Capítulo 1 Seis Meses

CLARA

— Clara, tudo certo com o mapa das mesas?

— Tudo, Sr. Ferraz. As últimas confirmações chegaram hoje de manhã. Sua mãe só pediu uma mudança na mesa da família: quer o senador Albuquerque ao lado dela, e não na outra ponta.

— Faça como ela pediu.

Anotei no tablet.

O salão estava quase pronto. Tinha aquele cheiro de véspera de evento que eu conhecia tão bem: flor fresca, cera de chão, café requentado e cansaço.

Oito meses.

Oito meses da minha vida estavam dentro daquele salão. Eu tinha medido o espaço três vezes e redesenhado toda a circulação dos garçons quando descobri que a porta da cozinha abria para o lado errado. Tinha perdido fins de semana, aniversários, noites de sono.

Nada ali estava onde estava por acaso.

Era por isso que as pessoas me contratavam. E era por isso que, naquela tarde, eu me permiti sentir um pouco de orgulho.

Do outro lado do salão, Bianca discutia com dois montadores por causa da altura de um arranjo. Quando me viu, levantou o polegar sem parar de falar. Sorri. Um problema a menos.

— A montagem da cerimônia termina até as quatro — continuei. — A segurança já recebeu a lista. Os carros começam a buscar os convidados amanhã às três, e o jantar de ensaio está confirmado para as nove. Oitenta e seis pessoas hoje. Quatrocentas e doze amanhã.

— Você sabe tudo isso de cabeça.

— É o meu trabalho.

— E a música da entrada?

Suspirei antes de conseguir evitar.

— Ainda falta o arquivo definitivo. A Sra. Helena trocou de novo na semana passada.

Ele fechou os olhos por um segundo, e o canto da boca subiu.

— Claro que trocou.

Era a quarta troca. Eu tinha uma pasta só para isso. Mas não disse nada, porque não era meu papel falar da noiva para o noivo, e porque, no fundo, eu gostava da Helena. Ela era gentil com a minha equipe, agradecia cada detalhe e nunca levantava a voz. Só parecia estar sempre procurando a resposta certa fora de si mesma. Eu já a tinha visto escolher um bolo, desistir e voltar para o mesmo bolo depois de perguntar a quatro pessoas.

— Ela disse que estaria aqui hoje com a Denise — falei. — Podemos confirmar a música agora.

— Vamos.

Fomos juntos até os elevadores.

Em oito meses, eu tinha aprendido que Leonardo Ferraz não era o homem das revistas. Ele perguntava antes de mandar, dizia quando discordava e, depois de decidir, não mudava de ideia cinco vezes por dia.

— Você vai dormir depois de amanhã? — ele perguntou, enquanto esperávamos.

— Esse é o plano.

— Não acredito muito nesse plano.

Eu ri, cansada. Ele tinha razão.

Dentro do elevador, conferi o celular. Catorze e-mails, duas ligações perdidas da floricultura e nenhuma mensagem pessoal. Fazia dois meses que era assim. Guardei o telefone antes que aquilo doesse.

Leonardo olhava os números dos andares mudando.

— Amanhã, a esta hora, eu vou estar casado — disse, baixo.

As portas se abriram no décimo segundo andar.

O corredor estava silencioso, com luz baixa e o cheiro das flores que a minha equipe tinha deixado ali pela manhã. A suíte de apoio das madrinhas ficava no final.

Bati na porta.

— Helena?

Nada.

Lá dentro, alguma coisa caiu. Um barulho abafado. Depois, uma respiração alta, rápida, que eu não reconheci.

— Helena? Está tudo bem?

Pensei que alguém tivesse passado mal. Girei a maçaneta. A porta não estava trancada.

Abri.

E o mundo parou.

Denise estava no sofá, inclinada sobre Helena. O vestido de Helena estava levantado até a cintura. A mão de Denise estava entre as pernas dela. As duas se beijavam como se não existisse nada do lado de fora daquela porta.

Por um segundo, meu cérebro se recusou a entender.

Depois entendeu tudo de uma vez, e meu estômago virou.

Helena abriu os olhos.

Me viu.

E então viu quem estava atrás de mim.

O grito dela não parecia de uma pessoa. Parecia de alguém caindo.

— Não! Não, não, não...

Denise se jogou para trás tão depressa que bateu o quadril na mesinha. Um vaso de flores brancas foi ao chão e se espatifou. Água, vidro e pétalas pelo tapete. Ninguém olhou.

Eu não conseguia me mexer. Minhas pernas tinham virado pedra. Meu rosto queimava como se fosse eu quem tivesse sido pega.

Atrás de mim, Leonardo não fez som nenhum.

Eu me virei.

Nunca vou esquecer o rosto dele naquele momento. Toda a cor tinha ido embora. Ele estava parado, com a mão ainda meio levantada, como se tivesse congelado no meio de um gesto. E a mão tremia.

Leonardo Ferraz, que eu nunca tinha visto hesitar em oito meses, estava tremendo.

Fiz a única coisa que o meu corpo sabia fazer: entrei e fechei a porta atrás de nós. Ninguém da equipe podia ver aquilo. Ninguém.

Helena puxou o vestido para baixo, chorando, tropeçando nos próprios pés.

— Leonardo, por favor. Por favor. Não é o que...

Ela parou. Até ela sabia que não dava para terminar aquela frase.

— Há quanto tempo? — ele perguntou.

A voz saiu rouca, quase sem som.

Helena chorava tanto que não conseguia responder. Olhou para Denise. Denise olhava para o chão, abraçando o próprio corpo, as lágrimas escorrendo em silêncio.

— Há quanto tempo, Helena?

Dessa vez a voz subiu. Não chegou a ser um grito. Era algo pior: uma voz segurando um grito com as duas mãos.

Helena fechou os olhos.

— Seis meses.

Senti aquilo no corpo inteiro, como um soco no peito.

Seis meses eram as provas do vestido. A degustação do bufê. O fim de semana em que Denise foi com Helena escolher os sapatos porque entendia de salto melhor que qualquer pessoa. Eu estava lá. Em quase todos aqueles momentos, eu estava lá, sorrindo, anotando, organizando a felicidade deles.

E não vi nada.

Leonardo repetiu, baixinho, como se precisasse ouvir de novo para acreditar:

— Seis meses.

Helena atravessou o quarto e agarrou o braço dele com as duas mãos.

— Eu ia te contar. Juro que ia. Eu só não sabia como. O meu pai... Você sabe como é o meu pai. Por favor, não faz nada agora. Me deixa explicar. Me dá uma noite. Só uma noite.

Ele olhou para as mãos dela no próprio braço como se não soubesse de quem eram.

Então, com muito cuidado, soltou os dedos dela, um por um.

Foi o que mais doeu de assistir. Não a raiva. O cuidado.

— Eu não vou fazer nada com você — disse.

Helena desabou no chão, no meio das pétalas e do vidro, soluçando.

Leonardo se virou para mim.

Os olhos dele estavam vermelhos, brilhando. Ele não deixou nada cair. Respirou uma vez, fundo, e eu vi o quanto aquilo custou.

Quando falou, a voz saiu baixa e firme, como se cada palavra tivesse sido arrancada de dentro dele.

— O casamento está cancelado.

— O casamento está cancelado.

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