Capítulo 3 O Bar do Hotel
LEONARDO
A suíte ainda tinha tudo pronto para o dia seguinte.
O terno pendurado na porta do armário. Os sapatos engraxados. Uma garrafa de champanhe no balde de gelo, com um cartão do hotel desejando felicidades aos noivos.
E, na cômoda, as fotos.
A equipe da Clara tinha emoldurado três fotos do nosso ensaio para a mesa de boas-vindas. Alguém tinha deixado as molduras no meu quarto para eu aprovar. Helena rindo, com a cabeça no meu ombro. Nós dois de mãos dadas num campo de trigo. Um beijo contra o pôr do sol.
Seis meses.
Naquela foto do campo de trigo, ela já estava com a Denise.
Peguei a moldura. Tirei a foto de dentro. Olhei para o rosto dela, tão feliz, tão convincente, e rasguei no meio.
Depois a outra. Depois a terceira. Rasguei até virar pedaço pequeno demais para rasgar, e os pedaços caíram no tapete como confete de festa que nunca ia acontecer.
Não foi suficiente.
Havia um copo de cristal ao lado do balde de gelo. Eu nem pensei. Joguei contra a parede com toda a força que eu tinha.
O barulho encheu o quarto.
Fiquei ali, ofegante, olhando para os cacos no chão, para a marca molhada na parede, para a minha própria mão tremendo. Só percebi que tinha me cortado quando vi o sangue escorrendo pelo pulso.
Sentei na beira da cama e apertei a mão com uma toalha.
E então, sozinho, no quarto onde eu devia passar a noite de núpcias, eu chorei. Pela primeira vez desde que era menino.
CLARA
O comunicado saiu pouco depois das sete. Curto, sem explicação nenhuma, e suficiente para colocar o cancelamento em todos os sites de notícia antes do fim da noite.
Continuei trabalhando. Às dez e meia, mandei a equipe para casa. Bianca tentou ficar, e eu não deixei.
Fechei o notebook quase uma hora depois. O salão já parecia outro lugar: mesas pela metade, caixas abertas, o som distante dos carrinhos levando material pelos corredores.
Só então abri as mensagens pessoais.
Uma amiga tinha me mandado um link. Você viu isso?
Era o Marcelo. Sorrindo, abraçado a uma mulher que eu conhecia de vista. Na mão dela, um anel.
Noivado.
Dois meses depois de terminar comigo por mensagem, dizendo que precisava ficar sozinho.
Fiquei olhando para a foto até a tela apagar.
Depois levantei, andei até o banheiro do salão com passos normais, entrei na última cabine, tranquei a porta e desabei.
Não foi um choro bonito. Foi daqueles que vêm de uma vez, que dobram o corpo, que fazem a gente morder a mão para não fazer barulho. Chorei pelo Marcelo, que nem merecia. Chorei pelo tempo que eu tinha dado para ele. Chorei pela Helena no chão, pelo vaso quebrado, pelo rosto do Leonardo. Chorei pelos oito meses de trabalho que tinham virado caixas. Chorei porque eu tinha vinte e nove anos, organizava a felicidade dos outros para viver e voltava todas as noites para um apartamento vazio.
Chorei até não sobrar nada.
Quando saí, lavei o rosto. O rímel tinha escorrido até o queixo. Tentei consertar e desisti.
Eu devia ir para casa.
Mas a voz da Teresa voltou inteira. Não deixe meu filho passar por isso sozinho.
Perguntei na recepção onde estava o Sr. Ferraz.
— No bar.
• • •
O bar estava quase vazio. Luz baixa, garrafas refletindo no espelho, a máquina de gelo fazendo mais barulho do que as poucas pessoas espalhadas pelas mesas.
Leonardo estava sozinho na ponta do balcão, sem paletó, com um copo de uísque na frente.
E com a mão direita enrolada num guardanapo de pano. Havia uma mancha vermelha no tecido.
Sentei no banco ao lado dele sem dizer nada.
Ele virou o rosto. Os olhos estavam inchados. Os meus também. Nenhum de nós comentou.
— Você ficou — ele disse.
— Sua mãe me pediu.
— Claro que pediu.
Olhei para a mão dele.
— O que aconteceu aí?
— Um copo.
— O copo te atacou?
Ele quase sorriu.
— Eu ataquei o copo.
Chamei o bartender e pedi gelo, gaze e uma dose do que ele estava bebendo. O bartender voltou com uma caixinha de primeiros socorros. Peguei a mão do Leonardo sem pedir licença. Ele deixou.
O corte era na lateral da palma. Não era fundo, mas tinha sangrado bastante. Limpei devagar. Ele não reclamou. Só ficou olhando para mim enquanto eu enrolava a gaze.
— Você chorou — ele disse, baixo.
Não tinha como negar. O rímel estava na minha cara.
— Meu ex ficou noivo hoje. Dois meses depois de terminar comigo por mensagem.
Ele ficou em silêncio um momento.
— Sinto muito.
— Não precisa.
— Sinto mesmo assim.
Terminei o curativo. Não soltei a mão dele logo.
Tomei um gole do uísque. Queimou a garganta inteira, e eu fiz uma careta que o fez rir de verdade, um riso cansado e rouco, que parecia ter custado a ele.
— Eu não percebi nada — ele disse, depois de um tempo. — Seis meses, Clara. Eu estava do lado dela e não percebi nada.
— Eu também não.
— E se eu nunca percebo? E se eu for o tipo de homem que nunca percebe?
A pergunta ficou no ar entre nós. Não era uma pergunta sobre a Helena.
— Você percebeu que eu tinha chorado — eu disse.
Ele me olhou.
Eu nunca tinha estado tão perto dele. Sentia o calor do braço dele junto ao meu, o cheiro de uísque e de sabonete do hotel, a respiração dele um pouco rápida demais. Os olhos dele desceram até a minha boca e voltaram.
— Clara.
Só o meu nome.
Talvez fosse o uísque. Talvez o Marcelo. Talvez o dia inteiro dando errado. Ou talvez eu estivesse cansada de ser a pessoa que sempre fazia a coisa certa.
Segurei a camisa dele e o beijei.
Por uma fração de segundo, ele ficou parado. Depois a mão boa fechou na minha cintura e me puxou com uma urgência que me tirou o ar. O beijo não teve nada de educado. Teve raiva, tristeza e uma fome que nenhum de nós sabia que estava ali.
Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha.
— Isso é uma péssima ideia — sussurrou.
— Eu sei.
Ele me beijou de novo.
Leonardo me beijou de novo.
