Capítulo 5 Dezessete Dias
CLARA
Na segunda-feira, eu fiz o que sempre faço quando a vida sai do lugar: trabalhei.
Resolvi um lustre de seiscentos quilos que o hotel da joalheria não queria pendurar sobre cento e oitenta convidados. Redesenhei a circulação. Ao meio-dia, a cliente não só aprovou tudo como ampliou o contrato. A marca tinha eventos previstos em outras duas capitais no ano seguinte. Se aquele desse certo, a gente entrava na lista.
Era esse tipo de contrato que fazia uma empresa crescer. Não um casamento famoso.
Eu repeti isso para mim mesma umas dez vezes.
Depois abri o e-mail que estava pronto desde a noite anterior.
ENCERRAMENTO ADMINISTRATIVO — CASAMENTO FERRAZ/ALBUQUERQUE.
Vinte e seis páginas de relatório. Quatro linhas de mensagem. No fim, a palavra que eu tinha escolhido com cuidado:
Atenciosamente.
Meu dedo parou sobre o mouse.
Da parte que envolveu você, não.
A voz dele voltou inteira, baixa, perto do meu ouvido, e o meu rosto esquentou sozinho, no meio do escritório, com a Bianca a dois metros de distância.
Ridículo. Era um e-mail.
Cliquei em enviar antes que eu mudasse de ideia.
Pronto. Leonardo Ferraz voltava a ser um cliente na minha caixa de saída.
Eu disse a mim mesma que estava aliviada.
• • •
LEONARDO
Dezessete dias depois, eu ainda não tinha respondido aquele e-mail.
Tinha lido. Mais vezes do que eu admitiria para qualquer pessoa. Tinha escrito uma resposta, apagado, escrito outra. Tinha perguntado se a dor de cabeça dela tinha passado. Se ela tinha chegado bem. Se também tinha pensado em mim depois que saiu.
Apaguei todas. E mandei meu assistente confirmar o recebimento.
Ela queria distância. Era o mínimo que eu podia respeitar.
Além disso, eu estava ocupado demais sendo destruído.
O senador Albuquerque tinha aparecido no meu escritório na segunda-feira em que a Clara mandou aquele e-mail. Sem horário marcado. Sem estender a mão.
— O que você fez com a minha filha?
Eu ainda ouvia a voz dele. O grito que fez o meu assistente levantar do outro lado do vidro. O tapa que ele deu na minha mesa, tão forte que o porta-retrato caiu.
— Minha filha não sai do quarto! Não come! Chora o dia inteiro! E você me vem com "comum acordo"?
Eu não respondi. Ele se inclinou sobre a mesa, o rosto vermelho, a veia saltando no pescoço.
— Havia outra mulher?
A pergunta foi tão errada que alguma coisa dentro de mim quase riu. E quase explodiu.
Eu tinha a frase pronta. Eu a sentia na boca, pesada, quente. Eu encontrei sua filha com a Denise. Seis meses, senador. Seis meses.
Uma frase, e ele sairia da minha sala com outra pessoa para odiar.
Mas eu tinha dado a minha palavra.
Engoli. Doeu como engolir vidro.
— Pergunte à Helena.
— Eu perguntei! Ela só chora!
— Então dê tempo a ela.
Ele endireitou o corpo devagar. Quando falou de novo, a voz tinha baixado, e isso foi pior do que o grito.
— Você humilhou a minha filha na frente do país inteiro, Leonardo. Não tome o meu silêncio por fraqueza.
Saiu sem fechar a porta.
Naquela tarde, o Grupo Valença pediu para adiar a assinatura do contrato de gestão do nosso novo hotel. Um contrato que estava pronto. Que seria assinado na quinta-feira. Motivo alegado: "reavaliação interna do momento e dos riscos de exposição".
O presidente do conselho do Valença tinha sentado à mesa do senador em um jantar na casa dos Albuquerque meses antes.
Podia ser coincidência.
Não parecia.
Depois vieram as outras coisas.
Uma nota numa coluna política falando de "um empresário que confunde poder com impunidade". Um evento beneficente em que, de repente, não havia mais lugar para mim na mesa principal. Um deputado que eu conhecia havia dez anos e que passou a não me atender. Uma licença para a reforma de um hotel, parada numa gaveta de secretaria sem nenhuma explicação.
Nada assinado. Nada que eu pudesse provar. Só portas fechando, uma de cada vez, sem barulho.
Liguei para a Helena no primeiro dia.
— Seu pai esteve aqui.
Silêncio.
— Você contou?
Ela começou a chorar do outro lado da linha. Um choro de criança.
— Eu não consigo, Leonardo. Eu não consigo.
Desliguei sem dizer mais nada. E continuei calado. Todos os dias.
Na décima sétima noite, fiquei no escritório até quase meia-noite. O prédio vazio. A cidade acesa lá fora.
O celular vibrou em cima da mesa. Meu diretor jurídico, àquela hora.
— A secretaria indeferiu a licença da reforma — ele disse, sem cumprimento. — Pendência documental. Não especificaram qual.
— Não existe pendência.
— Eu sei. Protocolamos de novo amanhã cedo. Mas, Leonardo... — Ele hesitou. — Quem assinou o indeferimento foi indicado pelo gabinete do senador.
Fechei os olhos.
— Protocola amanhã. E não responde nada a ninguém.
— Até quando?
Eu não sabia. Desliguei sem responder.
Olhei para a cicatriz fina que o copo tinha deixado na lateral da minha mão.
Abri o e-mail da Clara de novo.
Atenciosamente.
Pensei nela limpando aquele corte no bar, com o rímel escorrido e as mãos firmes. Pensei que ela era a única pessoa, em dezessete dias, que tinha me olhado sem querer nada de mim.
Fechei o notebook antes de fazer alguma besteira.
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CLARA
No décimo nono dia, abri o calendário do celular para conferir a data de uma reunião em Curitiba.
O aviso apareceu antes.
Menstruação atrasada: 4 dias.
— Você contou?
