Capítulo 2 A Promessa
CLARA
Leonardo saiu da suíte sem olhar para trás.
Helena levantou do chão e foi atrás dele, descalça, com o rosto molhado.
— Leonardo, espera. Por favor.
Ele apertou o botão do elevador e não respondeu.
Eu fiquei um segundo parada no corredor, olhando para a porta aberta, para o vidro no tapete, para Denise encolhida no sofá com as mãos no rosto. Depois fechei a porta devagar, como se fechar a porta pudesse fazer alguma diferença, e corri até o elevador.
Eu tinha quatrocentos e doze convidados, dezenas de fornecedores espalhados pelo hotel e um casamento marcado para o dia seguinte. Precisava de uma decisão que eu pudesse transformar em ordens. Era a única coisa que eu sabia fazer naquele momento.
Leonardo segurou a porta para eu entrar.
A descida levou poucos segundos. Eu ouvi todos eles. O zumbido do motor. O aviso de cada andar. O choro baixo e engasgado da Helena ao meu lado, que ela tentava esconder com as duas mãos e não conseguia.
Ninguém olhou para ninguém.
No salão, as mesas continuavam arrumadas para o jantar de ensaio. Guardanapos dobrados, velas esperando para ser acesas, o nome deles escrito em letra dourada nos cardápios.
Leonardo parou no meio daquilo tudo.
— Preciso saber o que faço — eu disse, baixo.
— Cancele.
— Tudo?
— Tudo.
Ele respirou fundo antes de continuar, e a voz saiu mais firme do que o rosto.
— Minha assessoria vai soltar um comunicado. Motivos pessoais. Decisão de comum acordo. Sem detalhes.
Então se virou para Helena.
— Ninguém precisa saber o que aconteceu naquele quarto.
O alívio no rosto dela foi imediato demais. Eu vi. Ele também viu.
— Obrigada — ela sussurrou.
Leonardo não respondeu. Saiu do salão, e ela foi atrás dele de novo.
• • •
Reuni a equipe em menos de dez minutos e falei antes de conseguir pensar.
— O casamento foi cancelado.
Bianca me olhou como se eu tivesse falado outra língua. Alguém atrás dela soltou um "meu Deus" baixinho.
— Dividam os fornecedores. Ninguém comenta o motivo com ninguém. Nem com a família de vocês. Lembrem dos acordos de confidencialidade.
Os telefones começaram a tocar quase na mesma hora.
Nas três horas seguintes, cancelei quartos, carros, música, fotografia, bufê e decoração. Negociei multas com a voz calma, pedi desculpas por coisas que não eram culpa minha e arrumei destino para tudo o que já não podia ser devolvido.
Eu estava bem. Eu estava funcionando.
Até encontrar o Leonardo parado diante dos arranjos de flores, sozinho, sem paletó, com a gravata frouxa e uma tulipa branca entre os dedos.
— As flores não podem voltar — eu disse. — Posso tentar doar para um hospital.
Ele não tirou os olhos da flor.
— Eu escolhi essas.
— Eu sei. Eu estava lá.
— Achei que era a única coisa do casamento em que eu tinha acertado.
A voz dele falhou no final. Só um pouco. Ele largou a flor como se ela tivesse queimado a mão dele e se afastou entre as mesas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Eu fiquei ali, com o nó na garganta, olhando para as tulipas.
Meu telefone tocou.
Teresa Ferraz.
— Clara, onde está o meu filho?
— Ele estava aqui agora, Dona Teresa.
— O que aconteceu?
— Acho melhor a senhora conversar com ele.
Uma pausa longa.
— Você sabe.
Não era uma pergunta.
— Sei. Mas não cabe a mim contar.
Ela soltou o ar devagar, do outro lado da linha.
— Eu sei que isso não é responsabilidade sua. Mas vou te pedir um favor. Não deixe meu filho passar por isso sozinho. Ele não quer falar comigo. Não quer falar com ninguém. Você é uma das poucas pessoas que ele ainda deixa chegar perto.
— Dona Teresa...
— Estou pedindo como mãe.
Fechei os olhos.
— Eu vou fazer o possível.
— Obrigada, Clara.
LEONARDO
Encontrei Helena numa sala reservada no andar executivo. Ela estava sozinha, sentada no canto de um sofá, abraçando os joelhos como uma menina.
Fechei a porta.
— Falou com seus pais?
— Ainda não.
— Helena.
— Você não conhece o meu pai como eu conheço.
Não me sentei. Não queria tornar aquilo confortável para nenhum de nós dois.
— Nós conversamos sobre filhos — eu disse. — Você falou que queria.
— Eu achava que queria.
— Comigo?
Ela demorou tanto para responder que a resposta veio antes das palavras.
— Eu não sei.
Minha mão se fechou no encosto de uma cadeira até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Você ia se casar comigo amanhã, Helena. E não sabe se queria ter filhos comigo?
Ela passou as mãos pelo rosto.
— Eu achei que ia conseguir.
— Conseguir o quê?
— Ser sua esposa. — Ela me olhou. — Era o que todo mundo esperava de mim. Casar. Ter filhos. Construir a vida certa, com um homem como você.
Soltei o ar pelo nariz, sem humor nenhum.
— Você teve seis meses para parar.
— Eu estava com medo.
— Do seu pai.
— De tudo.
Eu conhecia aquele medo. Tinha visto a Helena recuar diante do pai em coisas muito menores. Ainda assim, seis meses continuavam sendo seis meses. Seis meses de jantares, de planos, de "boa noite, meu amor" pelo telefone.
— E a Denise?
O rosto dela mudou. Pela primeira vez naquela noite, ela não hesitou.
— A Denise foi a primeira coisa que eu escolhi sem pensar no que esperavam de mim.
Aquilo doeu mais do que tudo o que ela tinha dito antes. Porque era verdade. E porque, em todo o tempo que passamos juntos, ela nunca tinha falado de mim daquele jeito.
Fiquei um tempo em silêncio. Depois disse a única coisa que eu tinha decidido no elevador.
— Eu não vou contar.
Ela levantou o rosto.
— O quê?
— O que aconteceu naquele quarto fica entre nós. Até você decidir contar.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Leonardo...
— Não agradeça. Só faça o que eu te pedi. Converse com seus pais antes que alguém faça isso por você.
— Eu vou.
— Hoje.
Helena ficou calada.
Ela não tinha prometido.
Ela não tinha prometido.
