Capítulo 3 3
CAPÍTULO 3: RUMI
O sinal tocou, e eu enfiei minhas coisas depressa na mochila. Olhei para baixo e vi meu gloss labial bem onde tinha caído. Estranho. Será que o Knox chutou de volta quando eu não estava olhando? Ou ele simplesmente rolou sozinho de volta? Não tinha como um babaca como ele ser prestativo. Provavelmente só esbarrou sem querer quando mexeu aquelas pernas gigantes.
Joguei o gloss na bolsa e me levantei. Em vez de tentar me espremer de novo para passar pelo Knox, subi por cima das cadeiras vazias da fileira da frente. Eu não ia dar a ele outra chance de me bloquear ou tentar fazer cena.
Quando cheguei à porta, olhei para trás. Knox estava sentado agora, com o celular encostado na orelha. Os olhos azuis dele encontraram os meus por um segundo. Eu desviei o olhar rápido e saí para o corredor.
O corredor era um pesadelo. Estava tão lotado que eu tive que abrir caminho empurrando por aquele mar de alunos. Parecia uma debandada de lobos. Todo mundo falava alto, e o ar estava pesado com o cheiro de diferentes membros da Matilha. Minha antiga escola era enorme e silenciosa. Lá, os professores sabiam seu nome. Aqui, eu era só mais um rosto no meio da multidão. O professor da minha primeira aula nem percebeu que eu era a nova loba na turma. Nada de apresentação, nada de boas-vindas.
Encontrei meu armário e parei. Minha mente deu branco. Eu não conseguia lembrar a combinação. Fiquei ali, me sentindo uma idiota, até que alguém bateu a mão com força no armário ao lado do meu.
— Que porra é essa, garota? — rosnou uma voz.
Eu não pensei. Fechei as mãos em punhos na hora e as ergui para proteger o rosto. Na minha antiga Matilha, eu passava todos os dias nos fossos de treinamento. Meu pai fazia questão de que eu soubesse lutar, mesmo eu sendo menor do que os outros lobos. Eu não ia deixar ninguém me intimidar no meu primeiro dia.
A loba que estava ali tinha mais ou menos a minha altura, mas era forte, de corpo cheio e sólido. Tinha o cabelo tingido de vermelho e olhos escuros, com um delineado vermelho pesado. Ela olhou para meus punhos e começou a rir.
— Uau, calma aí, tigresa! — disse ela, apontando para minhas mãos. — A gente vai mesmo sair na porrada agora?
Mantive a guarda, encarando-a.
— Não sei. Vamos?
Notei uma cicatriz comprida no braço dela. Parecia alguém que já tinha visto algumas batalhas. Mas ela não parecia maldosa — só curiosa.
A loba riu de novo.
— Relaxa. Tô só te zoando. Você tá com cara de quem tá pronta pra matar alguém.
— Por quê? — perguntei, baixando as mãos só um pouco, mas continuando alerta. — O que você quer?
Ela se encostou nos armários.
— Qual é a sua com o Felix?
— Quem? — perguntei, confusa.
—Felix. O grandalhão em cuja cara você sentou. Aquele que quase te arremessou pela janela. —Ela abriu um sorriso. —Você tem desejo de morte ou esse foi o seu jeito de flertar?
—Felix? Esse é o nome dele? Eu achei que todo mundo chamava ele de Knox.
Ela deu de ombros.
—O nome dele é Felix Knox. Mas por aqui o pessoal chama ele de A Geleira. Ou de O Esmaga-Ossos. Ele tem um monte de nomes.
—A Geleira? —repeti.
—É. Porque ele é frio, é duro e, se você ficar no caminho dele, ele te afunda que nem o Titanic. —Ela me avaliou de cima a baixo. —Você devia saber: o Felix não gosta de gente no espaço dele. Principalmente sentando do lado dele.
—Ele que supere —retrucuei. A raiva me ajudou a lembrar a combinação do meu armário. Girei o disco, e ele abriu com um clique.
—Talvez seja melhor tomar cuidado —alertou a garota. —Você irrita A Geleira e ele transforma sua vida num inferno.
Peguei meu livro de química.
—O Esmaga-Ossos? As pessoas chamam ele disso mesmo?
—Os caras chamam. Ele é o melhor defensor do time de hóquei. É o jogador estrela e o capitão do time. Ele é tão bom que olheiros profissionais já estão indo aos jogos só pra ver ele jogar.
—Um jogador de hóquei —eu disse, revirando os olhos. —Eu devia ter imaginado. Só mais um atleta com um ego gigante.
—Você não gosta de jogadores de hóquei? —ela perguntou, com um sorrisinho.
—Tá brincando? Eles são todos iguais. Uns babacas arrogantes que acham que mandam no mundo.
—Ei, meu namorado é do time —ela disse, soando ofendida.
—Ah. Foi mal —murmurei.
Ela cutucou meu braço, brincando.
—Tô zoando! Eu não tenho nenhum. Eu sou a Nova, aliás.
—Eu sou a Rumi —eu disse. —Acho melhor eu ir. Preciso achar minha próxima aula.
—Pra onde você tá indo?
—Sala 4B.
—Química? —Nova fez uma careta. —Nem pensar. Eu não encosto em ciência. Mas meu irmão tá nessa aula. Vem, me segue. Vou te mostrar um atalho.
Eu já sabia o caminho porque tinha estudado o mapa, mas segui ela mesmo assim. Ela foi a primeira pessoa que foi legal comigo, então eu não queria ser grossa.
—Por que ele tem tantos apelidos? —perguntei enquanto subíamos a escada. —Pra um cara que só joga hóquei?
—Felix? —Nova sorriu como se eu estivesse interessada nele. —Ele é popular. E, neste Bando, gente popular ganha títulos.
—Eu não entendo como ele é popular —murmurei. —Ele é tão maldoso.
—Bom, os caras chamam ele de Esmaga-Ossos por causa de como ele derruba as pessoas no gelo —Nova explicou.
—E por que as garotas chamam ele de A Geleira? —perguntei. —Porque ele é frio?
—Por isso —disse Nova, parando numa porta aberta— e porque ele é lindo de se olhar, mas vai destruir seu coração se você chegar perto demais. Enfim, é aqui. Bem-vinda à terra dos lobos nerds.
