavras.

Serpente voltou a se sentar, como se não tivesse acabado de lançar uma possibilidade capaz de bagunçar todos os meus pensamentos.

Eu ainda não sabia o que esperar daquela mulher. Ela era intensa, imprevisível e parecia acostumada a conseguir aquilo que desejava.

Mas, pela primeira vez desde o acidente, eu estava começando a considerar a possibilidade de que alguém pudesse se aproximar de mim não por obrigação, pena ou interesse financeiro, mas simplesmente porque queria estar comigo.

E isso me assustava tanto quanto me fazia feliz.

Olhei para os documentos sobre a mesa e tentei me concentrar no trabalho.

Precisava manter os pés no chão, mesmo que minha vida agora fosse conduzida sobre rodas.

Serpente era minha nova chefe, a mulher que comandava a comunidade e alguém que eu mal começara a conhecer.

Eu não podia confundir uma manhã intensa com a certeza de um futuro juntos.

Ainda assim, quando ela sorriu para mim antes de abrir a primeira pasta, percebi que estava ansioso para descobrir o que aconteceria a seguir.

Talvez aquela fosse apenas uma oportunidade de emprego.

Talvez fosse o início de algo muito maior.

Só o tempo diria.

Continua...

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