Capítulo 4 Péssima Ideia
CLARA
Acordei devagar.
Uma dor de cabeça me acertou antes mesmo de eu entender onde estava.
O casamento tinha sido cancelado.
Abri os olhos.
O teto não era meu. Nem a cama. Era confortável demais para ser minha.
Um braço apertou minha cintura.
Quente. Bom.
A noite voltou aos pedaços.
O bar. O uísque queimando a garganta. A gaze que eu enrolei na mão dele. Eu segurando a camisa dele.
O beijo. O segundo beijo. O elevador. A porta da suíte fechando.
A boca dele no meu pescoço. Uma mão firme na minha cintura enquanto ele esperava que eu dissesse se queria continuar.
Eu tinha dito que sim.
Mais de uma vez.
Eu lembrava.
Esse era um problema.
Virei a cabeça devagar.
Leonardo dormia atrás de mim.
Nunca daquele jeito. Cabelo bagunçado, barba começando a aparecer, o rosto relaxado.
E sem camisa. Eu sabia porque sentia o peito dele quente contra minhas costas.
Ótimo.
A mão direita dele, enfaixada com a gaze que eu mesma tinha enrolado, estava largada sobre o meu quadril.
Tentei afastar o braço dele com cuidado.
Leonardo resmungou alguma coisa e me puxou de volta.
Então me lembrei de quem estava me abraçando.
Do homem que deveria estar se casando naquele dia. Do casamento que eu tinha passado oito meses organizando.
E de mim mesma beijando o noivo poucas horas depois de encontrar a noiva com uma das madrinhas.
Saí debaixo do braço dele e sentei na beirada da cama.
— Péssima ideia — murmurei.
— Qual delas?
Meu corpo inteiro travou.
Leonardo estava acordado.
— Há quanto tempo?
— O suficiente para ouvir você dizer que foi uma péssima ideia.
— Eu estava falando do uísque.
— Claro.
— Minha cabeça está explodindo.
— Tem água ao seu lado.
Havia uma garrafa fechada no criado-mudo.
— Você colocou isso aí?
— Ontem à noite.
Só então percebi que estava completamente nua embaixo do lençol.
Minhas roupas estavam espalhadas pelo quarto. O vestido perto da poltrona. Um sapato perto da mesa. O outro não existia mais.
Foi aí que eu vi o resto.
Perto da cômoda, no tapete, havia pedaços de papel brilhante. Pequenos, rasgados muitas vezes. Num deles, reconheci um pedaço de campo de trigo. Em outro, metade do sorriso da Helena.
Eu tinha escolhido aquelas molduras.
Na parede, acima dos pedaços, havia uma marca escura, e no chão ainda brilhavam alguns cacos de vidro que ninguém tinha recolhido.
Meu peito apertou de um jeito que não tinha nada a ver com ressaca.
Leonardo acompanhou meu olhar.
— Eu não queria que você visse isso — disse, baixo.
Não consegui responder. Pensei nele sozinho naquele quarto, horas antes de eu chegar ao bar, rasgando a própria vida em pedacinhos. E depois descendo, lavando o rosto e me deixando cuidar da mão dele como se nada tivesse acontecido.
— Eu escolhi essas fotos — foi tudo o que eu consegui dizer.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei.
Levantei rápido demais, querendo fazer qualquer coisa com as mãos, e a sensação entre as minhas pernas me fez parar.
Leonardo se sentou imediatamente.
— Você está bem?
— Estou.
Os olhos dele percorreram minhas pernas antes de voltar ao meu rosto. Sem pressa. Sem fingir.
Mesmo assim, gostei de ser olhada daquele jeito.
Puxei o lençol mais alto.
— Vou ao banheiro.
A boca dele mexeu.
— Certo.
No espelho, lavando o rosto, vi a marca abaixo da clavícula.
Outra memória voltou: Leonardo prendendo meu cabelo numa das mãos para alcançar meu pescoço.
O arrepio veio tão rápido que soltei a pele.
Tentei procurar arrependimento. Seria útil. Qualquer coisa que transformasse aquilo numa estupidez que nunca deveria ter acontecido.
Nada.
Eu estava constrangida. Estava com ressaca. Tinha complicado uma relação profissional de oito meses da pior maneira possível.
Mas arrependida?
Não.
Isso era inconveniente.
• • •
Quando saí, Leonardo estava diante da janela, já de calça, fechando o relógio no pulso.
A gaze na mão dele tinha uma mancha escura no meio.
Ainda sem camisa.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
Pensei no braço me puxando de volta.
— Melhor do que deveria.
— Isso é uma reclamação?
— Ainda estou avaliando.
Ele vestiu a camisa e me estendeu alguma coisa.
Meu sapato.
— Estava perto da porta.
Nossos dedos se tocaram. Foi rápido. Afastei a mão mesmo assim.
— Dói? — perguntei, olhando para o curativo.
— Menos do que ontem.
Eu não soube se ele estava falando do corte.
Calcei o sapato sentada na poltrona.
— Sobre ontem...
— Não precisa explicar.
— Eu não ia explicar. — Ele parou antes de chegar perto demais. — Só não quero que você ache que aconteceu porque eu estava bêbado.
— Eu também tinha bebido.
— Mas eu sabia exatamente o que estava fazendo.
Olhei para ele.
— Eu também sabia.
— Eu sei. Você me beijou.
A lembrança veio inteira. Eu puxando a camisa. A surpresa dele durando menos de um segundo. Depois as mãos.
— Lembro dessa parte.
— Só dessa?
A voz dele estava mais baixa.
— Não provoca.
Leonardo sorriu bem pouco.
— Você está arrependida?
Podia mentir. Era a resposta mais fácil.
Levantei.
— Não.
O sorriso dele tinha desaparecido.
— E você?
Ele não demorou.
— De muita coisa de ontem.
Meu peito apertou antes que eu conseguisse impedir.
— Da parte que envolveu você, não.
O aperto sumiu. Tão rápido que quase fiquei irritada por ele ter existido.
O telefone dele tocou.
A mudança no rosto foi imediata.
— Helena?
— Sim.
A realidade voltou ao quarto junto com o nome dela.
— Atende.
Ele atendeu.
— Falou com seus pais?
Silêncio.
Comecei a guardar minhas coisas na bolsa. Eu não estava ouvindo a conversa. Claro que não.
— O comunicado já saiu. Eles vão descobrir por outra pessoa.
Uma pausa.
— Não. Eu não vou contar por você. Mas resolve isso hoje.
Quando desligou, ficou alguns segundos olhando para o telefone.
— Ela ainda não contou — eu disse.
— Não.
Na noite anterior, ele tinha descoberto que a mulher com quem ia se casar vivia outra relação havia seis meses. Mesmo assim, estava protegendo o segredo dela.
— O pai dela vai ver as notícias.
— Já deve ter visto.
— Isso não vai acabar bem.
— Provavelmente não.
Peguei a bolsa.
— Preciso ir.
— Café?
Uma coisa tão normal. Sentar ali com ele e conversar sobre qualquer coisa me pareceu mais íntimo do que acordar nua na cama dele.
— Melhor não.
Leonardo assentiu. Sem insistir.
Eu gostei.
E gostar era justamente o que eu não queria começar a fazer.
Na porta, ele me chamou.
— Clara.
Virei.
— Obrigado por ter ficado ontem.
Lembrei de Teresa ao telefone. Estou pedindo como mãe.
— Agradeça à sua mãe.
Ele soltou uma pequena risada.
— Pretendo culpá-la por tudo.
— Boa ideia.
Saí antes de encontrar outra desculpa para ficar.
Saí antes de encontrar outra desculpa para ficar.
