Capítulo 2 Capítulo 2

Manuela

Eu saí daquele prédio sentindo que o asfalto sob os pneus do meu carro era a única coisa sólida no meu mundo. Dirigi no automático, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Eu não conseguia pensar em luxo, em traição ou em Suelen. Eu só pensava em um lugar: a casa dos meus pais. Onde o meu filho estava.

Depois de uns trinta minutos enfrentando o trânsito do Rio, cheguei ao meu destino. Mas, quando estacionei, a coragem sumiu. Fiquei ali, com o motor desligado, sentindo o silêncio da rua me esmagar. O que eu diria para o meu pai? "Você estava certo"? E para o Matheus? Como explicar que a casinha feliz que ele conhecia tinha virado cinzas?

Apoiei a cabeça no volante e me permiti quebrar. Chorei. Chorei por cada sinal que ignorei, por cada vez que me senti insuficiente enquanto o Henrique me traía com a mulher que eu chamava de amiga. Como as pessoas podem ser tão cruéis? Como eu pude ser tão cega?

Limpei o rosto com as costas das mãos, respirei fundo e me encarei no retrovisor. Os olhos estavam vermelhos, mas havia um brilho neles que eu não via há muito tempo. A tristeza estava dando lugar a uma raiva fria e calculada.

Saí do carro e caminhei pelo jardim da casa onde cresci. O cheiro das flores e o caminho de paralelepípedos gastos me trouxeram lembranças de uma Manuela que não conhecia a maldade.

Toquei a campainha e, segundos depois, a Márcia abriu a porta. Ela trabalha com a minha família desde que eu era pequena.

— Oh, Manuela! Que alegria te ver, querida! — Ela sorriu, mas o sorriso murchou assim que viu meu rosto. — Você não parece nada bem... Vem, entra. Sua mãe está na sala.

Entrei e vi a cena que mais precisava: minha mãe, Michele, sentada no tapete brincando com o Matheus. Assim que ele me viu, os olhinhos brilharam e ele correu na minha direção.

— Mamãe! — Ele grudou nas minhas pernas.

Eu me ajoelhei e o apertei como se ele fosse meu oxigênio. As lágrimas voltaram, mas dessa vez eu não tentei esconder.

— Tá chorando, mamãe? — Ele perguntou, limpando meu rosto com as mãozinhas pequenas.

— É de felicidade por te ver, meu amor. Eu juro. — Beijei o topo da cabeça dele, sentindo o cheirinho de shampoo de bebê que sempre me acalmava.

Depois de mandar o Matheus brincar no quintal com a Márcia, sentei no sofá e desabei para a minha mãe. Contei tudo. A cena no sofá, o deboche da Suelen, as ofensas do Henrique.

— Meu Deus, Manuela! — Minha mãe estava em choque. — Como ele teve coragem?

— Eu vou me divorciar, mãe. Hoje mesmo. Não quero mais nada que venha daquele homem. — Falei com uma firmeza que surpreendeu até a mim mesma.

— Seu pai vai ficar indignado, mas ele vai te apoiar. Ele sempre disse que aquele homem não valia o que comia.

O resto do dia foi um borrão de ligações e estratégia. Quando meu pai chegou, ele não disse "eu te avisei". Ele apenas me abraçou. Aquele abraço de proteção que eu não recebia há anos. Ele me colocou em contato com o advogado da família e decidimos o plano de ataque. Eu não seria apenas a ex-mulher; eu seria a dona do império que ajudei a construir.

(...)

No dia seguinte, eu acordei diferente. Não havia espaço para a Manuela de pijama e coque frouxo. Hoje, uma nova Manuela ia nascer.

Escolhi minha armadura: uma calça social preta de corte impecável, uma blusa de renda roxa que trazia um ar de mistério e autoridade, e um blazer branco por cima. Coloquei meus saltos mais altos e, claro, minhas joias. Como designer, eu sabia que cada peça contava uma história, e hoje a história era de poder. Fiz uma maquiagem leve, mas marcante, escondendo qualquer rastro da noite mal dormida.

— Uau! Está linda, filha — minha mãe elogiou quando me viu pronta.

— Obrigada, mãe. Estou indo resolver o resto da minha vida.

Dirigi até o nosso antigo apartamento. Não estacionei na garagem; deixei o carro na rua, sinalizando que minha estadia ali seria breve. O porteiro sorriu para mim, sem saber que o mundo ali dentro tinha acabado.

Subi e, pela primeira vez, toquei a campainha da minha própria casa. A governanta me deixou entrar e me guiou até o escritório do Henrique. Dei dois toques na porta e entrei sem esperar convite.

— Bom dia, senhores — cumprimentei secamente.

Henrique estava sentado na poltrona dele, com aquele sorrisinho de canto que agora me causava náuseas. Ao lado dele, o Andrei, que costumava ser nosso advogado. E do outro lado, o advogado do meu pai.

— Sente-se, Manuela — Henrique indicou a cadeira, como se ainda mandasse em algo.

— Vamos direto ao ponto — o advogado Andrei começou, abrindo a maleta. — Como o senhor Guimarães fundou a Brillare Joias durante o casamento, as ações serão divididas em cinquenta por cento para cada um, conforme a lei de comunhão parcial.

Eu soltei uma risada sem humor, cruzando as pernas e encarando o Henrique nos olhos.

— Permita-me discordar, senhor Andrei. — Ergui o dedo, parando o discurso dele. — Quando o Henrique fundou a Brillare, ele usou o meu nome e o aporte financeiro da minha família para conseguir os primeiros contratos. A empresa foi registrada em meu nome. Sendo assim, eu não aceito cinquenta por cento.

Henrique parou de girar a caneta. O sorriso dele sumiu.

— Do que você está falando, Manuela? — Ele rosnou.

— Estou falando que eu quero setenta por cento das ações da Brillare Joias. E eu não aceito menos do que isso. Se você não assinar agora, nós vamos para o tribunal. Eu vou expor cada centavo que você desviou, cada prova da sua infidelidade e o fato de que você usou o nome da minha família para subir na vida. Você quer sujar sua imagem de "grande empresário" logo agora que a Brillare está no topo?

O silêncio na sala era tão pesado que dava para ouvir a respiração acelerada do Henrique. Ele olhou para o Andrei, buscando uma saída, mas o advogado dos meus pais se pronunciou:

— Ela está correta. Em um processo litigioso, com as provas que temos de má conduta matrimonial e a origem do capital, ela pode conseguir até mais que setenta por cento.

Henrique bufou, encostando-se na poltrona. Ele parecia um animal encurralado, mas tentou manter a pose de desinteressado.

— Tudo bem, Andrei. Dê o que ela quer. Eu não tenho tempo para dramas de tribunal. — Ele assinou os papéis com uma agressividade contida.

Eu assinei logo em seguida. A caneta deslizou pelo papel com uma satisfação indescritível.

— A senhora agora é a acionista majoritária da Brillare Joias — anunciou Andrei.

Levantei-me sem dizer uma palavra para o Henrique. Apertei a mão dos advogados e saí dali sentindo que o ar estava finalmente puro. Eu tinha vencido a primeira batalha. Mas, enquanto caminhava para o elevador, peguei meu celular para avisar a Isabela, minha melhor amiga, que estava indo encontrá-la.

Eu precisava de um drink e de um plano.

Ao entrar no carro, vi uma notificação no tablet que eu ainda levava comigo. Um e-mail anônimo enviado para a conta principal da Brillare, com o assunto: "Fraude na auditoria de pedras preciosas". Ao abrir o anexo, meu coração quase parou. Henrique não tinha aceitado o acordo de 70% por ser generoso; ele assinou porque sabia que a empresa estava prestes a explodir em um escândalo criminoso, e agora a bomba estava nas minhas mãos.

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