Capítulo 1 Capítulo 1
Manuela
Exausta. Se existisse uma palavra para resumir meu estado de espírito nos últimos meses, seria essa. Eu estava saindo do supermercado, equilibrando sacolas pesadas enquanto tentava achar a chave do carro na bolsa. O sol do Rio não dava trégua e eu sentia o suor colando os fios de cabelo na nuca.
Ser mãe não é a tarefa romântica que as propagandas vendem. É abrir mão de quem você era para se dedicar a outro ser. Eu parei de trabalhar quando tive o Matheus e não me arrependo. Meu filho foi a melhor escolha que já fiz. Mas, às vezes, olhar no espelho e ver apenas uma "mãe cansada" em vez da mulher que eu costumava ser... dói um pouco.
Joguei as compras no banco de trás do meu SUV prata, conferindo se nada ia cair. Entrei no carro, liguei o ar no máximo e respirei fundo. Girei a chave e o rádio começou a tocar "Cabide", da Mart'nália. Aumentei o volume, sentindo o samba me contagiar. Por um momento, com o braço na janela e o vento no rosto, eu me senti leve.
— E se eu fugir e sair por aí na noitada, me acabando de rir... — cantei alto, batucando no volante.
Eu estava quase chegando em casa quando meu celular vibrou no banco do passageiro. Era minha mãe. Atendi pelo viva-voz para não tirar as mãos da direção.
— Oi, meu anjo! — exclamei, sorrindo.
— Oi, mamãe! Quando vem me buscar? Tô com saudade — a voz manhosa do Matheus fez meu coração se apertar.
— Em breve, meu amor. Eu prometo.
— Tô com muita saudade, mamãe…
— Eu também, querido. Mas a vida da mamãe está corrida. Você ficar aí com o vovô e a vovó é melhor agora — menti.
A verdade é que eu o mantinha com meus pais para protegê-lo. Minha relação com o Henrique estava um caos. Eram discussões diárias e eu não queria que o Matheus crescesse naquele ambiente tóxico.
— Filha, quando você vem aqui? — minha mãe assumiu o telefone com um tom de súplica. — Esse menino não aguenta mais de saudade.
Suspirei, diminuindo o rádio.
— Eu sei, mãe. Isso acaba comigo. Mas não posso deixar ele presenciar as barbaridades que o Henrique me diz diariamente naquela casa.
— Você já deveria ter pedido o divórcio. Aquele cretino nem se importa com o filho! — a raiva dela era nítida.
— Mãe! Não fala assim perto do Matheus. Para ele, o Henrique é um paizão.
Eu mantinha essa imagem. Henrique só aparecia para tirar fotos para o Instagram ou dar presentes caros, mas para uma criança de quatro anos, isso bastava. Eu carregava o peso de esconder a verdade sozinha.
— Como está o papai? — mudei de assunto.
— Bem, mas chateado com você.
Meu pai nunca aprovou o Henrique. Desde que me casei, nossa relação esfriou porque ele via o que eu me recusava a enxergar. Ele avisou, e agora o silêncio dele era o meu maior castigo.
Estacionei em frente ao prédio na Barra. Peguei as compras e segui para o elevador da cobertura. Minha mãe continuava falando, me distraindo, e eu até cheguei a rir de algo que ela disse enquanto abria a porta de casa.
Mas o riso morreu na garganta.
Paralisei. As sacolas de compras escorregaram das minhas mãos, batendo no chão com um baque surdo. O celular também caiu, a tela se chocando contra o porcelanato. Tudo parecia em câmera lenta.
No meu sofá, na minha sala, Henrique estava aos beijos com a Suelen. Minha "melhor amiga". Aquela que ouvia meus desabafos e frequentava minha casa como se fosse irmã. Eles estavam quase se comendo ali, no lugar onde eu deveria me sentir segura.
— Henrique…? — minha voz saiu falha, um sopro de choque.
Os dois se separaram com um semblante assustado, mas que rapidamente mudou para algo cínico.
— Manuela? O que está fazendo aqui? — Henrique teve a audácia de perguntar, como se eu fosse a intrusa.
— O que eu estou fazendo aqui, seu cretino?! Essa é a minha casa! — a fúria subiu como uma onda de calor. — Seu filho da puta! Você arruinou tudo! Cafajeste! Eu te odeio!
Caminhei até ele e, com todo o ódio acumulado, dei um tapa estalado em seu rosto. A cabeça dele virou para o lado com a força do impacto. Suelen, sentada no sofá, deu um sorrisinho de canto.
— E eu que pensei que fôssemos amigas, sua vagabunda! — apontei o dedo na cara dela.
— Amigas? Nunca fui com a sua cara, sua idiota — ela respondeu com uma calma que me enojou.
— Sua vadia! — desferi um tapa nela também.
— Maluca! — ela gritou, segurando o rosto.
— Para com isso, Manuela! — Henrique gritou, segurando meu braço com força. — A única vadia aqui é você! A Suelen é a mulher que você jamais será. Você é uma inútil! Não presta nem para ser mãe, vive deixando o Matheus com seus pais. Nem se cuida mais, só vive para essa porcaria de casa!
Fiquei boquiaberta. As palavras dele cortavam mais que faca. Ele estava usando minha dedicação ao nosso filho como arma contra mim.
— Eu tenho nojo de você, Henrique... Nojo! — cuspi as palavras, sentindo as lágrimas queimarem, mas me recusando a chorar.
— Nojo? Pois pegue seu nojo e suma daqui! Vá para a casa dos seus pais. Eles que te sustentem, já que são cúmplices em manter meu filho longe de mim.
— Não seja cínico! Você nunca fez papel de pai! Mas não se preocupe, não fico mais um segundo sob o mesmo teto que um covarde como você. Esqueça que eu existo!
Dei as costas para eles. Peguei meu celular no chão, a tela estava trincada, exatamente como minha vida naquele momento. Saí dali sem olhar para trás, sentindo o chão fugir sob meus pés. A dor era imensa, mas a semente da indignação já estava brotando.
Henrique achava que eu era uma inútil. Ele achava que tinha vencido.
Entrei no carro e, enquanto as primeiras lágrimas finalmente caíam, eu olhei para o meu reflexo no retrovisor. Eu não era mais a Manuela que aceitava migalhas.
Ao ligar o carro, percebi que Henrique tinha esquecido uma coisa sobre o console: o tablet da empresa com a cessão financeira aberta. Ao olhar rapidamente para a tela antes de jogá-lo no banco, vi um valor que não fazia sentido. Ele não estava apenas me traindo; ele estava roubando algo que pertencia à minha família. E eu acabava de ganhar a primeira arma para destruí-lo.
