Capítulo 3 Bonito, mas idiota (CALIA)
Depois de quinze minutos de um trajeto tenso, nosso carro chegou a uma mansão magnífica cercada por muralhas gigantes. Um portão preto se erguia diante de nós.
Jack falou no rádio comunicador e, logo, o portão enorme se abriu. A mansão inteira surgiu à vista. Era uma casa grande pra caramba. Era a primeira vez que eu a via pessoalmente, bem diante dos meus olhos. A construção era sustentada por pilares brancos e robustos. Uma fonte ficava no centro da rotatória. Homens fortemente armados estavam posicionados em cada canto da mansão. Todos estavam em alerta máximo, como se uma grande ameaça pudesse chegar a qualquer momento, e a vigilância deles fosse primordial.
— Chegamos — disse Jack, antes de sair do carro.
— Onde estamos?
— Você não precisa saber onde estamos. Seu trabalho é tratar o meu chefe.
— Ele precisa de sangue. Pelo menos três bolsas, considerando o estrago.
— Eu vou cuidar disso. Você entra.
Três homens armados vieram e ajudaram o homem a sair do carro. Ele gemeu alto ao pressionar as palmas das mãos contra o peito perfurado. Era incrivelmente resistente. Qualquer outra pessoa teria desmaiado com um ferimento de bala como o dele.
— Por aqui, doutora.
Eu ofeguei, surpresa. Um dos homens armados se postou sobre mim. A voz grave dele fez meu corpo inteiro estremecer. As pistolas presas ao corpo dele me intimidavam.
Eles me levaram a uma sala que parecia uma clínica. Ficava separada do prédio principal da mansão e era predominantemente branca. Tudo era estéril em cada canto. Havia duas macas no centro da sala. Cilindros de oxigênio, um cardiograma, um desfibrilador, vários bisturis em bandejas, agulhas de soro de vários tamanhos, soluções intravenosas — tudo de que eu precisava para remover as balas do corpo do homem estava ali.
— Precisa de mais alguma ajuda?
— Não. Eu dou conta sozinha. Vocês, saiam.
Os homens armados permaneceram na sala. Encaravam o chefe, como se tivessem medo de que eu o matasse se eles saíssem.
— Eu não consigo me concentrar para tirar as balas do peito dele com vocês aqui. As armas de vocês estão me intimidando.
— Chefe?
— Saiam.
O homem gemeu. Cada respiração que ele dava era uma tortura.
— Ela não vai me machucar.
A sala ficou em silêncio quando os homens armados me deixaram a sós com o chefe deles.
Coloquei minhas luvas de látex e comecei o procedimento padrão antes de operar meu paciente. Peguei uma seringa e a enchi com anestésico. Na verdade, isso estava além da minha alçada. Era o anestesista que deveria aplicar a anestesia. Mas aquilo era uma emergência, e eu não tinha escolha.
— Eu não sei seu nome.
Puxei a luminária cirúrgica para mais perto. O homem gemeu, em protesto, quando a luz ofuscou seus olhos.
— Elion. Tira essa maldita luz dos meus olhos.
— Você vai dormir logo, senhor Elion. Quando acordar, eu prometo: as balas vão ter sumido.
— Só Elion.
— Certo, Elion. Vou começar agora. Então, relaxa. Não vai doer.
— Eu não sou uma porra de uma criança. Seja rápido. Eu sinto as balas ameaçando arrancar meu coração.
Soltei o ar devagar e injetei o anestésico nele.
Aos poucos, os olhos de Elion se fecharam. O rosto dele ficou tão sereno enquanto dormia como um bebê inocente.
Limpei o sangue ao redor do buraco escancarado no peito dele e, então, abri com cuidado para remover as balas. Ele disse que havia mais de uma. Fiquei me perguntando o que ele andava fazendo para ter tantas balas no corpo.
A primeira bala saiu. Estava a cinco centímetros do coração. O atirador provavelmente pretendia matá-lo, mas errou. A bala passou raspando do coração.
Encarei a bala sob a luz. Era de um tipo realmente letal. Tinha uma ponta afiada e era incrivelmente pequena.
As outras duas balas estavam no abdômen. Não eram perigosas, mas ainda eram balas. Elas tinham cortado os músculos e a pele como uma faca atravessando um bife. Costurei todos os ferimentos, garantindo que não tivesse deixado passar nem um centímetro. Jack chegou pouco depois com três bolsas de sangue.
— Três bolsas de sangue, como você pediu.
— B?
— Sim. Esse é o tipo sanguíneo dele.
— Certo. Vou transfundir esse sangue nele e monitorar a pressão.
— Ótimo. Não deixe ele morrer.
Franzi a testa quando Jack saiu do quarto.
Elion claramente não era um homem comum. Devia ser bilionário. Caso contrário, não teria uma mansão tão luxuosa, com homens fortemente armados guardando a casa.
Uma hora depois, eu tinha terminado todas as minhas tarefas. A pressão dele estava normal, e a frequência cardíaca, estável. Eu só precisava me certificar de que não haveria infecções pós-operatórias ou outras complicações antes de ir embora.
Bocejei bem aberto, esticando os braços no ar. Eram três da manhã. Eu estava exausta. Puxei uma cadeira de madeira para mais perto e me sentei. Não tinha trazido meu celular. Todas as minhas coisas estavam no meu consultório no hospital. Se eu soubesse que um homem misterioso ia me sequestrar esta noite, não teria deixado o telefone em cima da mesa. E eu estava morrendo de fome.
Eu não podia fazer nada além de apoiar o queixo na mão e observar Elion dormir profundamente à minha frente. A respiração dele era regular. Eu conseguia ver o rosto dele com mais clareza sob a luz forte. Ele tinha um maxilar forte e quadrado, com uma barba por fazer de três dias. Os lábios eram bem proporcionados, nem grossos demais, nem finos demais. Pareciam macios e flexíveis. Enxuguei o suor da testa dele. Ele tinha suado tanto no carro que o cabelo cor de cobre grudara na testa. Era um homem bonito e, sem dúvida, poderoso. Mas por hoje já bastava. Eu tinha a sensação de que ele escondia algo de que eu não ia gostar por trás de todo aquele luxo. Ou por trás daquele rosto bonito.
Inclinei-me sobre o rosto dele, examinando-o mais de perto.
— Sabe de uma coisa? Você é bonito, mas é um babaca.
