Capítulo 8 UM LAR INESPERADO
Serpente narrando
— Está se sentindo bem? — perguntei, observando Jonas enquanto o carro seguia em direção ao morro.
Ele estava mais tranquilo do que quando saímos da empresa. A tensão que havia marcado seu rosto durante o encontro com a ex-noiva parecia ter diminuído, dando lugar a uma expressão serena que eu ainda não estava acostumada a ver nele.
Jonas apoiou a cabeça no encosto e soltou um suspiro.
— Estou me sentindo leve. Parece que eu precisava passar por aquilo para finalmente virar essa página da minha vida. Passei muito tempo carregando uma culpa que nem era minha. Durante meses, fiquei me perguntando o que havia feito de errado para ser abandonado daquela maneira. Hoje, quando olhei para ela, percebi que não precisava mais dessas respostas. Não quero voltar para aquela relação, não quero implorar pelo amor de ninguém e muito menos provar que ainda sou o mesmo homem de antes do acidente.
Observei-o discretamente.
Havia uma diferença enorme entre o homem que conheci no beco, caído ao lado da cadeira de rodas, e aquele que agora falava com tanta determinação. A dor ainda estava ali, escondida nos cantos dos olhos, mas já não parecia comandar cada pensamento dele.
— Fico feliz que tenha conseguido enxergar as coisas dessa maneira. Você merece seguir em frente sem precisar olhar para trás a cada passo.
— E quando pretende falar com seu advogado?
Quase sorri diante da pergunta.
Jonas ainda não fazia ideia de que eu já havia tomado algumas providências. Eu não era conhecida por deixar problemas se arrastarem quando havia uma solução ao meu alcance. No entanto, com ele, estava aprendendo que nem tudo podia ser resolvido apenas com dinheiro, influência ou uma ordem bem dada.
— Na verdade, já conversei com ele. Entreguei algumas provas e expliquei a situação. Eu pretendia falar com você primeiro para saber se estava preparado para dar andamento ao caso. Como você não se opôs, mandei uma mensagem autorizando que ele iniciasse os procedimentos necessários.
Jonas virou o rosto na minha direção, arregalando os olhos.
— Como consegue resolver as coisas tão rápido assim?
— Costume.
— Só isso?
— Não exatamente. Aprendi que, quando uma coisa precisa ser feita, ficar esperando que alguém tome uma atitude nem sempre é a melhor escolha. Gosto de saber o que está acontecendo, reunir as informações necessárias e encontrar uma solução.
— Imagino que ninguém tenha coragem de fazer você esperar muito tempo.
Soltei uma risada curta.
— Você ficaria surpreso com a quantidade de pessoas que tentam me fazer perder a paciência.
— E o que acontece com elas?
Virei o rosto lentamente para ele, deixando que um sorriso misterioso aparecesse nos meus lábios.
— Você realmente quer saber?
— Pensando melhor, acho que gosto da minha curiosidade intacta.
Ri novamente. Jonas tinha uma maneira particular de me provocar. Não precisava levantar a voz nem tentar me desafiar diretamente. Bastava aquela expressão divertida e o jeito como me olhava, como se enxergasse algo além da mulher que todos conheciam.
Por alguns minutos, conversamos sobre assuntos mais leves. Quando o carro entrou no morro, percebi que ele ficou em silêncio, observando as ruas pelas quais passávamos. Eu sabia que Jonas não tinha escolhido aquele lugar por preferência, mas porque precisava de um teto depois de tudo o que acontecera.
Agora, porém, eu queria que ele tivesse a oportunidade de descobrir que poderia viver ali sem precisar enfrentar todas as dificuldades sozinho.
O carro parou diante da casa onde ele estava morando.
Desci primeiro e contornei o veículo para ajudá-lo a sair. Jonas ajeitou a cadeira de rodas e me lançou um olhar desconfiado quando estendi a mão.
— Não precisa me carregar, Serpente. Ainda consigo fazer algumas coisas sozinho.
— Eu sei, Jonas. Não estou tentando tirar sua independência. Só estou oferecendo ajuda.
Ele pareceu analisar minhas palavras antes de aceitar a mão que lhe ofereci para facilitar a transferência.
Eu precisava me lembrar constantemente de que cuidar dele não significava decidir tudo por ele. Jonas já havia perdido muita coisa desde o acidente. Não seria eu quem acrescentaria a sensação de não ter mais controle sobre a própria vida.
Entramos na casa, e a realidade daquele lugar me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.
O cheiro de umidade continuava forte. As paredes precisavam de reparos, o espaço era apertado e os poucos móveis não ofereciam o conforto necessário para alguém que passava boa parte do tempo em uma cadeira de rodas.
Jonas havia tentado transformar aquele lugar em um lar, mas estava claro que fazia o possível com os recursos que tinha.
Observei-o enquanto ele se aproximava de uma pequena estante e retirava alguns documentos que estavam sobre ela.
— Quer ajuda com suas coisas para você ir lá para casa? — perguntei.
Ele parou por um instante.
— Você quer mesmo que eu vá morar com você?
A pergunta saiu de sua boca com uma seriedade que me fez abandonar qualquer brincadeira por alguns segundos.
— Quero, Jonas.
— Serpente, nós nos conhecemos há pouco tempo. Você me ofereceu um emprego, está me ajudando com o tratamento, envolveu seu advogado na minha situação e agora quer que eu more com você. Não acha tudo isso um pouco rápido?
Cruzei os braços, fingindo considerar a questão.
— E por acaso marido e mulher moram separados?
A reação dele foi imediata.
Jonas começou a rir, inclinando um pouco a cabeça para trás.
— Você não presta!
— Cuidado com o que fala da sua esposa, querido.
— Esposa? Você inventou esse casamento na frente da minha ex e agora está levando a mentira a sério?
— Eu não disse que me casei de verdade com você. Só estou dizendo que, se vamos continuar sustentando essa história diante de algumas pessoas, precisamos manter a coerência.
— Ah, então é isso? Estamos casados apenas quando convém?
— Por enquanto, sim.
— E eu tenho direito a reclamar das condições desse contrato matrimonial?
— Pode reclamar à vontade. Só não garanto que sua esposa vá ouvir.
Ele voltou a rir, e eu me peguei sorrindo junto.
Era estranho perceber como aquele homem conseguia mudar o ambiente ao seu redor sem fazer esforço. Eu estava acostumada a entrar nos lugares e encontrar pessoas que se calavam imediatamente, esperando minhas ordens. Com Jonas, eu podia conversar, provocar e até ouvir uma resposta atravessada sem sentir que precisava demonstrar autoridade.
Talvez fosse justamente isso que me atraía tanto nele.
Jonas não parecia interessado em me impressionar. Queria apenas ser tratado como um homem capaz de fazer as próprias escolhas.
E eu respeitava isso.
— Está bem, dona Serpente. Vou aceitar sua proposta, mas com uma condição.
Ergui uma sobrancelha.
— Qual?
— Quero continuar trabalhando, participando das decisões sobre minha vida e pagando minhas próprias despesas quando puder. Não quero me sentir um hóspede que precisa pedir autorização para tudo.
A firmeza na voz dele me agradou.
— Combinado. Seu emprego continua sendo seu, seu dinheiro também, e você terá liberdade para tomar suas decisões. Só espero que entenda que, dentro da minha casa, vou insistir para que você se alimente direito.
— Isso parece uma ameaça.
— É uma promessa.
Ele balançou a cabeça, divertido.
Não demoramos a organizar as malas. Jonas tinha poucos pertences, algo que me fez sentir uma pontada de indignação. Um homem que havia trabalhado durante anos, construído uma carreira e planejado uma vida inteira tinha acabado reduzido àquelas poucas malas depois de confiar nas pessoas erradas.
Eu não podia devolver o tempo perdido nem apagar o acidente, mas poderia ajudá-lo a reconstruir o que fosse possível.
E faria isso sem permitir que ele esquecesse o próprio valor.
Depois de verificar se todos os documentos estavam guardados, ajudei a colocar as malas no carro. Jonas conferiu o interior da casa uma última vez antes de sairmos.
— Está pronto? — perguntei.
— Acho que sim.
— Tem certeza?
Ele olhou para mim.
— Estou com medo, para ser sincero. Não de você, exatamente. Tenho medo de me acostumar a receber ajuda e depois descobrir que tudo pode desaparecer outra vez.
Aquela confissão me atingiu de uma maneira inesperada.
Aproximei-me dele e me agachei para ficar na altura de seus olhos.
— Jonas, não vou prometer que sua vida será perfeita. Ninguém consegue garantir isso. Também não vou dizer que nunca teremos problemas, porque seria mentira. Mas posso prometer que não vou usar sua situação para controlar você. Se alguma coisa incomodar, converse comigo. Se quiser ficar sozinho, diga. Se discordar de mim, fale. Não precisa concordar com tudo só porque estou ajudando.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você fala como se fosse fácil.
— Não disse que seria fácil. Disse que podemos tentar.
Jonas segurou minha mão.
— Então vamos tentar.
Aquelas três palavras foram suficientes para me fazer sentir uma satisfação que nenhuma negociação milionária havia conseguido proporcionar.
Voltamos para o carro e seguimos até minha residência.
Eu raramente levava alguém para aquele espaço. A casa era grande, confortável e discreta, construída para oferecer segurança e privacidade. Apesar disso, não tinha sido planejada para receber um homem que chegaria à minha vida trazendo tantas dúvidas e despertando sentimentos que eu preferia manter escondidos.
Quando entramos, Jonas parou perto da entrada e olhou ao redor.
A surpresa em seu rosto foi tão evidente que precisei conter um sorriso.
— Meu Deus, Serpente! Você mora aqui?
— Não, Jonas. Eu trouxe você para conhecer a casa de uma amiga e esqueci de avisar.
Ele lançou um olhar divertido na minha direção.
— Muito engraçada.
— Eu sei.
O ambiente era amplo, iluminado e acolhedor. Havia corredores espaçosos, portas largas e adaptações que facilitavam a circulação de uma cadeira de rodas. Jonas percebeu tudo quase imediatamente.
— Você adaptou a casa para mim?
A pergunta me fez parar.
— Queria ter feito isso por você, mas não. Essas adaptações já existiam antes de eu vir morar aqui.
Ele continuou observando o espaço, agora com uma expressão diferente.
— Mas por quê?
— Minha avó sofreu um derrame antes de falecer e perdeu parte dos movimentos. Durante um período, ela teve muita dificuldade para andar. Meu avô mandou adaptar a casa inteira para que ela pudesse se movimentar com mais segurança e preservar a independência dela.
A lembrança de minha avó trouxe um calor familiar ao meu peito.
Eu ainda conseguia recordar seus passos lentos pelos corredores, a maneira como reclamava quando alguém tentava fazer alguma coisa por ela sem perguntar primeiro e o sorriso orgulhoso que aparecia quando conseguia realizar uma tarefa sozinha.
Meu avô nunca permitiu que a limitação física dela definisse quem ela era.
— Quando vim morar aqui, não quis mudar nada — continuei. — Essas adaptações faziam parte da história deles. E, sinceramente, agora fico feliz por não ter alterado nada. Você vai conseguir circular com mais conforto.
Jonas passou os olhos pelo corredor e depois voltou a me encarar.
— Não sei o que dizer.
— Pode começar dizendo que gostou da casa.
— Gostei. Mas acho que gostei ainda mais de saber que você preservou tudo isso por causa dos seus avós.
Por um instante, não soube como responder.
Poucas pessoas demonstravam interesse pela minha história sem esperar algo em troca. Geralmente, queriam saber sobre minha influência, meu dinheiro ou o motivo pelo qual tantos homens preferiam manter distância de mim.
Jonas, por outro lado, havia se interessado por uma lembrança simples.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, uma voz conhecida veio da direção da cozinha.
— Minha querida, o almoço já está pronto!
Dona Ruth apareceu enxugando as mãos em um pano de prato. Quando percebeu a presença de Jonas, abriu um sorriso acolhedor.
— Ora, ora! E quem é esse rapaz bonito que chegou com você?
— Este é o Jonas. Ele vai ficar conosco por um tempo. Seja gentil com ele, porque é um rapaz muito teimoso.
— Eu ouvi isso! — Jonas protestou.
Dona Ruth soltou uma gargalhada.
— Então já percebi que vamos nos dar muito bem. Seja bem-vindo, meu jovem. Espero que se sinta em casa.
— O prazer é meu, dona Ruth. Espero não lhe dar trabalho.
A expressão dela mudou imediatamente, assumindo uma seriedade carinhosa.
— Trabalho? Meu filho, uma pessoa a mais à mesa não é trabalho. E, se precisar de alguma coisa, é só falar. Ninguém deve ficar desconfortável dentro de uma casa por medo de incomodar.
Jonas pareceu surpreso com aquela recepção.
— Muito obrigado. É bom ouvir isso.
— Essa é a dona Ruth — expliquei. — Ela trabalhou com a minha avó durante muitos anos. Quando minha avó faleceu, pedi que continuasse comigo. Para mim, ela é como uma mãe. Quando eu não estiver em casa, se precisar de alguma coisa, pode procurá-la, está bem?
— Pode deixar, minha querida — respondeu Ruth, antes que Jonas tivesse a oportunidade de falar. — Mas agora vocês dois vão almoçar. Depois conversam sobre o resto. Não quero ninguém andando por esta casa de barriga vazia.
— Está vendo? — falei para Jonas. — Eu avisei que ela cuidaria de você.
— Estou começando a desconfiar de que você e dona Ruth fizeram um acordo para controlar minha alimentação.
— Não conte nossos segredos tão cedo — respondi.
Os dois riram.
Enquanto conversavam, observei a maneira como Jonas respondia às perguntas de Ruth. Ele falou um pouco sobre seu trabalho, contou que estava começando uma nova etapa profissional e agradeceu pela acolhida. Não entrou em detalhes sobre o acidente, e ninguém o pressionou a falar sobre algo que ainda parecia doloroso.
Ruth tinha esse dom: sabia acolher sem invadir.
Depois do almoço, levei Jonas até o quarto preparado para ele.
O ambiente ficava em uma parte tranquila da casa, próximo ao meu próprio quarto. Havia espaço suficiente para a cadeira de rodas, móveis organizados de maneira funcional e uma cama confortável. O banheiro também contava com adaptações que facilitariam sua rotina.
— Este será seu quarto — anunciei.
Jonas entrou devagar, observando cada detalhe.
— Você pensou em tudo.
— Tentei.
— Até parece que estava esperando por mim.
A frase foi dita em tom de brincadeira, mas mexeu comigo mais do que deveria.
Talvez, de alguma maneira, eu estivesse mesmo esperando por alguém. Não necessariamente por Jonas, porque até pouco tempo atrás eu sequer sabia que ele existia. Mas esperava por uma presença que tornasse aquela casa menos silenciosa, alguém com quem pudesse compartilhar momentos comuns sem precisar vestir a armadura que usava diante do mundo.
Eu tinha dinheiro, influência e pessoas dispostas a atender às minhas ordens. Ainda assim, muitas noites terminavam comigo sozinha, sentada em uma sala enorme, tentando convencer a mim mesma de que aquela solidão era o preço natural das escolhas que fiz.
Jonas não precisava saber disso agora.
— Não se acostume a achar que sou tão organizada — respondi. — Posso decepcionar você.
Ele sorriu.
— Acho que vou correr esse risco.
Aproximei-me para ajudá-lo a organizar algumas coisas, mas parei antes de tocar em seus pertences.
— Posso?
Jonas percebeu o gesto e assentiu.
— Pode. Obrigado por perguntar.
Era uma coisa pequena, mas importante. Eu estava aprendendo a oferecer ajuda sem presumir que ela era sempre necessária.
Depois de guardar algumas roupas e separar os documentos para o trabalho, ele ficou em silêncio por um momento.
— Serpente?
— Diga.
— Obrigado por me trazer para cá. Não apenas pela casa, pelo emprego ou pelo advogado. Obrigado por me fazer sentir que ainda posso construir alguma coisa.
Senti meu peito apertar.
Eu poderia ter respondido com uma piada, desviado o assunto ou fingido que aquelas palavras não tinham importância. Era o que costumava fazer quando alguém se aproximava demais de uma parte de mim que eu mantinha protegida.
Mas Jonas merecia uma resposta verdadeira.
— Você nunca deixou de poder construir alguma coisa. Só passou por situações que fizeram você esquecer disso. E não quero que confunda o momento difícil que está vivendo com o homem que é.
Ele baixou os olhos por um instante, emocionado.
— Vou tentar me lembrar.
— E eu vou cobrar.
— Claro que vai. Você não perde a oportunidade de dar uma ordem.
— Alguém precisa manter a organização nesta casa.
Jonas riu, e aquele som pareceu preencher o quarto de uma maneira que nenhum móvel novo conseguiria.
Fiquei ali por mais alguns minutos, conversando com ele sobre o trabalho que começaríamos no dia seguinte e sobre a rotina da casa. Depois, deixei que descansasse, respeitando a necessidade de se adaptar ao novo ambiente.
Ao sair, olhei para trás.
Jonas estava junto à janela, observando o jardim. Havia uma tranquilidade discreta em seu rosto, como se, pela primeira vez em muito tempo, ele não precisasse se preocupar com o que aconteceria nas próximas horas.
E eu estava feliz por isso.
Feliz porque aquele homem, que havia sido tratado como um peso por pessoas que deveriam tê-lo amado, finalmente receberia um pouco do cuidado que merecia.
Mas havia outra verdade que eu ainda não estava pronta para admitir.
Eu não queria apenas ajudá-lo a reconstruir a vida.
Queria fazer parte dela.
E, se continuasse olhando para Jonas daquela maneira, talvez chegasse o dia em que eu não conseguiria mais fingir que tudo aquilo era apenas uma decisão prática.
A serpente que todos temiam estava começando a desejar algo muito mais perigoso do que poder.
Estava começando a desejar um lar.
Continua...
