Capítulo 4 Capítulo 4
Manuela
No dia seguinte, o clima na recepção da Brillare Joias estava estranhamente silencioso. Enquanto eu caminhava pelo mármore polido que eu mesma tinha ajudado a escolher, senti os olhares dos funcionários me seguindo. A recepcionista me cumprimentou com um sorriso educado, mas havia uma pitada de curiosidade no fundo dos olhos dela. Será que já sabiam da traição?
Fui guiada até a sala de reuniões principal. A imensa mesa oval de madeira maciça estava cercada pelos acionistas e diretores, todos homens, todos de terno, todos com expressões de quem tinha acabado de engolir algo amargo. Procurei a cadeira mais distante possível do Henrique e sentei-me, cruzando as pernas com elegância.
— Bom, senhores — Henrique começou, de pé, na cabeceira da mesa. O tom dele era solene, quase fúnebre. — Perdoem a urgência, mas o futuro da Brillare está prestes a mudar drasticamente.
Eu tive vontade de rir. O cinismo dele era uma obra de arte. Ele falava como se eu fosse um meteoro prestes a colidir com a empresa, e os outros acionistas o encaravam com uma expectativa ansiosa.
— Não queremos expor nossa vida pessoal, mas a Manuela e eu nos divorciamos. Como resultado, ficou decidido que, a partir de hoje, ela detém setenta por cento das ações. Ela é a nova acionista majoritária.
O burburinho começou instantaneamente. Um dos acionistas mais antigos deu um tapa na mesa, fazendo as xícaras de café tilintarem.
— Isso é um absurdo! — ele bradou, me encarando com desprezo. — Que competência uma mulher tem para comandar a Brillare? Com todo o respeito, senhor Guimarães, mas a sua esposa…
— Primeiramente, ex-esposa — cortei a fala dele, minha voz saindo fria e cortante como um diamante. Encarei o sujeito sem piscar. — Segundo, sou tão capaz quanto qualquer pessoa nesta sala. Talvez mais, já que eu conheço o design e a alma das joias, enquanto alguns aqui só entendem de planilhas. Peço que me respeitem, ou posso mandar cada um de vocês embora num piscar de olhos.
Houve um silêncio chocado. Henrique me olhava com um ódio contido, mas eu não recuei.
— Ainda não terminei — continuei, erguendo o indicador. — Quem não estiver satisfeito com a nova gestão, sinta-se à vontade para pedir demissão. Ninguém aqui é insubstituível. Inclusive você, Henrique.
A reunião foi encerrada em meio a protestos e rostos vermelhos de raiva. Quando todos saíram, restaram apenas nós dois naquela sala imensa.
— Meus parabéns, Manuela — Henrique começou a bater palmas, um som seco e irônico. — Você interpretou perfeitamente o papel de vilã. Fez questão de me fazer passar por ridículo na frente dos meus parceiros.
— Eles são seus parceiros, Henrique. Para mim, são apenas funcionários que precisam aprender quem manda. E você sabe muito bem que eu sempre dei duro aqui. Você que fez questão de me pintar como uma dondoca inútil para que ninguém me levasse a sério.
A porta da sala foi aberta com um estrondo antes que ele pudesse responder. Suelen entrou como um furacão, com a voz alterada e os olhos injetados.
— O que essa vadia ainda está fazendo aqui, Henrique? — ela gritou, ignorando completamente o ambiente profissional.
— Já falei para você me respeitar, Suelen! — levantei-me bruscamente, a adrenalina subindo.
— A gente respeita quem se dá ao respeito, querida — ela debochou, aproximando-se de mim.
— Então você deveria ouvir o seu próprio conselho, porque a única vadia aqui é você. A "amiga" que abre as pernas para o marido da outra enquanto ele ainda está casado. Tenha um pouco de dignidade.
— Já chega, Manuela! — Henrique gritou e, antes que eu pudesse reagir, senti o impacto.
A dor irradiou pela minha bochecha instantaneamente. O estalo do tapa que ele me deu ecoou pela sala. Minha cabeça virou para o lado e eu senti o gosto metálico de sangue no canto da boca.
— Acho melhor ter cuidado com as palavras direcionadas à minha filha — a mãe da Suelen, que eu nem tinha visto entrar, falou com uma frieza assustadora.
Eu fiquei estática por um segundo, a bochecha queimando, a alma gritando. Mas eu não ia chorar. Não ali. Peguei meu celular da bolsa com as mãos trêmulas e disquei o 190.
— Serviço de emergência, em que posso ajudar? — ouvi a voz da atendente.
— Preciso de uma viatura na sede da Brillare Joias. Agora. Meu ex-marido acabou de me agredir.
Henrique empalideceu. Ele avançou e deu um tapa no meu celular, fazendo o aparelho voar longe e se chocar contra o chão.
— Você não vai chamar ninguém! — ele rosnou.
— Eu vou acabar com você, seu cretino! — avancei sobre ele, mas a Suelen e a mãe dela me seguraram.
Minutos depois, o som das sirenes começou a ecoar lá embaixo. O alívio que senti foi indescritível. Henrique ficou paralisado, olhando para a porta. Ele sabia que o escândalo que ele tanto queria evitar estava batendo na porta.
Fomos todos para a recepção. O policial, sério e imponente, olhava da recepcionista assustada para nós quatro.
— Recebemos uma chamada de agressão — ele disse, a mão pousada no cinto de utilidades.
— Fui eu — dei um passo à frente, sentindo meu rosto começar a inchar. — Ele me bateu.
O policial olhou para o Henrique.
— Por favor, senhor, nos acompanhe. Não complique as coisas.
As "duas cobras" tentaram ir atrás, mas foram barradas. Henrique foi guiado para a viatura e eu fui logo atrás em meu carro, o coração batendo na garganta.
(...)
Horas depois, na saída da delegacia, eu me sentia um trapo. Henrique tinha sido liberado após assinar uma intimação — o poder e o dinheiro ainda compravam muita liberdade — mas a semente da ruína dele estava plantada.
Eu estava caminhando para o estacionamento, distraída, quando esbarrei com força em alguém.
— Opa! Desculpe, não foi minha intenção... — comecei a dizer, mas parei ao olhar para cima.
O homem era impressionante. Alto, cabelos escuros perfeitamente cortados e olhos azuis tão intensos que pareciam atravessar a minha alma. Ele usava um terno cinza sob medida que gritava poder. Mas havia algo mais... um reconhecimento imediato.
— Como você está? — ele perguntou. A voz era grave, envolvente, e carregava uma preocupação que me deixou desarmada.
Eu o encarei por tempo demais, tentando lembrar de onde conhecia aquele rosto.
— Perdoe a minha indelicadeza... acho que não estou lembrada de você… — murmurei, sentindo as bochechas esquentarem, o que só fez o local do tapa latejar.
Ele deu um sorriso de canto. Um sorriso que me deixou hipnotizada por um segundo.
— Sou o Gabriel. Te ajudei ontem, quando tentaram abusar de você. E também, você estudou com a minha irmã no ensino médio.
O estalo veio como um choque elétrico. Gabriel. Esse era o irmão mais velho da Suelen? O prodígio da família que tinha ido estudar na Europa e se tornado um dos homens mais influentes no mundo dos negócios?
— Ah... claro — forcei um sorriso, mas meu corpo ficou rígido. Eu não conseguia apertar a mão que ele me estendia. Se ele era irmão dela, ele era inimigo.
— Sinto muito pelo que aconteceu lá dentro — ele disse, e o tom dele mudou. Ele olhou para a minha bochecha avermelhada, e vi a mandíbula dele se travar de ódio. — Eu conheço a peça que minha irmã é, mas não imaginei que chegaria a esse ponto. Você está bem? Seu rosto está…
— Não se preocupe, Gabriel. Eu vou ficar bem. — Cortei-o, sentindo que não podia confiar naquela gentileza. — Obrigada pela preocupação, mas eu tenho que ir.
Dei as costas para ele e caminhei o mais rápido que pude até o meu carro. Eu sentia os olhos dele queimando nas minhas costas. Se o Gabriel estava de volta ao Brasil, e se ele era irmão da mulher que destruiu minha vida, o jogo acabava de ficar muito mais perigoso.
Ao entrar no carro e olhar pelo retrovisor, vi Gabriel ainda parado no mesmo lugar, observando minha partida enquanto falava ao celular.
