Capítulo 1 FERNANDO TORRENEGRO

"Ela é a filha do inimigo… mas carrega nos olhos cegos a única luz capaz de me desarmar. E isso me enfurece mais do que qualquer arma apontada para minha cabeça." — Fernando Torrenegro

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Medellín — Colômbia

Dias atuais

Durante os meus trinta e sete anos nunca odiei tanto um sobrenome quanto Castilho. Um nome que carrega poder, ouro e influência, mas que para mim só provoca asco, gosto de sangue na boca e a lembrança de uma garagem em Valparaíso onde meu pai caiu com metade do rosto aberto. Eu tinha cinco anos. O sangue quente escorria pelos trilhos de óleo enquanto os olhos dele ficavam fixos no teto, ainda tentando entender por quê. Poucos dias depois, na mesma semana, minha mãe caiu com o rosto no prato do jantar. Um único tiro limpo na cabeça. Fatal. Eu não chorei. Memorizei cada detalhe: o som do disparo, o silêncio que veio depois, o cheiro de pólvora misturado ao jantar que nunca terminamos. E, acima de tudo, o nome do homem que ordenou tudo: Hernán Castilho.

Aquele bastardo achou que podia apagar os Torrenegro como se fossemos baratas. Subestimou o que eu carregava nas veias. Fugi sendo um menino. Virei fantasma entre os becos de Caracas e Medellín, com ódio nos olhos e uma faca no bolso. Aprendi a manusear armas antes de aprender a escrever direito. Desarmei bombas, fiz vendettas com sangue e descobri que a justiça neste mundo sujo só existe quando você a executa com as próprias mãos. Hoje sou Don Fernando Torrenegro. Homens de elite me obedecem. Tenho rotas, armas, silêncio, a polícia, os tribunais e até os repórteres nos bolsos. Se eu estalar os dedos, alguém morre em menos de uma hora e ninguém pergunta por quê. Mas o poder não preenche o vazio. A dor me transformou em monstro, e eu aceito o título. Monstros não pedem paz. Monstros cobram dívidas.

A morte de Hernán Castilho seria rápida demais. Sem sofrimento é inútil. Eu quero que ele apodreça em vida, que mastigue a própria ruína até não restar dente na boca e que implore pelo fim sem nunca alcançá-lo. Por isso escolhi Luna. A filha cega. A última coisa pura que aquele verme ainda protege. Poesia cruel do destino: a flor que cresceu entre espinhos podres e que o mundo enxerga como frágil. Eu sei que ela é a chave. O símbolo. E eu vou esmagá-la com calma, lentamente, exatamente como o pai dela esmagou a minha alma.

Batidas na porta me puxam de volta ao presente. Mateo, meu homem de confiança, entra com o envelope da corte civil.

— Senhor Torrenegro. O juiz assinou. Está feito. A certidão sai amanhã nos jornais.

— Perfeito.

Dou o último gole no whisky sem ler o papel. Tudo foi arquitetado com antecedência. Os votos foram escritos por uma assessora. Cerimônia simbólica, roteirizada, sem emoção e sem vacilo. Estratégia pura. Eu não quero amor, toque ou sentimentalismo. Quero apenas o poder de destruir definitivamente o causador de todo o meu ódio.

Largo a caneta e olho através da janela de vidro espelhado da cobertura. Medellín respira tranquilamente sob as luzes, mas eu vejo o submundo por trás delas — a selva real onde só sobrevive quem mata. Amanhã Luna Castilho vestirá o branco que escolhi, o véu que mandei bordar e os sapatos de cristal que paguei. Caminhará na minha direção com passos guiados porque não enxerga. Será o começo do fim. O meu golpe final. A minha vendetta.

Já imaginei esse momento tantas vezes. O tecido marcando o corpo dela, os lábios tremendo sem saber o que vem. Ela não vai me ver, mas vai me sentir. Vai saber, sem dúvida, que está diante do homem que destruiu tudo o que ela conheceu. Eu sou o predador. Ela é o cordeiro no altar dos meus mortos.

Mas tem algo que ainda me fere. Algo que me atormenta à noite e me enoja porque não deveria existir. Foi a voz dela. Suave. Sem medo. Sem súplica. Apenas verdade.

— Por quê?

Ela perguntou com calma ao sentir o anel de noivado deslizando no dedo anelar direito. Como se já soubesse a resposta, mas quisesse ouvir da minha boca. Eu calei. Não porque não soubesse. Porque sabia demais.

Com essa lembrança jogo o corpo na poltrona de couro frio do escritório. O perfume dela me assalta como uma maldição — jasmim e mel. Simples, inocente, inaceitável. Ela usava um vestido azul de algodão naquele dia. As mãos pousadas no colo, como se estivesse à espera de um julgamento. Disseram que foi educada e que confiava no pai. Coitada. Ela não sabe quem é Hernán Castilho de verdade. Não sabe o que a ganância dele foi capaz de fazer. A confiança é a arma dos tolos, e Luna ainda é tola. Mas ela vai aprender. Vai sentir o mundo com os dedos, com o olfato e com a pele. Vai aprender o que é viver com o medo sussurrando no ouvido. E talvez — talvez — aprenda a me reconhecer antes de ser tarde demais.

Eu não sou herói. Estou longe disso e não faço a menor questão de ser. Sou o monstro que ela nunca teve chance de evitar. Um homem de trinta e sete anos que cresceu na escuridão, que não consegue sentir afeto genuíno por ninguém, que carrega um vazio permanente onde deveria existir família. Que se tornou temido por toda a máfia, mas que, no fundo, continua sendo o menino de cinco anos que memorizou o cheiro do sangue dos pais. Frio, calculista, impiedoso. Capaz de ordenar mortes sem piscar. E, ainda assim, desarmado por uma voz e por um par de olhos que nunca vão me ver.

O telefone vibra. Mateo:

“A garota chegou à casa de campo e está instalada.”

Levanto. Amanhã é o casamento civil. Depois, o teatro para os jornais. E finalmente a noite. Onde ela vai deixar de ser Castilho e se tornar minha. A minha noiva. A moeda de vingança. Com a beleza e a inocência dela poderia ser a minha ruína — se eu deixasse. Mas ainda não é o momento. Preciso ser cauteloso e frio até conseguir o que desejo. Depois, quem sabe, eu usufrua o que será meu por direito.

Agora é hora de descer, vê-la de novo e lembrar a mim mesmo que não existe espaço para fraqueza. Luna Castilho pode viver num mundo sem luz, mas vai aprender a ver com os sentidos. E quando sentir o que habita em mim — o ódio, o luto e a fome de vingança — talvez descubra que o monstro que a rodeia já começou a sangrar por ela.

Desço as escadas de mármore com passos firmes, o coração batendo pesado no peito, e quando a porta da sala se abre sinto o cheiro de jasmim e mel no ar antes mesmo de ouvir a respiração dela.

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