Capítulo 7 O PASSADO BATE A PORTA

Jonas narrando

Eu mal consegui dormir naquela noite.

Minha consulta estava marcada para as oito da manhã, e, por mais que tentasse me convencer de que precisava descansar, minha cabeça não parava de trabalhar. Eu ficava imaginando o que o médico diria, quais exames precisaria fazer e se realmente existia alguma possibilidade de recuperar os movimentos das minhas pernas.

Era uma mistura de ansiedade, medo e esperança.

Durante muito tempo, evitei pensar na possibilidade de voltar a andar. Não porque tivesse desistido completamente, mas porque era doloroso alimentar uma esperança sem saber se ela poderia se tornar realidade.

Eu não queria criar expectativas e depois sofrer outra decepção.

Ainda assim, desde que Serpente havia marcado aquela consulta, alguma coisa dentro de mim começara a mudar.

Pela primeira vez em muito tempo, eu estava prestes a receber uma avaliação especializada sem precisar me preocupar imediatamente com o custo. Ela não havia prometido milagres, e eu respeitava isso. Mas estava me oferecendo a oportunidade de descobrir quais caminhos ainda poderia seguir.

Quando olhei para o relógio, percebi que faltava pouco para amanhecer.

Desisti de tentar dormir e fui me preparando para o dia. Tomei banho, vesti uma roupa confortável e organizei os documentos médicos que ainda guardava. Alguns eram antigos, outros estavam incompletos, mas levei tudo o que poderia ajudar o especialista a compreender meu histórico.

Eu estava conferindo a pasta quando ouvi batidas na porta.

Sorri imediatamente.

Só podia ser ela.

Ao abrir, encontrei Serpente impecavelmente arrumada, como sempre, carregando uma sacola e demonstrando uma disposição que eu definitivamente não compartilhava naquela manhã.

— Bom dia, meu querido!

— Bom dia. Você já acorda assim, cheia de energia?

Ela entrou, deixando a sacola sobre a mesa.

— Claro! Alguém precisa ter disposição nesta casa.

— Engraçadinha.

Serpente riu e começou a retirar o café da manhã que havia trazido.

— Vamos comer. Temos uma consulta, e não quero você passando mal porque resolveu ficar nervoso e esquecer de se alimentar.

Sentei-me à mesa e observei enquanto ela organizava tudo.

— Você sabe que não precisa fazer essas coisas, não sabe?

Ela ergueu os olhos.

— Que coisas?

— Vir aqui tão cedo, trazer café da manhã, organizar consultas... Você tem uma empresa para administrar e um morro inteiro para comandar.

Serpente apoiou as mãos na cintura.

— Jonas, você pretende reclamar de todas as coisas boas que eu fizer por você?

— Não estou reclamando. Só acho que você faz tudo sozinha.

Ela ficou séria por um instante, mas logo voltou a sorrir.

— Talvez eu esteja acostumada. Passei muito tempo acreditando que, se não resolvesse tudo pessoalmente, as coisas dariam errado.

— E agora?

Ela se sentou diante de mim.

— Agora estou tentando descobrir se consigo confiar em alguém para dividir algumas responsabilidades.

Aquelas palavras me fizeram sorrir.

— Espero que eu consiga ajudar.

— Você vai ajudar. E, antes que pergunte, já tomei outra decisão.

Fechei os olhos por um segundo.

— Meu Deus, o que foi agora?

Ela soltou uma gargalhada.

— Antes do final de semana, você vai se mudar para minha casa.

Quase engasguei com o café.

— Como é que é?

— Você ouviu perfeitamente.

— Serpente, você não pode simplesmente decidir que vou morar com você!

Ela inclinou a cabeça, divertindo-se com minha reação.

— Posso convidar você. A decisão de aceitar continua sendo sua.

A resposta me fez perder um pouco da vontade de reclamar.

— E se eu não aceitar?

— Vou ficar decepcionada, mas não vou colocar você em um caminhão de mudança contra a sua vontade.

Comecei a rir.

— Você é impossível!

— E você está sorrindo. Isso significa que está considerando a proposta.

Balancei a cabeça, ainda rindo.

A verdade era que eu já havia pensado na possibilidade. Minha casa tinha problemas de umidade, pouco espaço para a cadeira e algumas dificuldades de acessibilidade. A residência de Serpente provavelmente ofereceria condições melhores, mas a ideia de morar com uma mulher que eu conhecia havia tão pouco tempo também me assustava.

Eu não queria trocar minha independência por uma relação em que todas as minhas decisões fossem tomadas por outra pessoa.

Serpente pareceu perceber minha hesitação.

— Jonas, não quero que você se mude porque acha que me deve alguma coisa. Você não me deve nada. Estou oferecendo um lugar onde acredito que terá mais conforto e espaço para se movimentar. Podemos conversar sobre as condições e encontrar uma maneira de você continuar tendo sua privacidade.

Olhei para ela, surpreso com a seriedade de suas palavras.

— Você pensou em tudo isso?

— Estou tentando aprender a pensar antes de decidir tudo sozinha.

Sorri.

— Então talvez exista esperança para você.

Ela apontou o dedo para mim.

— Cuidado, contador. Ainda posso cancelar seu contrato antes mesmo de você começar a trabalhar.

— Isso seria um abuso trabalhista!

Rimos juntos, e a tensão que eu carregava desde a madrugada diminuiu um pouco.

Terminamos o café, conferi meus documentos e seguimos para a consulta.

Durante o trajeto, Serpente tentou me distrair, perguntando sobre meus planos profissionais e sobre as primeiras tarefas que pretendia realizar quando começasse a trabalhar.

Eu respondia, mas minha mente voltava constantemente para o mesmo assunto.

Será que eu voltaria a andar?

Será que conseguiria recuperar parte dos movimentos?

E se o tratamento fosse mais complicado do que eu imaginava?

Serpente percebeu meu silêncio.

— Está nervoso?

— Um pouco.

Ela estendeu a mão e segurou a minha.

— Não precisa decidir o futuro inteiro hoje. Vamos ouvir o médico, entender as possibilidades e depois pensar no próximo passo.

Apertei seus dedos.

— Obrigado por estar comigo.

— Não precisa agradecer por isso, Jonas.

Mas eu precisava.

Talvez ela não compreendesse completamente o significado daquela presença para mim. Depois de tantas decepções, era reconfortante saber que alguém estava disposto a me acompanhar em um momento importante sem fazer com que eu me sentisse um peso.

Quando chegamos à clínica, fomos recebidos pela equipe e encaminhados para a consulta.

O especialista examinou meus documentos, fez perguntas sobre o acidente e quis saber como havia sido minha recuperação desde que saí do hospital.

Expliquei o que me lembrava, falei sobre as dificuldades que enfrentava e contei que ainda tinha vontade de tentar recuperar os movimentos, embora não soubesse se isso seria possível.

Ele ouviu atentamente e explicou que precisaria avaliar meu caso com cuidado antes de estabelecer qualquer prognóstico.

Depois de examinar os resultados disponíveis e solicitar as avaliações necessárias, apresentou as possibilidades de tratamento.

Havia esperança.

Não uma garantia, nem uma promessa de que tudo seria fácil, mas uma possibilidade concreta de avançar.

O médico explicou que eu precisaria passar por duas cirurgias, que poderiam ser realizadas no mesmo dia, dependendo da avaliação final e das condições clínicas. Depois, seria necessário seguir um programa de fisioterapia, com acompanhamento contínuo e bastante dedicação.

A recuperação dependeria de vários fatores, e não havia como garantir que eu voltaria a andar normalmente.

Mesmo assim, existia a possibilidade de melhorar meus movimentos e minha qualidade de vida.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando assimilar tudo.

— Então existe uma chance? — perguntei.

— Existe uma possibilidade que merece ser investigada e tratada com seriedade. Precisamos preparar você adequadamente para os procedimentos e acompanhar sua evolução. O processo exigirá paciência, e os resultados não podem ser garantidos antecipadamente.

Assenti lentamente.

Eu sabia que seria difícil. Não esperava acordar depois das cirurgias e sair andando como se nada tivesse acontecido. Estava disposto a enfrentar o tratamento, desde que tivesse consciência dos riscos e das possibilidades reais.

Serpente apertou minha mão.

— Você ouviu, Jonas? Vamos dar um passo de cada vez.

Olhei para ela e sorri, sentindo os olhos arderem.

— Eu vou tentar.

— Eu sei que vai.

Agradecemos ao especialista pelas explicações e saímos da sala com as orientações para organizar os próximos procedimentos.

No corredor, parei por alguns segundos para respirar.

Eu ainda estava tentando compreender a dimensão daquela notícia quando Serpente recebeu uma ligação.

Atendeu prontamente, ouviu o que a pessoa dizia e sua expressão mudou.

— Certo. Estou indo para a empresa. Separe os documentos e deixe tudo pronto para minha assinatura.

Encerrou a ligação e guardou o celular.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.

— Existem alguns documentos que precisam ser assinados com urgência. A funcionária perguntou se poderia enviar tudo para outro endereço, mas ninguém da empresa sabe que estou aqui na comunidade. Vou precisar passar por lá.

Olhei para ela e depois para a pasta que carregava.

Eu sabia que aquele momento acabaria chegando. A ex-noiva trabalhava na empresa de Serpente, e era provável que nossos caminhos se cruzassem novamente.

— Tem algum problema para você me acompanhar? — ela perguntou. — Estou falando da sua ex-noiva.

Soltei uma risada.

— Problema nenhum. Quero mais é que ela se lasque! Vamos logo, porque estou curioso para ver a cara dela quando me encontrar.

Serpente caiu na gargalhada.

— Você não presta, Jonas!

— Aprendi com a melhor.

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo, e seguimos para a empresa.

Assim que chegamos, fiquei impressionado com o lugar.

O edifício era elegante, moderno e muito diferente dos ambientes que eu costumava frequentar. O saguão tinha acabamento sofisticado, os funcionários circulavam com pastas e computadores, e tudo parecia organizado para transmitir profissionalismo.

Serpente caminhava ao meu lado como se aquele espaço fosse uma extensão natural de sua personalidade.

Os funcionários a cumprimentavam respeitosamente, mas vários olhares se voltaram para mim.

Era evidente que estavam curiosos.

Quem era o homem que acompanhava a dona da empresa?

Por que ela estava tão à vontade comigo?

E, principalmente, por que eu parecia ter liberdade para conversar com ela sem a formalidade que os demais demonstravam?

Eu quase ri ao imaginar as perguntas que deveriam estar passando pela cabeça de todos.

Serpente percebeu a movimentação.

— Algum problema, pessoal? — perguntou, olhando ao redor.

Imediatamente, todos voltaram às próprias atividades.

Eu precisei conter uma risada.

— Você realmente sabe como fazer as pessoas ficarem quietas.

— É uma habilidade importante.

— Imagino.

Ela me conduziu até sua sala e explicou que precisaria assinar alguns documentos. Pediu que eu aguardasse por alguns minutos e ofereceu água enquanto organizava os papéis.

Fiquei próximo à entrada, observando a movimentação no corredor.

Foi então que a vi.

Minha ex-noiva.

Ela vinha caminhando com alguns documentos nas mãos, conversando com outra funcionária. Quando levantou os olhos e me reconheceu, parou imediatamente.

A expressão de surpresa em seu rosto foi tão evidente que precisei fazer um esforço para não rir.

Ela olhou para mim, depois para a porta da sala de Serpente e novamente para mim, como se tentasse compreender o que estava acontecendo.

Aproximou-se com passos rápidos.

— Jonas? O que está fazendo aqui?

Olhei para ela tranquilamente.

— Bom dia para você também.

Ela apertou os documentos contra o peito.

— Não acredito que descobriu onde trabalho e veio atrás de mim!

Soltei uma risada incrédula.

— Você está falando sério?

— Eu não vou voltar com você, Jonas! Não sei o que está pensando, mas não quero retomar nosso relacionamento.

Por alguns segundos, fiquei olhando para ela, tentando compreender como alguém conseguia transformar a própria culpa em uma acusação contra outra pessoa.

Eu não havia procurado aquela mulher.

Não queria retomar o relacionamento.

E, sinceramente, não sentia falta da vida que tínhamos construído juntos.

— E quem disse que eu quero uma mulher dissimulada e traidora ao meu lado?

Ela ficou vermelha.

— Você não tem o direito de falar assim comigo!

— Tenho o direito de dizer o que penso. Você fez suas escolhas, eu fiz as minhas e nossa história acabou. Não existe motivo para você imaginar que estou aqui por sua causa.

Ela olhou para minha cadeira de rodas e soltou uma risada debochada.

— Duvido muito que alguém queira você desse jeito, Jonas. Você deveria agradecer se alguém aceitar ficar ao seu lado.

Por alguns segundos, senti a velha dor do abandono voltar.

Não porque ainda a amasse, mas porque aquelas palavras tocaram em uma insegurança que eu estava tentando superar.

Respirei fundo.

Eu não precisava provar meu valor para ela.

Não precisava discutir sobre minha capacidade de ser amado, nem permitir que a opinião de uma mulher que havia me abandonado determinasse como eu deveria me enxergar.

— Pessoas como você eu realmente quero manter bem longe de mim — respondi. — E pode ficar tranquila: não tenho interesse em voltar para uma relação na qual a lealdade só existia da minha parte.

Ela abriu a boca para responder, mas uma voz feminina interrompeu a conversa.

— Existe algum problema com o meu marido?

Serpente surgiu ao meu lado com uma tranquilidade impressionante.

Minha ex-noiva ficou pálida.

Olhou para Serpente, depois para mim, e finalmente voltou os olhos para ela.

— Marido? Você casou?

Eu precisei morder a parte interna da bochecha para não rir.

Serpente passou o braço pelo meu ombro e me lançou um olhar cheio de cumplicidade.

— Por que não me casaria?

Minha ex-noiva parecia ter perdido completamente a capacidade de formular uma resposta.

Eu, por outro lado, começava a compreender que Serpente estava prestes a transformar aquela situação em uma lição que minha antiga companheira não esqueceria tão cedo.

— Existem pessoas que não precisam pisar nos outros para subir na vida — continuou Serpente, encarando-a. — E, já que você veio tirar satisfação sobre algo que não lhe diz respeito, vou esclarecer uma coisa.

Sua voz permaneceu calma, mas havia uma firmeza que fez o corredor inteiro parecer mais silencioso.

— Meu advogado entrará em contato com você. O apartamento e o carro foram pagos por Jonas, e precisamos revisar a situação legal desses bens. Não vou permitir que ele perca aquilo que conquistou por causa de um acordo que precisa ser analisado.

Minha ex-noiva tentou interromper.

— Você não sabe de nada sobre a nossa relação!

— Talvez não conheça todos os detalhes, mas sei o suficiente para solicitar uma análise jurídica. A partir de agora, qualquer questão relacionada aos bens será tratada pelos advogados.

Serpente fez uma pausa e acrescentou:

— E, pelo que fiquei sabendo, sua fidelidade também não era exatamente um exemplo de virtude.

A mulher ficou ainda mais vermelha.

Eu nunca havia visto alguém perder tão rapidamente a segurança que tentava demonstrar.

Mas não queria que Serpente precisasse resolver todos os meus problemas. Eu precisava participar das decisões que envolviam minha vida e assumir a responsabilidade pelo que havia acontecido.

Por isso, olhei diretamente para minha ex-noiva.

— Aguarde o contato do advogado. E avise aos meus pais também. Fui bobo uma vez, mas não serei novamente.

Ela me encarou, aparentemente sem acreditar que eu estava falando sério.

Eu não precisava levantar a voz, ameaçar ninguém ou transformar aquela conversa em um espetáculo. Bastava deixar claro que não aceitaria mais ser tratado como alguém incapaz de defender os próprios direitos.

Serpente apertou meu ombro discretamente, demonstrando apoio.

Então nos afastamos, deixando minha ex-noiva parada no corredor.

Só quando as portas do elevador se fecharam consegui respirar profundamente.

Eu nem havia percebido o quanto aquela conversa tinha me abalado.

Serpente olhou para mim.

— Está tudo bem?

Assenti, embora ainda estivesse tentando organizar os pensamentos.

— Estou. Só não esperava encontrar com ela tão cedo.

— Eu imaginei.

Fiquei em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:

— Você realmente vai me ajudar com um advogado?

Ela me encarou como se a resposta fosse óbvia.

— É claro! Meu marido esqueceu que tem uma esposa?

Comecei a rir.

— Marido? Desde quando?

Serpente cruzou os braços, fingindo indignação.

— Desde o momento em que precisei impedir sua ex-noiva de continuar falando besteiras no corredor.

Ri tanto que precisei limpar os olhos.

— Você é impossível!

Ela se aproximou e beijou minha bochecha.

— E você ainda não viu nada.

Quando saímos do elevador, eu já estava sorrindo novamente.

O encontro com minha ex-noiva havia sido desagradável, mas também me mostrara algo importante: eu não precisava continuar vivendo como se ainda devesse explicações às pessoas que me abandonaram.

Minha vida estava mudando.

Eu tinha uma oportunidade de trabalho, uma avaliação médica que poderia abrir novos caminhos e alguém ao meu lado que acreditava na minha capacidade de recomeçar.

Não sabia se voltaria a andar, nem quanto tempo levaria para reorganizar todas as áreas da minha vida.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, essas incertezas não pareciam o fim do mundo.

Talvez eu ainda tivesse muito a conquistar.

E talvez o futuro reservasse surpresas que eu jamais teria imaginado.

Enquanto Serpente caminhava ao meu lado, percebi que estava começando a confiar nela.

Isso me assustava um pouco.

Mas também me fazia feliz.

Continua...

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