Capítulo 4

Saí pelo portão principal da propriedade Thorn.

A chuva fria bateu no meu rosto, mas eu mal senti.

Trent Maddox, o chefe dos seguranças, encarou minhas pernas sangrando em completo choque. Ele parou, paralisado, mas eu não me importei.

Peguei meu celular. Alaric tinha me dado, dizendo que era pela minha segurança. Mas eu sempre soube que era só uma ferramenta que ele usava para me rastrear.

Joguei-o com força no asfalto e pisei nele até a tela estilhaçar.

Nesse exato momento, um carro encostou em meio à chuva pesada.

Lena, minha amiga enfermeira, desceu. Ela congelou quando os olhos dela caíram no sangue escorrendo pelas minhas pernas nuas.

O rosto dela ficou vermelho de raiva extrema e incredulidade.

— Romy! Meu Deus! — Lena correu até mim. — Quem fez isso com você? Foi o Alaric que te obrigou a ajoelhar?! Eu vou matar ele!

Eu fiquei quieta sob a chuva. Não disse nada.

Lena cerrou os punhos. Ela puxou o celular, chorando e gritando no meio da tempestade. — Eu vou chamar a polícia! Vou chamar a imprensa! Ele é um monstro!

— Não. — Eu segurei a mão dela e disse com calma. — Ele tem os melhores advogados da cidade. A polícia não vai acreditar numa mulher com ficha criminal.

Lena chorou alto. Ela envolveu meu corpo gelado com o casaco e tentou me puxar em direção ao carro. — Então entra! Eu vou te levar pro hospital! Você está sangrando demais!

— Não. — Eu impedi as mãos dela. Olhei direto nos olhos dela. — Me leva pro aeroporto.

Lena ficou em silêncio. Ela me olhou, chocada. — Pro aeroporto? Pra onde você vai?

Eu ergui os olhos para o céu escuro e chuvoso.

— Eu pensei naquela garota de dezenove anos que foi voluntariamente para a prisão por amor — eu disse devagar. — Mas o garoto que ela amava morreu dez anos atrás.

Olhei para os meus joelhos. Eu não sentia dor alguma, só um alívio profundo.

— Eu dei a minha vida inteira para eles, Lena. Agora, eu vou pegar ela de volta. Vou voltar para a minha verdadeira cidade natal.

Lena chorou ainda mais. Ela segurou meus ombros com força. — Mas e o seu filho? E o Jude? E o Alaric?

— O Jude me chamou de ladra hoje. Ele me odeia — eu disse. — E o Alaric... ele está morto pra mim. Vamos.

No carro, Lena usou o kit médico dela para limpar e enfaixar meus joelhos. Eu fiquei imóvel. Usei o celular dela para reservar o primeiro voo para fora de Los Angeles.

Meus joelhos latejavam com uma dor aguda toda vez que o carro passava por um buraco, mas eu não fiz um som.

No aeroporto, a dor estava tão forte que eu mal conseguia ficar em pé. Lena sustentou todo o meu peso. Eu manquei em silêncio pela revista de segurança. Minhas roupas estavam manchadas de cinzas e sangue. As pessoas encaravam e cochichavam, mas eu mantive a coluna ereta.

Uma hora depois, eu estava diante do portão de embarque.

Lena me abraçou com força. Ela chorou alto no meu ombro. — Viva por você mesma daqui pra frente, Romy. Nunca volte pra esse inferno.

Eu assenti.

Peguei minha passagem. Virei-me e entrei no avião.

Eu não chorei, e não olhei para trás.

Sentei no meu assento e olhei pela janela escura enquanto o avião decolava.

Adeus, Alaric. Eu nunca mais vou te amar.


Na propriedade Thorn.

Alaric vestiu o roupão quente, sorrindo friamente enquanto olhava para a porta de vidro.

— Ela deve estar chorando no chão agora — disse ele, com leveza. — Hoje ela com certeza vai aprender a lição.

Odessa riu baixinho atrás dele. — Deixa ela ajoelhada mais um pouco.

Alaric foi até a porta. Tinha certeza absoluta de que Romy agarraria a perna dele no instante em que ele saísse.

Ele sabia que ela não tinha dinheiro e o amava profundamente. Na cabeça dele, ela nunca o deixaria, acontecesse o que acontecesse.

Ele abriu a porta e olhou para baixo.

— Romy, você já pode se levantar—

Ele parou, petrificado.

O chão estava completamente vazio.

Ele franziu a testa. Normalmente, ela estava bem ali, esperando por ele. Deve estar escondida no quarto, pensou, tentando me fazer sentir culpa.

Então olhou para a mesinha encostada na parede. Ali estava o cartão bancário preto dele. Embaixo do cartão, havia um maço de papéis.

Ele os pegou, e o fôlego dele morreu de repente.

Contrato de Divórcio.

Um truque barato. Como ela poderia se divorciar dele? Ela nunca iria embora, nem mesmo por causa do filho deles! Era só um blefe para chamar a atenção dele.

Mas o coração dele começou a disparar, descontrolado. Ele foi a passos rápidos até o quarto dela.

— Romy! — berrou, sentindo a raiva subir.

Ele empurrou a porta, mas o quarto estava totalmente vazio. A jaqueta barata dela e os velhos sapatos de enfermeira tinham sumido.

— Maddox! — Alaric gritou. Toda a cor sumiu do rosto dele.

Trent entrou correndo. — Senhor?

— Ache o telefone dela! Traga ela de volta! — Alaric agarrou o colarinho de Trent com violência.

Trent parou, tenso. — Senhor... o rastreador está quebrado. Encontramos o telefone dela, destruído, no bueiro da rua.

Alaric enrijeceu. A mente dele ficou completamente em branco.

Ele empurrou Trent e desceu as escadas correndo, indo direto para a sala de segurança.

— Verifica as câmeras!

Ele encarou a tela. Viu Romy sair pelo portão sob a chuva pesada. Ela parecia tão pequena, mas mantinha as costas perfeitamente retas.

Parecia que estava caminhando para a própria morte, e ainda assim não hesitou.

Ela entrou num carro e não olhou para trás, para a casa. Nem uma única vez.

A tela ficou preta.

Alaric deu um passo atrás e as mãos dele começaram a tremer.

— Pai?

Uma vozinha veio da porta.

Jude estava ali, de pijama. Abraçava o ursinho, chorando e com um ar apavorado.

— Pai... a mamãe passou por mim agora há pouco — Jude chorou alto. — As pernas dela estavam sangrando muito. Eu chamei ela de mãe. Mas ela não parou. Por que ela não olhou pra mim?

Alaric congelou. Olhou para o filho chorando, horrorizado.

Ele entendeu tudo, enfim. Romy sempre parava por Jude. Ela lutava como uma louca só para vê-lo. Mas hoje, ela nem sequer olhou para ele. Ela realmente desistiu.

Ele se lembrou do rosto de Romy de ontem. Ela chorava de dor extrema e disse: “Onde está o Alaric que era capaz de matar para me proteger?”

Dez anos atrás, ele matou um homem para salvá-la. Prometeu sustentá-la para sempre.

Hoje, ele ria com Odessa, enquanto fazia a própria esposa ficar ajoelhada do lado de fora, no próprio sangue.

O que foi que ele fez? Ele foi um idiota.

Alaric apertou o peito com força. Não conseguia respirar. O arrependimento acertou o coração dele como uma lâmina pesada, fazendo as pernas dele fraquejarem.

Romy foi embora de verdade.

E ele finalmente percebeu a verdade — era ele quem não conseguia viver sem ela.

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