Capítulo 6 VERDADES QUE LIBERTAM

Serpente narrando

Eu estava terminando de assinar os últimos documentos antes de voltar para o morro quando recebi uma mensagem de Jonas.

Assim que li o conteúdo, não consegui conter uma risada.

Ele precisava conversar com o antigo contador.

Coitado! Se soubesse que aquela era uma missão impossível, provavelmente teria escolhido outras palavras.

Deixei o celular sobre a mesa e terminei de conferir os documentos que ainda precisavam da minha assinatura. A empresa estava passando por algumas mudanças, e eu queria ter certeza de que tudo ficaria organizado antes de me ausentar novamente.

Serpente tinha muitas responsabilidades, mas Lucy também precisava cumprir as próprias obrigações. Eu não podia simplesmente abandonar os negócios da família sempre que surgisse alguma coisa interessante no morro.

Embora, ultimamente, Jonas estivesse se tornando uma tentação considerável.

Quando finalmente terminei, guardei os papéis, organizei a mesa e peguei minha bolsa. Antes de sair, conferi a agenda do dia seguinte e me certifiquei de que a consulta de Jonas estava confirmada.

Eu queria ajudá-lo a investigar as possibilidades de tratamento, mas sabia que não poderia prometer um resultado antes de ouvir a opinião de um especialista.

Ainda assim, estava disposta a fazer o que estivesse ao meu alcance.

Saí da sala e me despedi dos funcionários, como fazia habitualmente. Cumprimentei algumas pessoas, troquei palavras rápidas com a equipe administrativa e segui em direção à saída.

Foi quando percebi um olhar insistente.

A ex-noiva de Jonas estava parada perto de uma das mesas, observando-me de cima a baixo.

Ela parecia intrigada com minha presença, talvez tentando descobrir quem eu era e por que circulava pela empresa com tanta liberdade.

Limitei-me a sorrir de lado.

Ah, se ela soubesse!

Se tivesse a menor ideia de quem eu era fora daquele ambiente, provavelmente pensaria duas vezes antes de me avaliar daquela maneira.

Mas não havia motivo para revelar meus segredos.

Eu tinha assuntos mais importantes para resolver, e ela era apenas uma funcionária recém-contratada que precisava demonstrar competência como qualquer outra pessoa.

Continuei caminhando, deixando-a com a curiosidade.

No entanto, enquanto entrava no carro, não consegui evitar um pensamento divertido.

O mundo realmente gostava de brincar com as pessoas.

A mulher que havia abandonado Jonas agora trabalhava para mim, enquanto o homem que ela desprezara estava prestes a se tornar uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Talvez o destino tivesse um senso de humor peculiar.

Ou talvez eu estivesse começando a encontrar graça em situações que, antes, me deixariam completamente indiferente.

Assim que cheguei ao morro, segui diretamente para a casa de Jonas.

Eu poderia ter mandado alguém entregar os documentos ou simplesmente telefonado para explicar o que precisava ser feito. Entretanto, queria vê-lo pessoalmente.

Era uma justificativa perfeitamente razoável.

Pelo menos, foi isso que repeti para mim mesma durante todo o caminho.

Quando cheguei, bati à porta e aguardei.

Jonas abriu poucos instantes depois.

Sua expressão mudou assim que me viu. Ele percorreu meu rosto, observou minha roupa e depois voltou os olhos para mim, parecendo esquecer por alguns segundos que havia sido ele quem me mandara aquela mensagem.

Cruzei os braços, divertindo-me com sua reação.

— Por que está me olhando assim?

Ele sorriu, um pouco envergonhado.

— Está linda. Você comanda o morro de salto?

Soltei uma gargalhada.

— Não nego que até de salto consigo colocar ordem por aqui, mas hoje estava na empresa.

— Na empresa?

— Sim. Preciso cuidar dos negócios da minha família. Não posso passar o dia inteiro no morro.

Ele abriu mais a porta, permitindo que eu entrasse.

— Então você tem uma empresa?

— Tenho. Na verdade, herdei a responsabilidade de administrá-la depois que meus pais morreram. Meu avô também deixou muita coisa sob minha responsabilidade, e precisei aprender a conciliar os dois mundos.

Jonas fechou a porta e me acompanhou até a sala.

— Espera aí. Você é dona do morro, administra uma empresa e ainda encontra tempo para visitar seus funcionários?

— Funcionários? — perguntei, fingindo indignação.

Ele apontou para si mesmo.

— Eu sou seu contador, não sou?

Ri novamente.

— Ah, então agora você resolveu assumir o cargo oficialmente?

— Se o salário for bom, assumo até a presidência.

A espontaneidade dele me arrancou outra risada.

Eu gostava daquele lado de Jonas. Ele tinha passado por situações dolorosas, mas ainda conseguia brincar e encontrar motivos para sorrir. Aquela capacidade de continuar vivendo apesar das dificuldades era uma das coisas que mais me chamavam a atenção.

— Quanto à presidência, vamos conversar depois que você organizar as primeiras planilhas — provoquei.

— Cruel!

— Exigente. Existe uma diferença.

Aproximei-me dele e depositei um beijo suave em seus lábios antes de me sentar ao seu lado.

Jonas ainda sorria quando voltou a falar.

— Sinceramente, como você consegue dar conta de tudo isso? Eu já fico cansado só de imaginar a quantidade de coisas que precisa resolver.

Suspirei, apoiando a bolsa sobre a mesa.

— Não vou mentir. Às vezes, o peso é grande demais. Existem dias em que gostaria de simplesmente desaparecer por algumas horas, sem precisar tomar decisões ou ouvir alguém me chamando para resolver algum problema.

Ele me olhou com atenção.

— Então por que continua fazendo tudo?

A pergunta me fez refletir.

— Porque existem pessoas que dependem de mim. Porque herdei responsabilidades que não posso ignorar e porque aprendi que, se eu não fizer determinadas coisas, ninguém fará por mim.

Jonas ficou em silêncio por alguns instantes.

— Imagino que seja difícil.

— É. Mas agora tenho você para me ajudar.

Ele sorriu, embora parecesse surpreso com a confiança que eu estava depositando nele.

— Falando nisso, preciso conversar com seu antigo contador. Analisei algumas planilhas e encontrei muitas anormalidades. Existem valores que não correspondem aos registros, despesas que não foram devidamente explicadas e algumas movimentações que precisam ser verificadas.

Meu sorriso desapareceu lentamente.

Eu sabia que havia irregularidades nos documentos, mas queria ouvir a análise de Jonas antes de tomar qualquer decisão.

— Você já conseguiu identificar alguma coisa concreta?

— Ainda estou verificando. Não quero fazer acusações precipitadas, mas preciso comparar os registros com os documentos originais. Por isso, gostaria de conversar com o responsável anterior.

Olhei para ele por alguns segundos.

— Isso não será possível no momento.

Jonas franziu a testa.

— Ele não mora mais aqui?

— Mora.

— Então posso ir até a casa dele amanhã.

Balancei a cabeça.

— Não pode.

Ele me encarou, confuso.

Respirei fundo antes de explicar:

— O antigo contador está morto, Jonas. Ele estava me roubando, e a situação acabou muito mal.

Jonas arregalou os olhos.

— Você está falando sério?

— Estou.

Ele passou a mão pelo rosto, tentando assimilar a informação.

— Que malvada!

Fiquei olhando para ele por um instante antes de cair na gargalhada.

— Você é inacreditável! Acabei de dizer que um homem morreu e sua conclusão é que sou malvada?

— Ué! Eu queria conversar com ele, não sabia que precisava marcar uma reunião com o além!

Ri tanto que precisei me apoiar no encosto da cadeira.

Jonas também começou a rir, e, por alguns segundos, o assunto deixou de ser tão pesado.

Quando finalmente consegui me controlar, aproximei-me dele.

— Você deveria tomar cuidado com essa língua.

— Por quê? Vai me demitir?

— Talvez eu precise pensar no assunto.

— Nesse caso, exijo meus direitos trabalhistas!

Balancei a cabeça, divertindo-me com a situação, e me sentei cuidadosamente no colo dele, depois de me certificar de que estava confortável.

Jonas passou os braços ao meu redor, e eu o beijei com calma.

Não havia pressa naquele momento. Eu gostava de estar perto dele, de sentir sua mão em minha cintura e de perceber que, apesar das inseguranças, ele começava a se permitir viver algo novo.

Quando nos afastamos, permaneci próxima ao seu rosto.

— Existe uma coisa que preciso contar a você.

A expressão dele mudou imediatamente.

— O que aconteceu?

Acariciei sua face antes de responder.

— Lembra que eu disse que sempre procuro saber quem são os novos moradores? Então, durante esse processo, descobri algumas informações sobre sua ex-noiva.

Jonas ficou sério.

— O que tem ela?

— Hoje fui à empresa e recebi as fichas dos novos funcionários. Para minha surpresa, ela está entre as pessoas contratadas.

Ele demorou alguns segundos para reagir.

— Minha ex-noiva está trabalhando na sua empresa?

— Está.

Jonas soltou uma risada incrédula.

— Isso é estranho. Ela idolatrava tanto o antigo emprego que eu imaginava que ficaria lá para sempre.

Cruzei os braços, observando sua reação.

— Pelo que descobri, ela tinha um caso com o chefe. A esposa dele acabou descobrindo, e foi por isso que ela perdeu o emprego.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado de significado.

Jonas desviou os olhos para a janela.

— Então eu ainda era traído enquanto acreditava que estávamos construindo uma vida juntos.

Aproximei-me mais.

— Existem coisas que só descobrimos depois que acontecem. Às vezes, a verdade dói, mas também nos liberta. Talvez você tenha escapado de uma situação que só lhe traria mais sofrimento.

Ele respirou fundo.

— Sabe o que é mais estranho? Eu não sinto vontade de voltar para ela. Não sinto saudade do relacionamento, nem fico pensando em como seria se tudo tivesse sido diferente.

— E o que sente?

Jonas olhou para mim.

— Alívio. Acho que passei muito tempo tentando salvar uma relação que já não existia da maneira como eu imaginava.

Segurei sua mão.

— Você não precisa se culpar pelas escolhas dela.

— Eu sei. Só gostaria de ter descoberto tudo antes de me machucar tanto.

Acariciei seus dedos.

— Infelizmente, não podemos voltar no tempo. Mas podemos decidir o que faremos daqui para a frente.

Ele apertou minha mão.

— E eu não me arrependo do que aconteceu.

Franzi a testa, curiosa.

— Nem do acidente? Nem de tudo o que perdeu?

— Não estou dizendo que foi bom sofrer. Se pudesse escolher, teria evitado tudo aquilo. Mas não vou passar o resto da vida lamentando cada coisa que me aconteceu. Se nada disso tivesse ocorrido, talvez eu nunca tivesse vindo parar aqui. Talvez nunca tivesse conhecido você.

Meu coração apertou de uma maneira inesperada.

Eu estava acostumada a ouvir elogios, receber presentes e observar pessoas tentando conquistar minha atenção. Porém, poucas coisas me tocavam tanto quanto a sinceridade de Jonas.

Ele não estava tentando me impressionar.

Estava apenas dizendo o que sentia.

— Você sabe que pode me contar quando estiver triste, não sabe? — perguntei.

— Sei. Mas também quero que você saiba que não precisa me proteger de todos os problemas. Eu não quero ser alguém que você precisa carregar nas costas.

Aquelas palavras me fizeram compreender algo importante.

Jonas não queria que eu resolvesse sua vida por ele. Queria uma oportunidade, apoio e a possibilidade de continuar tomando as próprias decisões.

E eu precisava aprender a respeitar isso.

— Está bem — respondi. — Vou tentar não transformar tudo em uma missão de resgate.

Ele sorriu.

— Agradeço.

— Mas não prometo nada.

— Eu sabia!

Rimos juntos, e eu o beijei novamente.

Depois de alguns instantes, lembrei-me do compromisso que havia organizado para o dia seguinte.

— Falando em oportunidades, tenho outra coisa para contar.

Jonas me olhou com curiosidade.

— O quê?

— Marquei uma consulta para você amanhã.

Ele ficou imóvel.

— Uma consulta médica?

— Sim. Com um especialista que poderá avaliar sua condição, revisar seus exames e explicar quais possibilidades de tratamento existem.

A expressão dele mudou tão rapidamente que senti vontade de abraçá-lo.

— Você fez isso por mim?

— Fiz. Quero que tenha uma avaliação adequada antes de decidir que precisa se acostumar com sua situação atual para sempre.

Jonas baixou os olhos.

— Você realmente acha que posso voltar a andar?

Segurei seu rosto delicadamente, esperando que voltasse a me olhar.

— Acho que vale a pena investigar todas as possibilidades. Mas não vou prometer algo que depende de uma avaliação médica. O que posso garantir é que, se você precisar enfrentar um tratamento difícil, não precisará fazer isso sem apoio.

Ele respirou fundo, emocionado.

— E se eu nunca conseguir andar novamente?

A pergunta veio acompanhada de um medo que ele tentava esconder havia muito tempo.

Acariciei sua face.

— Então continuaremos procurando maneiras de melhorar sua qualidade de vida. Se você conseguir recuperar os movimentos, ficarei feliz por você. Se não conseguir, isso não fará a menor diferença para mim.

Jonas permaneceu olhando para mim.

— Você tem certeza?

— Absoluta. Eu gosto de você, Jonas. Não estou aqui porque espero que você se transforme em outra pessoa. Não preciso que caminhe para reconhecer seu valor.

Os olhos dele ficaram marejados.

Aproximei-me e beijei sua testa.

— Você não precisa provar nada para mim.

Ele me abraçou com força, e eu correspondi ao gesto, sentindo que aquele momento significava muito mais do que qualquer promessa que eu pudesse fazer.

Eu queria vê-lo recuperar a esperança. Queria que tivesse acesso ao tratamento adequado e pudesse decidir seu futuro com informações confiáveis.

Mas, acima de tudo, queria que compreendesse que não precisava conquistar meu carinho por meio de uma recuperação física.

Meu interesse por Jonas não dependia disso.

Quando nos afastamos, ele limpou discretamente os olhos.

— Obrigado, Lucy.

Sorri ao ouvir meu nome.

Poucas pessoas no morro me chamavam assim, e havia algo especial em escutá-lo pronunciado por ele.

— De nada, meu querido.

Jonas pareceu surpreso com o carinho na minha voz, mas não demorou a sorrir.

Ficamos conversando por mais alguns minutos, até que precisei organizar os documentos do trabalho e explicar os próximos passos da consulta.

Antes de sair, dei-lhe outro beijo e pedi que descansasse.

No caminho de volta, fiquei pensando na maneira como ele havia falado sobre o acidente. Jonas estava começando a transformar a própria dor em uma oportunidade de recomeço, e eu queria ajudá-lo a seguir adiante sem tomar para mim as decisões que pertenciam a ele.

Entretanto, também percebi que meus sentimentos estavam se tornando mais intensos.

Eu queria estar presente nos dias bons e ruins. Queria acompanhar suas conquistas e vê-lo sorrir quando alcançasse algo que julgava impossível.

Era um desejo bonito, mas eu precisava ter cuidado para não confundir proteção com controle.

Eu não queria ser mais uma pessoa decidindo o destino de Jonas sem ouvi-lo.

Queria que ele permanecesse ao meu lado porque desejava estar comigo.

E, pela primeira vez em muitos anos, percebi que conquistar a confiança de alguém poderia ser muito mais importante do que conseguir qualquer outra coisa que eu desejasse.

Amanhã seria um novo dia.

Jonas teria uma consulta, eu precisaria resolver os problemas da empresa e ainda havia perguntas sobre o antigo contador que não poderiam ficar sem resposta.

Mas, naquela noite, permiti-me sorrir ao pensar nele.

Porque, apesar de todos os segredos que ainda nos separavam, uma coisa estava ficando cada vez mais clara.

Eu queria descobrir até onde aquela história poderia chegar.

E, dessa vez, esperava que o caminho fosse construído pelos dois.

Continua...

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