Capítulo 3 Capítulo 3

Manuela

O trajeto até o apartamento da Isabela levou cerca de quarenta minutos, mas pareceram horas. Saí do Leblon, com seus prédios espelhados e ruas arborizadas, em direção à Tijuca. À medida que eu avançava pela cidade, sentia que estava saindo de uma bolha de vidro para a vida real. O bairro da Isa é mais simples, com prédios antigos e marcas do tempo na estrutura, mas ali sempre foi o meu porto seguro.

Parei o carro em frente ao edifício e respirei fundo. Meus pulmões ainda pareciam apertados. Passei pela portaria com passos automáticos.

— Muito bom dia, senhorita! — Fred, o porteiro que me conhece há anos, abriu um sorriso largo. Ele é daquelas pessoas que parecem carregar um sol interno, sempre gentil.

— Bom dia, Fred — respondi, forçando um sorriso que não chegava aos olhos.

Ele nem precisou interfonar. Fred sabe que a Isabela e eu somos carne e unha. Subi pelo elevador antigo, ouvindo o ranger dos cabos, e parei diante da porta 602. Toco a campainha e, em segundos, a porta se abre.

— Manu? — Isa me encarou, confusa. Ela já estava pronta para o trabalho, com aquela ruga de preocupação que sempre se formava entre as sobrancelhas quando algo estava errado.

— Oi, amiga... Desculpa vir sem avisar. Eu só... precisava conversar. — Pela primeira vez naquele dia, deixei os ombros caírem. A fachada de CEO implacável desmoronou ali mesmo, no corredor.

— Entra agora! — Ela me puxou para dentro. — O que houve? Aquele idiota do Henrique te fez alguma coisa? Ele gritou? Ele te bateu? Se ele relou a mão em você, eu juro que eu mato aquele crápula! — Isa já estava pegando a bolsa, pronta para sair em guerra por mim.

— Calma, Isa — sentei no sofá surrado dela, sentindo o aconchego do lugar. — Bater ele não bateu... ele não seria louco. Mas o resto... o resto acabou.

— Acabou? Como assim? — Ela sentou ao meu lado, os olhos fixos nos meus.

— Eu assinei o divórcio, Isa. Peguei ele ontem aos beijos com a Suelen. No nosso sofá. Na nossa casa.

— Filho de uma puta! — O grito da Isabela ecoou pelo apartamento pequeno. — Cretino! Cafajeste! Logo com aquela bruaca? Aquela falsa que vivia comendo na sua mesa?

— Pois é. Mas quer saber? Isso não importa mais. Eu quero distância daquela podridão. Quero viver minha vida com o Matheus e reconstruir o que ele tentou destruir.

— Não importa uma ova, Manuela! Você tem que arrancar até as calças daquele nojento! Deixar ele morando debaixo da ponte!

Eu dei um sorriso frio, o primeiro do dia

— Não se preocupe. Eu já comecei. Eu saí de lá agora como a acionista majoritária da Brillare Joias. Tenho setenta por cento da empresa.

Isa arregalou os olhos e, por um segundo, o choque silenciou sua indignação. Depois, ela abriu um sorriso triunfante e estendeu a mão para um high five.

— Uau! É assim que se faz, garota! Você não deu um golpe, você recuperou o que era seu por direito!

Conversamos mais um pouco, mas eu via que ela estava atrasada. O relógio de pulso dela não mentia.

— Vai, amiga. Não quero que você se prejudique por minha causa. A gente se fala mais tarde.

— Você vai ficar bem, Manu? Promete?

— Vou sim. O que não mata, fortalece, né? — forcei um sorriso e pisquei para ela.

Nos despedimos e eu desci. O sol da manhã estava forte. Caminhei até onde tinha deixado o carro, um pouco mais afastado da entrada. Eu sentia uma adrenalina estranha correndo nas veias, uma mistura de alívio e uma raiva que ainda não tinha encontrado saída.

Foi quando um homem, cambaleando e cheirando a cachaça barata, cruzou o meu caminho.

— Olá, gatinha... — Ele falou com a voz arrastada, se aproximando demais. O hálito fétido de bebida fez meu estômago embrulhar.

Tentei ignorar, focando em abrir a porta do carro, mas ele segurou meu braço. — Aonde pensa que vai? Que tal a gente se divertir um pouquinho, hein?

Naquele momento, algo dentro de mim estalou. Eu não vi aquele bêbado. Eu vi o rosto do Henrique. Eu vi o cinismo dele, a traição dele, as palavras de que eu era "inútil". Toda a agressividade que eu guardei durante anos explodiu em um segundo.

Eu avancei sobre ele com uma fúria cega. Dei um tapa tão forte no rosto dele que o homem cambaleou e caiu. Mas eu não parei. Comecei a chutá-lo, descarregando cada grama de dor e humilhação. Cada chute era para o Henrique. Cada soco era para a Suelen. Eu queria acabar com a vida de quem tinha me destruído.

— Sua vadia! Você acha que pode me tocar? Você não é nada! — eu gritava, fora de mim.

Vi alguns homens se aproximando e meu coração disparou. Achei que iam me atacar, mas um deles me afastou com cuidado, enquanto outro pegava o bêbado pela gola. Não esperei para ver o fim. Corri para o SUV, travei as portas e fiquei ali, ofegante, com o coração parecendo que ia saltar pela boca. Meus nós dos dedos ardiam. Eu estava tremendo, mas, por um instante, a pressão no meu peito tinha diminuído.

Dirigi de volta para a casa dos meus pais em transe. Tomei um banho demorado, tentando lavar aquela sensação de sujeira. Foi só quando saí que percebi: tinha perdido um dos meus brincos favoritos. Devia ter caído na briga.

— Por que chegou daquele jeito, filha? Parecia que tinha visto um fantasma — minha mãe comentou na cozinha.

— Não é nada, mãe. Só a agitação desses dias. Vai ficar tudo bem. — Menti. Como explicar que eu quase matei um homem na rua porque vi o rosto do meu ex nele?

Passei o resto do dia grudada no Matheus. Ver ele brincando, sentir o cheirinho de neném... aquilo era a minha cura. "Somos só nós dois agora, meu pequeno", pensei, aninhando-o na cama para dormir à noite.

Eu estava quase pegando no sono com ele quando meu celular vibrou. Henrique. Minha primeira reação foi ignorar, mas ele insistiu três vezes.

— Oi — atendi em um sussurro, para não acordar o menino.

— Olá, querida ex-esposa — o tom sarcástico dele me deu náuseas instantâneas.

— Seja breve, Henrique. Meu filho está dormindo.

— Nosso filho, Manuela. Mas não liguei para falar de família. Amanhã teremos uma reunião de emergência na Brillare. Preciso que você esteja presente, já que agora é a "dona" da porra toda.

— Tem que ser amanhã? Eu estou exausta.

— Já foi anunciada aos acionistas. Dez da manhã. Não se atrase, ou eles vão achar que a nova sócia majoritária não passa de uma dondoca preguiçosa.

— Eu estarei lá. Me manda o horário pelo WhatsApp.

Bati o telefone na cara dele. O ódio voltou a borbulhar. Ele queria uma reunião? Ele teria. Ele queria ver a "dona" da empresa? Pois eu ia mostrar para ele que a Manuela que ele humilhava tinha morrido naquele sofá junto com o casamento deles.

Enquanto eu tentava voltar a dormir, recebi uma notificação de uma rede social profissional. Alguém tinha acabado de visualizar meu perfil repetidas vezes. O nome? Gabriel. Ao clicar na foto, senti um calafrio. Era o mesmo homem que tinha me afastado do bêbado na rua hoje de manhã. Coincidência? No mundo em que eu estava entrando, eu sabia que coincidências não existiam.

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