Capítulo 5 A PRESA QUE DESPERTOU A SERPENTE

Serpente narrando

Minha manhã não poderia ter sido melhor.

Saí da casa de Jonas com um sorriso discreto nos lábios e uma sensação estranha no peito. Eu estava acostumada a acordar, resolver meus problemas e seguir com meus compromissos sem permitir que nada interferisse na minha rotina. Entretanto, aquele homem havia conseguido ocupar meus pensamentos de uma maneira que eu não considerava conveniente.

Jonas era diferente.

Não porque utilizava uma cadeira de rodas, mas porque não fazia questão de me agradar. Ele me enfrentava com palavras, sustentava meu olhar e parecia não compreender que poucas pessoas tinham coragem de falar comigo daquela maneira.

E eu gostava disso.

Gostava mais do que deveria.

Depois de deixar sua casa, segui para o QG, onde precisei resolver algumas questões relacionadas à invasão da noite anterior. Ainda havia informações para verificar, pessoas para ouvir e decisões que não poderiam esperar. Minha vida não me permitia o luxo de passar horas pensando em um homem, por mais interessante que ele fosse.

Ou pelo menos era o que eu tentava repetir para mim mesma.

— Chefe, conseguimos algumas informações sobre a movimentação de ontem — João Paulo anunciou assim que entrei.

Coloquei a bolsa sobre a mesa e o encarei.

— Pode falar.

Ele apresentou o que havia sido apurado, e eu ouvi tudo atentamente. Fiz algumas perguntas, determinei que continuassem verificando os pontos ainda desconhecidos e deixei claro que não aceitaria descuidos.

Eu precisava descobrir quem havia decidido testar minha autoridade.

Não era a primeira ameaça que enfrentava, e certamente não seria a última. Contudo, não tolerava que colocassem os moradores em risco para tentar alcançar seus objetivos.

— Quero atualizações assim que surgir qualquer novidade — ordenei.

— Sim, chefe.

Quando João Paulo saiu, encostei-me na cadeira e fechei os olhos por alguns segundos.

Minha cabeça estava cheia de preocupações, mas, de alguma maneira, meus pensamentos voltaram para Jonas.

Lembrei-me da expressão que ele fez quando percebeu que eu havia levado comida, dos momentos em que tentou esconder a própria insegurança e da maneira como me olhou quando falei sobre a possibilidade de ajudá-lo a reconstruir sua vida.

Havia algo naquele homem que me despertava uma vontade incomum de cuidar, embora eu não estivesse acostumada a assumir esse tipo de responsabilidade emocional.

Eu entendia a dor de perder tudo de uma hora para outra.

Talvez por isso tivesse reconhecido algo familiar em seus olhos.

Mas não era apenas compaixão.

Eu desejava conhecê-lo melhor. Queria descobrir o que o fazia sorrir, o que o irritava, quais eram seus sonhos e o que havia por trás daquela força que ele tentava manter mesmo quando estava machucado.

O problema era que, quando eu desejava alguma coisa, costumava encontrar uma maneira de alcançá-la.

E Jonas não seria uma exceção tão facilmente quanto eu gostaria.

Depois de resolver as questões mais urgentes no QG, segui para casa para me preparar.

Eu precisava comparecer à empresa da família. Embora não administrasse pessoalmente todos os setores, fazia questão de estar presente pelo menos duas vezes por semana. Havia responsabilidades que não poderiam ser delegadas completamente, e eu gostava de acompanhar de perto o andamento dos negócios.

Minha vida sempre foi dividida entre dois mundos.

De um lado, existia Serpente, a mulher que comandava o morro, tomava decisões difíceis e não permitia que ninguém confundisse sua educação com fraqueza.

Do outro, existia Lucy.

A empresária que frequentava reuniões, usava roupas elegantes, conhecia os números da companhia e sabia negociar com pessoas acostumadas a acreditar que dinheiro e influência lhes davam o direito de controlar tudo.

Pouquíssimas pessoas conheciam as duas versões de mim.

E eu preferia que continuasse assim.

Meu avô havia construído sua história naquele lugar muito antes de eu nascer. O morro era uma herança que carregava tanto o peso da nossa família quanto as consequências de escolhas feitas ao longo de muitos anos.

Meu pai, entretanto, decidiu seguir outro caminho.

Ele não quis assumir aquela responsabilidade. Preferiu morar na pista, estudar e construir uma vida diferente. Isso nunca significou que tivesse abandonado meu avô. Os dois mantiveram uma relação próxima, apesar das diferenças, e meu pai sempre fez questão de me ensinar que amar alguém não significava precisar seguir exatamente os mesmos passos.

Foi durante a faculdade que ele conheceu minha mãe.

Segundo as histórias que me contava, os dois se apaixonaram tão profundamente que ninguém conseguiu separá-los. Minha mãe era uma mulher inteligente, elegante e dona de uma personalidade forte. Meu pai dizia que ela havia sido a única pessoa capaz de fazê-lo perder uma discussão sem que ele percebesse.

Eu gostava de ouvir aquelas histórias.

Elas me lembravam que, antes de serem meus pais, eles haviam sido duas pessoas com sonhos, planos e uma vida inteira pela frente.

Quando eu ainda estava decidindo o que faria do meu futuro, meu pai me chamou para uma conversa.

— Lucy, se você quiser seguir os passos do seu avô, não vou me opor — ele me disse. — Mas, antes de assumir qualquer responsabilidade, quero que estude. Conhecimento é uma coisa que ninguém poderá tirar de você.

Levei aquelas palavras comigo.

Fiz faculdade, me formei e continuei estudando. Queria estar preparada para qualquer caminho que escolhesse, fosse na administração da empresa ou na responsabilidade que um dia poderia herdar.

Meu pai nunca tentou me obrigar a escolher.

Ele queria que eu tivesse condições de decidir por mim mesma.

Infelizmente, não teve a oportunidade de me ver construir tudo o que havia planejado.

Meus pais morreram em um acidente de avião durante uma segunda lua de mel.

Ainda me lembro da sensação de vazio que tomou conta de mim quando recebi a notícia. Durante muito tempo, tive dificuldade para aceitar que duas pessoas tão presentes na minha vida poderiam desaparecer de maneira tão repentina.

O luto me mudou.

Aprendi que não adiantava fazer planos acreditando que o futuro estava garantido. A vida podia arrancar tudo de nós sem pedir licença, e nenhuma quantidade de dinheiro ou influência seria capaz de mudar determinadas coisas.

Depois da morte deles, assumi a empresa e comecei a ser treinada pelo meu avô para as responsabilidades que me aguardavam.

Ele não facilitou meu caminho.

Exigia disciplina, atenção e firmeza. Queria ter certeza de que eu compreenderia o peso das decisões que tomaria e as consequências que elas poderiam trazer.

Eu o respeitava por isso.

Quando meu treinamento terminou, houve um baile de apresentação. Naquela noite, fui apresentada oficialmente a pessoas que precisavam compreender que eu estava preparada para assumir meu lugar.

Pouco tempo depois, meu avô morreu durante uma invasão.

Foi como perder a última pessoa que ainda me ligava diretamente àquela parte da minha história.

Eu havia perdido meus pais e, depois, meu avô. Precisei assumir responsabilidades que pareciam grandes demais, aprender a tomar decisões sozinha e esconder a dor para não permitir que os outros a utilizassem contra mim.

Desde então, construí uma armadura.

Fria, calculista e difícil de atravessar, tornei-me a mulher que todos conheciam como Serpente.

Mas, em alguns momentos, quando a casa ficava silenciosa e eu não precisava representar papel algum, ainda sentia falta de ter alguém com quem dividir o peso de tudo.

Talvez fosse por isso que a presença de Jonas tivesse despertado algo tão inesperado.

Ele também conhecia a sensação de perder pessoas que acreditava que permaneceriam ao seu lado.

A diferença era que ele ainda tentava encontrar um caminho para reconstruir a própria vida.

E eu queria ajudá-lo.

Não apenas com dinheiro ou trabalho. Queria vê-lo recuperar a confiança, conquistar seus objetivos e voltar a sorrir sem aquela sombra de insegurança que aparecia quando falava do acidente.

Eu sabia que ele poderia seguir em frente.

O que ainda não sabia era por que desejava tanto fazer parte desse processo.

Terminei de me arrumar diante do espelho.

Escolhi um conjunto elegante, ajustei os cabelos e coloquei os acessórios discretos que costumava usar nas reuniões da empresa. A mulher refletida no espelho parecia segura, sofisticada e completamente no controle da própria vida.

Lucy estava pronta.

Peguei a bolsa, conferi os documentos e segui para a empresa.

Assim que cheguei, fui recebida pela equipe administrativa. Cumprimentei os funcionários e pedi que me atualizassem sobre as principais movimentações da semana.

Havia algumas contratações recentes, e eu queria analisar os relatórios antes de começar as reuniões.

— Senhora Lucy, chegaram as fichas dos novos funcionários para sua avaliação — informou uma das responsáveis pelo setor de recursos humanos.

— Deixe sobre minha mesa. Vou analisar tudo antes da reunião.

Ela colocou uma pasta diante de mim e se retirou.

Sentei-me, abri os documentos e comecei a conferir as informações.

Alguns candidatos tinham experiências interessantes. Outros precisariam de uma avaliação mais detalhada. Eu estava concentrada nas fichas quando um nome chamou minha atenção.

Parei de folhear.

Voltei à página anterior e li novamente.

Não era possível.

Abri a pasta por completo, conferi os dados e encontrei a fotografia anexada ao cadastro.

Então soltei uma risada.

Uma risada genuína, daquelas que eu não dava havia muito tempo.

A ex-noiva de Jonas.

A mulher que havia abandonado meu futuro contador depois do acidente estava trabalhando justamente na empresa da minha família.

Aquilo parecia uma brincadeira do destino.

Eu não conhecia pessoalmente aquela mulher, mas sabia o suficiente sobre sua história para compreender que sua presença poderia provocar consequências interessantes.

Jonas havia me contado que fora abandonado quando mais precisava de apoio. Também me explicara que perdera o apartamento e que seus pais haviam gastado o dinheiro que recebera da empresa.

Eu não pretendia julgá-la apenas com base no relato dele, mas não conseguia deixar de pensar na ironia daquela situação.

Ela havia deixado Jonas para trás.

Agora, sem saber, trabalhava em uma empresa ligada à mulher que começava a se aproximar dele.

Encostei-me na cadeira e voltei a olhar a fotografia.

— Isso vai ser divertido — murmurei.

Eu não pretendia transformar a empresa em palco para questões pessoais. Ali, cada funcionário seria avaliado por sua competência e pelas regras que se aplicavam a todos.

Mas não podia negar que aquela descoberta havia despertado minha curiosidade.

Será que ela sabia que Jonas estava morando na comunidade?

Será que se arrependia do que havia feito?

Ou simplesmente seguira a vida acreditando que ele jamais voltaria a cruzar seu caminho?

Peguei o telefone e chamei a responsável pelo setor.

— Quero que me explique o processo de contratação desta funcionária.

A mulher entrou alguns minutos depois, trazendo os documentos complementares.

— Ela foi contratada recentemente para o setor administrativo. Tem experiência anterior e apresentou as qualificações exigidas para a vaga.

Examinei os papéis.

— A seleção foi feita de acordo com os procedimentos habituais?

— Sim, senhora.

— Ótimo. Então não há motivo para alterar nada. Quero apenas que todos os funcionários sejam avaliados pelos mesmos critérios.

A responsável assentiu.

— Mais alguma coisa?

Olhei novamente para a ficha.

— Por enquanto, não.

Quando fiquei sozinha, fechei a pasta e sorri.

Eu não precisava prejudicar aquela mulher, nem interferir em sua vida profissional. Se ela era competente, teria a oportunidade de demonstrar isso.

Mas o destino havia colocado uma peça inesperada no tabuleiro.

E eu seria uma mentirosa se dissesse que não estava curiosa para descobrir o que aconteceria quando os caminhos delas voltassem a se cruzar.

Meu celular vibrou sobre a mesa.

Por um instante, pensei que fosse alguma atualização do QG. Entretanto, era apenas uma mensagem relacionada aos compromissos da tarde.

Guardei o aparelho e voltei aos documentos.

Precisava manter o foco.

A empresa dependia de decisões responsáveis, e minha vida não poderia girar em torno de Jonas, por mais que ele estivesse começando a ocupar um espaço importante nos meus pensamentos.

Ainda assim, quando terminei de assinar os primeiros papéis, percebi que estava sorrindo novamente.

Eu gostava de desafios.

Gostava de descobrir o que as pessoas escondiam e de entender como determinadas situações poderiam se transformar em oportunidades.

Mas havia uma diferença entre administrar uma empresa, comandar um território e lidar com os próprios sentimentos.

Nos dois primeiros casos, eu sabia exatamente o que fazer.

No último, estava começando a descobrir que minhas estratégias talvez não fossem suficientes.

Jonas tinha despertado em mim algo que eu não sabia nomear. Não era apenas atração, nem somente a vontade de ajudá-lo. Era uma necessidade crescente de conhecê-lo, de estar por perto e de descobrir se aquele homem conseguiria enxergar a mulher que existia por trás da fama de Serpente.

Eu queria acreditar que conseguiria manter tudo sob controle.

Queria acreditar que poderia me aproximar dele sem transformar meu interesse em uma obsessão.

Mas eu me conhecia bem demais para ignorar o perigo.

Quando alguma coisa despertava verdadeiramente meu desejo, eu tinha dificuldade para desistir.

E Jonas estava começando a se tornar importante demais para alguém que eu conhecia havia tão pouco tempo.

Olhei novamente para a fotografia da ex-noiva e deixei a pasta de lado.

— Eu amo uma presa fácil... — murmurei, com um sorriso lento.

Mas, dessa vez, não tinha tanta certeza de que Jonas seria uma presa.

Talvez fosse justamente ele quem me obrigaria a abandonar minhas estratégias, enfrentar meus medos e compreender que ninguém conquista um coração apenas porque deseja possuí-lo.

Eu ainda não estava pronta para admitir isso.

Por enquanto, continuaria sendo Lucy na empresa e Serpente no morro. Cumpriria minhas obrigações, manteria meus segredos e encontraria uma maneira de me aproximar do homem que havia despertado minha curiosidade.

Quanto à ex-noiva, deixaria que o tempo mostrasse qual seria o papel dela nessa história.

Afinal, eu não precisava apressar os acontecimentos.

Bastava observar, compreender e esperar o momento certo para descobrir a verdade.

Porque Serpente podia controlar seus negócios, proteger seu território e comandar homens acostumados ao perigo. Mas, quando o assunto era Jonas, ela estava prestes a descobrir que o coração não obedecia às mesmas regras.

E aquilo, para uma mulher como eu, era ao mesmo tempo irritante e perigosamente fascinante.

Continua...

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