Capítulo 5 Capítulo 5

Manuela

A semana que se seguiu ao escândalo na empresa foi um borrão de café forte, noites mal dormidas e planilhas intermináveis. Eu tinha trocado o meu sobrenome. Não era mais Manuela Guimarães; eu tinha voltado a ser a Manuela Cardoso. Retomar o nome do meu pai parecia o passo certo para recuperar a minha identidade, mas carregar o peso da Brillare Joias sozinha estava se provando um desafio hercúleo.

O lançamento da nova coleção, batizada de "Renascimento", estava programado para o próximo mês. Era a nossa grande aposta para salvar o faturamento do ano e limpar a imagem da empresa após o divórcio turbulento. Todos na sede estavam em polvorosa, correndo de um lado para o outro com protótipos, pedras preciosas e estratégias de marketing. Eu sentia que, se conseguisse fazer esse lançamento ser um sucesso, provaria para todos aqueles homens da reunião que eu não era apenas uma figura decorativa.

Eu estava na minha sala — a mesma que um dia foi do Henrique, e que após muito pensar, passou a ser minha, agora redecorada com o meu toque pessoal — revisando os contratos de exclusividade. Meus olhos ardiam pelo brilho da tela do notebook.

Ouvi batidas rápidas na porta. Antes mesmo que eu pudesse processar, minha secretária, a Bianca, entrou. Ela parecia ter visto um fantasma.

— Entre — eu disse, fechando uma aba de e-mails.

— Senhorita Guimarães... quero dizer, Cardoso! — Bianca se atrapalhou, ficando vermelha como um pimentão. — Desculpe, Manuela. É que o hábito ainda fala mais alto.

— Tudo bem, querida — forcei um sorriso, tentando passar uma calma que eu não tinha. — Respira. O que aconteceu para você entrar assim?

— É que... acabamos de receber um alerta do monitoramento de mercado. O design principal da coleção "Renascimento", o colar de esmeraldas que seria a nossa peça-mestra... ele foi divulgado. Em um site de fofocas corporativas e, pior, enviado para os nossos maiores concorrentes.

O ar pareceu sumir da sala. Eu me levantei tão rápido que a cadeira quase tombou.

— Isso não é possível, Bianca! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e vi a menina dar um passo para trás, assustada. — Aqueles arquivos estavam em uma pasta criptografada. Só eu e a diretoria de criação tínhamos a senha.

— Eu não sei o que dizer, senhorita Cardoso. O pessoal do TI já está em estado de alerta máximo, tentando rastrear o vazamento e derrubar os links, mas você sabe como é a internet... uma vez que cai na rede, é impossível apagar tudo.

Senti uma pontada aguda na têmpora. Passei a mão pelo rosto, apertando o osso do nariz, tentando impedir que as lágrimas de frustração caíssem.

— Tudo bem. Diga a eles que quero um relatório completo em dez minutos. Me mantenha informada de cada passo.

Assim que ela saiu, eu desabei na poltrona. Quem faria algo assim? Henrique? Era a primeira opção lógica. Ele queria me ver falhar, queria provar que sem ele a Brillare afundaria. Mas ele também sairia perdendo, já que ainda tinha 30% da empresa. Seria ele tão vingativo a ponto de queimar o próprio patrimônio só para me destruir?

Vinte minutos se passaram, que pareceram horas de tortura. Novas batidas na porta. Dessa vez era o Paulo, o chefe do setor de TI. Ele não costumava subir à minha sala a menos que o problema fosse gravíssimo.

— Alguma novidade, Paulo? Por favor, me diga que conseguiram bloquear o acesso — eu disse, levantando-me e caminhando até ele.

Paulo torceu os lábios, evitando meu olhar. Ele segurava um tablet com as mãos trêmulas.

— Sim, nós rastreamos a origem do vazamento, Manuela. Mas... a notícia não é nada boa.

— Pode falar. Eu aguento — eu disse, embora minhas pernas estivessem começando a falhar.

— O endereço de IP de onde os arquivos foram disparados para o servidor externo... ele veio daqui. Especificamente, deste computador. Do seu notebook pessoal.

O mundo girou. Eu olhei para o aparelho em cima da minha mesa como se ele fosse uma bomba prestes a explodir.

— O quê? Mas como? Isso é impossível! — Eu me alterei, a voz beirando o desespero. — Eu não saí desta sala! Este computador nunca fica sozinho sem estar bloqueado. Paulo, vocês precisam investigar melhor, deve ter havido uma invasão remota, um hacker…

— Nós fizemos todas as buscas possíveis, senhorita Cardoso. Não há sinais de invasão externa. O login foi feito com a sua senha pessoal, dentro do horário comercial. Sinto muito... mas para o sistema, foi você quem enviou os designs.

Ele deixou o tablet sobre a mesa e saiu, provavelmente para não presenciar o meu colapso. Eu caminhei até a enorme janela de vidro que dava vista para a cidade. Lá fora, o Rio de Janeiro continuava vibrante, indiferente à minha ruína.

Isso era loucura. Uma armadilha perfeita. Eu mal tinha assumido o controle e o teto já estava desabando sobre a minha cabeça. Se eu não provasse que era inocente, não seria apenas o divórcio que me destruiria; seria um processo por má conduta e sabotagem industrial.

Fui até a pequena adega no canto da sala. Meus dedos tremiam tanto que o gargalo da garrafa de vodca bateu na borda do copo de cristal. Enchi uma dose generosa e virei de uma vez. O líquido desceu queimando, rasgando minha garganta, mas o fogo no meu peito era muito maior. Nem a bebida mais forte do mundo conseguiria me acalmar agora.

O telefone da mesa começou a tocar. Era a linha externa.

— Manuela, é a Bianca. Os acionistas estão na linha. Todos eles.

Não tive tempo de responder antes que a primeira chamada fosse transferida.

— Manuela, que palhaçada é essa? — A voz de um dos investidores, o mesmo que me humilhou na reunião, gritava no meu ouvido. — Nós avisamos! Você não tem competência! Agora nossos designs estão na mão da concorrência e as ações da Brillare estão despencando! Eu quero retirar meus investimentos agora!

— Senhor, por favor, estamos investigando…

— Investigando o quê? O TI já espalhou que o vazamento veio da sua máquina! Você é uma fraude!

Desliguei. O telefone tocou de novo. Outro acionista. Mesmas ameaças. Mesmos insultos. Parecia um pesadelo coreografado. Henrique devia estar rindo em algum lugar, assistindo ao meu castigo.

Eu estava sozinha. Acusada de roubar a minha própria empresa. O cansaço físico da semana se transformou em um peso insuportável de impotência. Eu me sentei no chão, encostada na parede fria, segurando o copo vazio.

Eu precisava de uma saída. Eu precisava de alguém que entendesse de segurança, de alguém que visse o que o meu TI não estava conseguindo ver.

Foi quando me lembrei do encontro na porta da delegacia. O olhar intenso, o terno impecável e a promessa silenciosa de que ele sabia quem a irmã dele era.

Minhas reflexões foram interrompidas por uma mensagem de texto no meu celular pessoal. Era de um número que eu não tinha salvo, mas o conteúdo fez meu coração parar: "O IP pode mentir, Manuela. Mas as câmeras de segurança do corredor não mentem. Se você quer saber quem entrou na sua sala enquanto você foi ao banheiro às 14:15, me encontre no café em frente à empresa em dez minutos. — Gabriel."

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