Capítulo 9 O MARIDO DA SERPENTE
Serpente narrando
Seis meses haviam se passado desde que Jonas entrou na minha vida e, sinceramente, às vezes eu ainda me perguntava como tudo tinha mudado tão depressa.
Aquele homem que conheci caído em um beco, tentando se levantar depois de uma invasão, agora caminhava pela minha casa com a segurança de quem havia conquistado uma nova chance. Foram duas cirurgias, muitas sessões de fisioterapia, dias difíceis, momentos de frustração e uma quantidade considerável de paciência. Houve ocasiões em que ele pensou que não conseguiria avançar, mas nunca permiti que esquecesse o quanto já havia conquistado.
Na verdade, eu não precisei fazer muito para convencê-lo a continuar. Jonas sempre teve força. Só precisava de uma oportunidade para descobrir que ainda era capaz de ir além do que imaginava.
E ele foi.
Depois de meses de tratamento, recuperou os movimentos a ponto de voltar a andar sozinho, sem precisar das muletas. A equipe médica acompanhou cada etapa, e a evolução foi tão significativa que, quando ele deu seus primeiros passos sem apoio, fiquei com os olhos cheios de lágrimas.
Eu, Serpente, conhecida por não demonstrar fraqueza diante de ninguém, chorei de felicidade ao vê-lo atravessar a sala em minha direção.
Jonas percebeu, é claro.
— Está chorando, amor?
— Não. Caiu alguma coisa no meu olho.
Ele olhou para o meu rosto, depois para a janela fechada.
— Alguma coisa entrou por uma janela fechada?
— Você pretende discutir com a sua mulher no dia em que voltou a andar sozinho?
— De jeito nenhum. Eu amo muito a minha mulher para cometer essa imprudência.
Naquele dia, tive vontade de abraçá-lo tão forte que nunca mais o soltaria.
E foi exatamente o que fiz.
A comemoração aconteceu na minha cobertura, na pista, longe das responsabilidades do morro e das reuniões intermináveis da empresa. Queria uma noite só nossa, sem telefonemas, sem problemas e sem ninguém precisando de uma ordem minha.
Contratei um jantar especial, preparei uma surpresa e pedi que deixassem tudo pronto antes de Jonas chegar.
Ele ficou emocionado quando percebeu o motivo daquela comemoração. Dançamos, rimos, conversamos sobre os meses que havíamos enfrentado e fizemos planos para o futuro.
A noite terminou de uma maneira ainda mais especial, com a intimidade e a cumplicidade que havíamos construído ao longo daqueles meses. Jonas me mostrou que a recuperação não havia devolvido apenas parte de sua mobilidade: ele também estava redescobrindo a confiança no próprio corpo, e nós dois descobríamos novas formas de nos aproximar.
Não havia pressa, cobranças ou necessidade de provar nada. Apenas desejo, carinho e a certeza de que estávamos vivendo algo que nenhum de nós havia planejado.
E, se alguém me perguntasse quando eu havia me apaixonado por aquele homem, não saberia responder.
Talvez tivesse sido no dia em que o encontrei no beco.
Talvez quando ele aceitou meu emprego sem tentar esconder o medo de recomeçar.
Ou talvez na primeira vez em que me enfrentou com aquele jeito atrevido, sem se importar com o fato de que poucas pessoas tinham coragem de fazer o mesmo.
Só sei que, quando percebi, Jonas já não era apenas o homem que eu desejava proteger.
Era o homem com quem eu queria dividir a vida.
Além da recuperação, os últimos meses também trouxeram o encerramento de uma parte dolorosa do passado dele.
Meu advogado deu entrada no processo para que Jonas recuperasse os bens e os valores que lhe pertenciam. Embora ele não estivesse interessado em alimentar uma disputa interminável, decidiu seguir em frente porque entendia que havia uma diferença entre abandonar o passado e permitir que outras pessoas se aproveitassem de você.
O apartamento e o carro foram recuperados dentro dos procedimentos legais. Depois, Jonas decidiu vendê-los. Não queria continuar preso a lugares e objetos que lhe traziam lembranças de uma vida que havia terminado de maneira dolorosa.
Quanto à indenização de cento e vinte mil reais, recebida por causa do acidente de trabalho, a situação foi mais complicada.
Os pais dele alegaram não ter condições de devolver o dinheiro. Entretanto, durante a investigação financeira conduzida pelo advogado, surgiram informações sobre a compra de uma chácara em valor compatível com o montante discutido no processo.
A partir das provas reunidas, a Justiça determinou as medidas cabíveis para impedir que o patrimônio fosse negociado enquanto a situação era analisada. Ao final, foram estabelecidas as providências necessárias para a restituição dos valores, conforme a decisão judicial.
Jonas não comemorou a vitória como eu imaginei que faria.
Quando recebeu a notícia, ficou sentado em silêncio por um longo tempo, olhando para a janela da sala.
— Você está bem? — perguntei, sentando-me ao lado dele.
— Estou tentando entender uma coisa.
— O quê?
Ele esfregou as mãos e respirou fundo.
— Em que momento tudo mudou? Eu sei que meus pais nunca foram perfeitos, mas não consigo entender quando passaram a me enxergar como alguém de quem podiam tirar tudo. Eu trabalhava, ajudava quando podia, nunca imaginei que um dia precisaria recorrer à Justiça para recuperar algo que era meu.
Aproximei-me um pouco mais.
— Talvez você nunca encontre uma resposta que faça sentido, Jonas. Às vezes, as pessoas fazem escolhas egoístas e tentamos encontrar uma explicação que torne aquilo menos doloroso. Mas nem sempre existe uma explicação capaz de consertar o que fizeram.
— O pior é que eles não precisavam daquele dinheiro para sobreviver. Meu advogado descobriu que vivem confortavelmente. Não consigo parar de pensar nisso.
— Você não precisa entender as escolhas deles para decidir o que fará com a sua vida daqui para a frente.
Ele me olhou.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é simples. Mas você já passou por muita coisa para continuar permitindo que essas pessoas decidam como vai se sentir todos os dias.
Jonas segurou minha mão.
— Acho que foi por isso que resolvi ir até o fim. Não era só pelo dinheiro. Eu precisava saber que ainda podia defender meus direitos, mesmo quando as pessoas envolvidas eram da minha própria família.
Beijei seus dedos.
— E você fez isso.
Ele sorriu discretamente.
A partir daquele dia, Jonas deixou claro que não pretendia manter contato com os pais enquanto não estivesse preparado para lidar com tudo o que havia acontecido. Eu respeitei sua decisão. Não cabia a mim determinar se ele deveria perdoá-los, procurá-los ou afastá-los definitivamente.
A vida era dele.
Eu estava ali para caminhar ao seu lado, não para escolher o caminho em seu lugar.
E, falando em caminhar ao lado de alguém, havia outra novidade que ainda me fazia sorrir feito uma adolescente apaixonada.
Jonas agora era oficialmente meu marido.
Sim, senhoras e senhores!
Aquela história que começou com uma mentira conveniente diante da minha funcionária havia terminado em um casamento de verdade.
Foi ele quem tomou a iniciativa de procurar o cartório. Não houve uma proposta extravagante, um pedido preparado diante de centenas de pessoas ou uma festa luxuosa. Jonas simplesmente chegou em casa, colocou alguns documentos sobre a mesa e perguntou se eu estava disposta a transformar em realidade aquilo que, no começo, havíamos fingido ser.
Minha resposta foi um beijo.
Depois vieram os documentos, as assinaturas e a confirmação oficial de que estávamos casados.
Quando saímos do cartório, ele segurou minha mão e disse:
— Agora você não pode mais alegar que sou apenas seu marido quando convém.
Eu ri tanto que precisei parar de andar.
— Você vai usar isso contra mim pelo resto da vida?
— Pretendo.
— Então se prepare, porque você também acabou de se casar com uma mulher muito difícil.
Ele beijou minha testa.
— Eu sei. E não trocaria você por ninguém.
Foi nesse momento que compreendi que não precisava de uma cerimônia grandiosa para reconhecer a importância daquele compromisso. Eu já tinha encontrado alguém com quem queria dividir os dias bons e ruins, alguém que me enxergava além do dinheiro, do poder e da reputação que carregava.
E isso valia mais do que qualquer festa.
Naquela manhã, eu estava encostada à porta do nosso quarto, observando meu marido diante do espelho.
Jonas acabara de sair do banho e terminava de se arrumar para o trabalho. Vestia uma camisa social impecável, calça bem cortada e um relógio discreto no pulso. Seus cabelos ainda estavam ligeiramente úmidos, e ele tentava ajeitar uma mecha que insistia em cair sobre a testa.
A cena era tão comum que chegava a ser extraordinária.
Seis meses antes, eu não sabia sequer o som da voz daquele homem.
Agora conhecia suas manias, sabia como gostava do café, reconhecia quando estava preocupado mesmo que tentasse esconder e já conseguia adivinhar o que diria quando eu aparecia com alguma ideia que considerava absurda.
Tudo havia acontecido tão depressa que, em determinados momentos, parecia que estávamos juntos havia anos.
Jonas percebeu meu olhar pelo reflexo do espelho.
— Por que está me olhando assim, amor?
Cruzei os braços e sorri.
— Estou admirando meu marido. Algum problema?
Ele virou o rosto para mim, fingindo desconfiança.
— Depende. Essa admiração toda vem acompanhada de alguma exigência?
— Nossa! É assim que você trata a mulher que o ama?
— É assim que trato a mulher que conheço bem demais.
Aproximei-me e ajeitei a gola da camisa dele.
— Está muito convencido, senhor Jonas.
— Aprendi com a melhor.
Dei um beijo rápido em seus lábios.
— Vai para a empresa comigo?
— Claro. Afinal, agora também sou contador de lá. Não posso deixar minha esposa administrar tudo sozinha.
— Que marido dedicado!
— Sou um excelente marido. Você deveria agradecer todos os dias por ter conseguido me conquistar.
Levantei o rosto, encarando-o com uma expressão provocadora.
— Engraçado. Eu estava pensando justamente que você teve muita sorte de ter cruzado o caminho da mulher mais maravilhosa que já conheceu.
— E a mais modesta também.
Nós dois rimos.
A verdade era que Jonas havia se adaptado muito bem à empresa. Seu conhecimento contábil, sua atenção aos detalhes e sua experiência anterior o tornavam um profissional competente. Eu não o contratara para ficar ao meu lado como um enfeite, muito menos para depender da minha influência.
Ele tinha capacidade para ocupar aquela função e estava provando isso diariamente.
Eu apenas lhe dera a oportunidade de mostrar o que sabia fazer.
Enquanto pegava minha bolsa, lembrei-me de uma questão que ainda me incomodava.
— Você se sente confortável trabalhando no mesmo lugar que a sua ex?
Jonas parou de ajeitar o relógio.
Por um instante, observei sua expressão, tentando descobrir se aquela pergunta havia despertado alguma lembrança dolorosa.
Ele, porém, deu de ombros.
— Sinceramente? Nem lembro que aquele ser existe. Se eu cruzar com ela no corredor, vou tratá-la como qualquer outra pessoa que trabalha na empresa. Não tenho interesse em discutir, provocar ou provar nada.
— Isso é ótimo.
— Mas tem uma coisa que me deixa curioso.
Inclinei a cabeça.
— O quê?
Jonas se aproximou, baixando um pouco a voz.
— Ela aceitou tudo muito facilmente. Não tentou me procurar, não questionou a decisão judicial e nem sequer demonstrou interesse em saber como estou. Você não acha estranho?
O sorriso desapareceu lentamente do meu rosto.
Eu também havia percebido aquilo.
A mulher que um dia estivera noiva de Jonas e que o abandonara quando ele mais precisava de apoio parecia ter aceitado a situação com uma tranquilidade excessiva. Não procurara reaproximação, não tentara se justificar e tampouco demonstrara qualquer arrependimento verdadeiro.
Isso não significava, necessariamente, que estivesse tramando alguma coisa.
Mas eu aprendera, da maneira mais difícil, que a ausência de uma reação nem sempre representava ausência de intenção.
— Ela não conhece a sua mulher — respondi, ajeitando o cabelo. — Deixe-a agir como quiser. Se resolver aprontar alguma coisa, vai descobrir que escolheu a pessoa errada para testar a paciência.
Jonas começou a rir.
— Meu Deus! Você fala como se estivesse planejando uma guerra.
— Eu? Imagina!
— Estou casado com uma mulher que sorri quando ameaça alguém.
— Eu não ameaço ninguém, amor. Apenas apresento as possíveis consequências de determinadas escolhas.
— Isso é ainda pior!
Não consegui segurar a gargalhada.
Ele me abraçou pela cintura e encostou a testa na minha.
— Só quero que você tome cuidado, está bem? Não quero que ninguém se machuque por minha causa.
A expressão dele ficou séria, e eu acariciei seu rosto.
— Você não é responsável pelas escolhas dos outros, Jonas. E eu sei cuidar de mim. Mas prometo que vou observar o que acontece e não tomar nenhuma atitude sem ter motivos concretos.
Ele pareceu satisfeito com a resposta.
— Assim fico mais tranquilo.
— Ótimo. Agora vamos, porque, se nos atrasarmos, a culpa será sua.
Jonas arregalou os olhos.
— Minha? Você ficou me olhando enquanto eu me arrumava!
— E você demorou demais para perceber.
Ele soltou uma gargalhada, pegou a pasta de trabalho e me ofereceu o braço.
— Depois dizem que o casamento é uma instituição séria.
— O nosso é seríssimo, querido.
Saímos do quarto ainda rindo.
Naquele momento, eu não fazia ideia do que nos esperava na empresa. Não sabia se minha intuição estava certa ou se a tranquilidade da ex de Jonas era apenas uma tentativa de seguir em frente.
Mas uma coisa eu sabia.
Eu havia passado anos construindo uma reputação que fazia muita gente pensar duas vezes antes de se aproximar de mim com más intenções.
Agora, porém, havia alguém ao meu lado que eu não permitiria que fosse ferido novamente por descuido meu.
Jonas era meu marido, meu companheiro e o homem que havia conseguido alcançar uma parte de mim que eu mantivera trancada durante anos.
E quem confundisse minha felicidade com fraqueza cometeria um erro terrível.
Porque a Serpente continuava sendo a mesma.
A diferença era que, agora, eu tinha muito mais a perder.
E muito mais pelo que lutar.
Continua...
