Capítulo 3
Eu tinha planejado entregar os papéis do divórcio a Alaric quando ele voltasse.
Em vez disso, acordei na manhã seguinte com um tapa cruel no rosto.
Odessa estava ao lado da minha cama, com os olhos vermelhos e inchados. “Onde está meu broche de diamantes? É a única herança da minha mãe. Onde você escondeu?”
Alaric estava bem atrás dela, com uma expressão de gelo esculpido.
Ela descobrira que eu estivera no salão dela ontem e estava claramente tentando me incriminar.
A tática dela era pateticamente barata.
Ela levantou a mão para me bater de novo, mas eu agarrei o pulso dela com força.
“Eu estive lá ontem, sim. Mas só para deixar os papéis do divórcio.”
A testa de Alaric se franziu na hora.
Ergui o queixo. “Verifiquem as câmeras de segurança do corredor, se não acreditam em mim.”
Toda a cor sumiu do rosto de Odessa num instante.
Ela estava acostumada a fazer esse tipo de encenação. No passado, eu sempre engolia os insultos só para manter a paz, apenas pela chance de ver Jude.
Mas desta vez eu não tinha a menor intenção de deixar isso passar.
Apertei os olhos para ela. “Se as câmeras provarem que eu roubei, eu me entrego e volto direto para a cadeia. Mas se você escondeu isso você mesma... é crime.”
Odessa entrou em pânico. Mordeu o lábio, cambaleando de leve.
“Foi ela que roubou!”
Uma voz aguda e infantil cortou o quarto.
O sangue nas minhas veias virou gelo.
Jude, de quatro anos, saiu de trás das pernas de Alaric. Ele não só apontou para mim. Ele me olhou com um nojo sem filtro.
“Eu vi ela! A mulher suja da prisão se esgueirou pro quarto da mamãe Odessa e pegou o alfinete brilhante!”
Eu encarei minha própria carne e sangue em choque absoluto. “Jude... o que você está dizendo? A mamãe não—”
“Não se chama de minha mamãe!” Jude gritou.
Ele correu para a frente e chutou minha perna com força. “Você é uma ladra! Você roubou porque você é pobre e ruim!”
Cada palavra era uma faca serrilhada esculpindo meu coração. Eu estendi a mão para ele, tremendo. “Jude...”
“Eca! Não encosta em mim!” Ele cuspiu, se encolhendo de volta nos braços de Odessa.
Odessa o abraçou e beijou sua bochecha com estardalhaço. “Ah, meu bebê corajoso. Graças a Deus você viu a verdade. A mamãe está tão orgulhosa de você.”
Eu abri a boca para me defender, mas Alaric me interrompeu. “Ele é só uma criança. É seu próprio filho. Por que ele iria te incriminar?”
Ele olhou para mim de cima com a máxima crueldade. “Aquele broche valia dez milhões de dólares. Ou você paga por ele, ou meus advogados vão garantir que você apodreça numa cela por mais dez anos.”
Dez milhões. Exatamente a quantia que eu tinha trancada num fundo fiduciário para as futuras cirurgias no coração de Jude.
“Eu não tenho esse dinheiro”, sussurrei.
“Eu sei.” Alaric sorriu, frio. “Mas você ainda me tem como marido. Você pode trabalhar para pagar sua dívida.”
Ele agarrou meu braço e me arrastou para o enorme banheiro da suíte principal, feito sob medida.
Então, abriu a água e entrou na banheira gigante com Odessa, bem na minha frente.
Ele olhou para o meu corpo trêmulo.
— Você vai se ajoelhar bem aqui — ordenou Alaric. — Sempre que precisarmos de alguma coisa, você rasteja até lá e traz. Um milhão por entrega.
A porta pesada de vidro correu até fechar.
Um segundo depois, a risada ofegante de Odessa ecoou através do vidro.
Minhas unhas se cravaram fundo no rejunte entre os azulejos.
Por dez horas, fiquei ajoelhada no chão áspero e molhado.
Fiz quinze entregas. Água com gelo. Óleos de massagem. Toalhas. Preservativos.
Os azulejos ásperos arrancaram a pele dos meus joelhos.
Empregadas passavam pelo corredor aberto, rindo atrás das mãos.
— Entregando preservativo pra amante do marido. Ela realmente não tem mais vergonha nenhuma.
— O próprio filho chamou ela de ladra imunda hoje. Eu me matava se fosse ela.
— Ela já tá totalmente acostumada com a humilhação.
A única exceção foi a velha governanta que costumava fazer trabalho voluntário no meu orfanato.
Ela parou, olhando meus joelhos sangrando com os olhos marejados. — Senhora... por favor, pare de se ajoelhar...
— Estou bem — eu disse. Minha voz estava completamente morta.
Dez anos atrás, Alaric se ajoelhou sobre vidro quebrado para implorar ao meu padrasto que me poupasse dos abusos.
A Romy de dezenove anos nunca imaginou que o garoto que morreria por ela um dia a faria se ajoelhar no próprio sangue do lado de fora da banheira dele.
Mas aquela Romy de dezenove anos tinha morrido dez anos atrás.
Fechei os olhos. “Já está mesmo na hora de crescer.”
Depois da décima quinta entrega, agarrei a bancada de mármore e me puxei para ficar de pé.
Considerando a dívida de dez milhões de dólares, eu ainda tinha um excedente de cinco milhões de dólares.
Em meio aos sons enjoativos da água chapinhando na banheira, tirei os papéis de divórcio amassados.
Empilhei tudo com cuidado na bandeja de prata do lado de fora da porta.
Coloquei meu cartão de crédito preto bem em cima da linha da assinatura.
Virei-me.
Jude estava no fim do corredor, segurando o ursinho de pelúcia.
Ele encarava meus joelhos sangrando, os lábios se entreabrindo como se quisesse dizer alguma coisa.
Por um segundo, um lampejo de pânico e confusão de verdade atravessou seus olhos grandes.
— Mãe... — ele sussurrou, a voz tremendo pela primeira vez.
Eu parei.
Eu mal podia acreditar no que tinha ouvido. Ele finalmente tinha me chamado de mãe. Por quatro anos, eu teria dado qualquer coisa só para ouvir aquela única palavra.
Mas agora ela não valia absolutamente nada. Meu coração parecia totalmente oco. Eu não sentia dor, e já não me importava.
Não disse nada.
Só passei direto por ele, tratando-o como se não fosse mais do que ar.
— Mãe! — Jude gritou atrás de mim.
Mas eu nunca olhei para trás.
