Capítulo 2

Alaric ficou imóvel por alguns segundos.

Então virou o rosto e soltou um sorriso de desprezo.

Eu sabia no que ele estava pensando. Ele se lembrava daqueles momentos.

Dez anos atrás, eu tinha dezenove. Meu pai adotivo, Gordon, era um monstro. Ele me espancava às escondidas. Tentou me obrigar a dormir com um investidor velho para pagar as dívidas de jogo dele.

Naquela noite, minhas roupas foram rasgadas. Meu rosto estava coberto de hematomas. Gordon me arrastou para fora pela porta, puxando meu cabelo.

Alaric atacou Gordon como um louco para me proteger. Eles brigaram. Gordon caiu para trás. A cabeça dele bateu na quina afiada da mesa de mármore.

O sangue cobriu o chão e ele morreu.

Quando as sirenes da polícia uivaram, Alaric se ajoelhou no chão. Ele tremia violentamente. Era o herdeiro da família Thorn. Uma acusação de assassinato acabaria com ele.

Então, antes de a polícia entrar, eu limpei as impressões digitais dele da mesa.

Eu confessei. Fui para a prisão por ele.

Quando a polícia me levou, ele me olhou com os olhos vermelhos.

Peguei cinco anos e perdi minha licença de enfermagem.

Quando saí, ele me esperava no portão do presídio. Me apertou com força.

— Romy, o meu amor vai ser a escada que vai te manter de pé — ele sussurrou no meu ouvido.

Eu jurei, naquele instante. Que só amaria ele nesta vida.

Quatro anos depois, hoje, eu me odeio. Odeio o fato de ainda amar só a ele.

Alaric soltou o ar com força. Ele me puxou de volta para o presente.

— É divertido repetir o passado de novo e de novo, Romy?

Eu olhei para ele. Meus punhos tremiam.

— Alaric, você sabe por que eu aceitei levar a culpa por você? — perguntei. Minha voz tremeu.

— Por quê?

— Porque você me amava mais do que a própria vida naquela época.

— Não. — Ele me encarou com frieza. — Porque a gente era jovem e idiota e eu te salvei.

Eu congelei.

— O que você disse?

Ele deu um passo na minha direção. Ergueu o queixo.

— Dez anos atrás, nós éramos jovens. Você acha que alguns anos numa cela significam que eu te devo a minha vida inteira? Não lembra? Eu matei aquela pessoa por acidente só para salvar a sua vida.

Eu não consegui falar.

Ele riu.

— Você só vive no passado, Romy? Já se passaram dez anos.

Meus olhos arderam de repente. As lágrimas se acumularam.

Ele sorriu, frio.

Pegou o paletó e se virou.

— O passado ficou no passado. Só esquece.

— Esquecer?

Minha voz estava completamente rouca.

— Você enfrentou o conselho diretor dos Thorn por mim. Você disse a eles que eu era a única Sra. Thorn. Como eu posso esquecer isso?

Os passos dele pararam na porta.

Eu puxei o ar.

— Cinco anos atrás, Odessa me chamou de condenada imunda no jantar de família. Você virou a mesa e a obrigou a me pedir desculpas na frente de todo mundo. Você disse que quem insultasse sua esposa teria que passar por cima do seu cadáver. Você esqueceu?

Alaric abaixou o olhar. O rosto dele estava nas sombras.

— Você disse que seu amor seria o escudo que me protegeria. E agora você dá o meu bebê para ela. Você me chama de suja. Você quer que eu esqueça todas aquelas promessas?

O quarto ficou mortalmente silencioso. Havia apenas minhas perguntas desesperadas e o silêncio frio dele.

Depois de muito tempo, ele virou ligeiramente a cabeça.

— Esse é o seu problema.

A porta pesada se fechou com um clique.

Só eu fiquei naquele quarto enorme e gelado.

Memórias bonitas podiam mesmo matar uma pessoa.

Não sei quanto tempo fiquei ali parada.

Quando finalmente despertei da dormência, redigi um acordo de divórcio e assinei meu nome.

Peguei os papéis. Eu precisava encontrá-lo.

Do lado de fora da suíte principal, o corredor estava silencioso. Enrolei minha mão queimada e sangrando com um curativo barato. Caminhei em direção ao salão privado de Odessa.

As portas duplas estavam entreabertas.

A risada elegante e debochada de Odessa vinha de dentro.

— Você realmente bloqueou todos os direitos de visitação hospitalar da Romy? Alaric, o que isso significa? Você está mesmo me tornando a única responsável legal do Jude?

Pela fresta da porta, eu os vi.

Alaric estava sentado no sofá de couro. Odessa, sentada de frente para ele, tomava chá. O broche de diamantes da família dela brilhava intensamente no peito.

Alaric olhou para Odessa. Seus olhos estavam tão calmos. Era exatamente o jeito como ele costumava olhar para mim.

— Você o criou por quatro anos. Você representa perfeitamente a família Thorn. Eu quero que todos saibam que meu poder é o escudo que protege você e o Jude. Ninguém jamais vai ameaçar a sua posição. Nem mesmo a Romy.

O acordo de divórcio escorregou da minha mão.

Caiu no carpete grosso sem fazer som algum.

Cinco anos atrás, ele enfrentou a própria família. Disse que seu poder me protegeria.

Agora, ele se sentava com a madrasta que roubou meu filho. Usava exatamente as mesmas palavras. Estava protegendo ela de mim.

Romy, você realmente não cresceu.

O homem que um dia teve sangue nas mãos para te manter segura.

Agora zomba de você. Manda você ir lá fora e dormir com outro homem.

A única presa ao passado é você. A única que não consegue aceitar a mudança dele.

— O que você está fazendo aqui?

Uma voz infantil e cortante soou atrás de mim.

Eu voltei a mim. Virei-me.

Jude estava ali, de pijama limpo. Me encarava com puro nojo.

— Você está espionando a minha mamãe Odessa de novo? Mulher má! Vai embora!

Olhei para o rostinho dele. Meu coração virou cinzas.

Abaixei-me. Peguei os papéis.

Não disse uma palavra. Virei as costas e fui embora depressa.

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