Capítulo 3 RUÍNA

"Casei com ela para destruir seu pai, mas é ela quem está dilacerando o que restou da minha alma — e nem precisou me tocar para isso." — Fernando Torrenegro

🖤

Fernando Torrenegro

O tempo passou rápido demais. Em poucas horas eu finalmente cumpriria o juramento feito sobre os corpos dos meus pais. Quase três décadas carregando o gosto de sangue na boca, o cheiro de pólvora na memória e o vazio que nunca se preencheu. Hoje o maldito Hernán Castilho começaria a pagar. E o pagamento começava com a filha.

Estou de pé perto do pequeno altar improvisado, vestindo o terno preto de sempre, o maxilar travado, as mãos quietas demais. A porta principal se abre. Luna surge vestida de branco. Não o branco de contos de fadas. O branco do silêncio antes da explosão. Uma cor estéril, limpa demais, esperando ser manchada com tudo o que carrego: sangue, promessas falsas e intenções torpes.

Ela caminha como se não tocasse o chão, guiada por uma mulher cujo nome não me interessa. Meus olhos — e mais do que os olhos, meu instinto — estão cravados nela. Na cabeça erguida. Na firmeza de cada passo. Na forma como o tecido branco marca o corpo sem esforço, revelando a curva dos seios, a cintura estreita, o contorno dos quadris. Ela não se arrasta. Não treme. Não é um cordeiro. Luna Castilho é uma lâmina afiada disfarçada de flor delicada.

O salão da casa de campo foi transformado em teatro para a imprensa: flores claras, tapeçarias antigas, câmeras escondidas, sorrisos falsos. Políticos curiosos e jornalistas famintos aguardam a união simbólica entre os dois nomes que Medellín aprendeu a temer. Mas eu não vejo nada disso. Quando ela aparece, só sinto a explosão sob a pele. Um calor indesejado. Um arrepio que desce pela espinha e se alojam baixo no ventre. Luna é silêncio. Mas não o silêncio submisso. É o tipo de silêncio que grita e que, de alguma forma, me provoca.

Ela para diante de mim. O rosto voltado para a frente, como se me encarasse. Os olhos serenos, vazios, de quem não teme o abismo porque já aprendeu a habitá-lo. E ali, bem ali, eu sei: essa mulher vai me destruir.

A cerimônia começa. O juiz civil recita frases curtas, burocráticas, sem alma. Tudo como planejei. Assino o livro. Luna faz o mesmo. A mão dela é firme, determinada, como se estivesse assinando um tratado de guerra e não a sentença do próprio destino.

— Pode beijar a noiva.

Eu poderia não fazê-lo. Poderia manter a encenação sem tocar em nada. Mas a beijo. Porque é parte do jogo. Porque todos estão vendo. Porque preciso provar a eles — e a mim — que ainda estou no controle.

Seguro o rosto dela com uma das mãos. A pele é quente, macia, viva demais. Isso não estava nos planos. Luna tem uma beleza natural, simples e fatal. Meu polegar desliza pela linha do maxilar, sentindo o calor subir pela minha palma. Inclino-me. O cheiro de jasmim invade minhas narinas, misturado ao meu próprio perfume de álcool e madeira. Meus lábios encostam nos dela.

O beijo começa calculado. Frio. Rápido. Mas no segundo em que a boca dela cede — quente, macia, úmida — algo se quebra dentro de mim. O gosto dela é de fúria contida e de algo doce que não consigo nomear. Pressiono um pouco mais. Os lábios se abrem sob os meus. Sinto a respiração dela tremer contra a minha boca. Minha mão desliza da mandíbula para a nuca, os dedos se enterrando nos cabelos presos, puxando-a um milímetro mais perto. O corpo dela está rígido, mas não recua. O peito dela quase toca o meu. O calor sobe rápido demais. O sangue lateja nas têmporas e desce direto para a virilha, duro, urgindo, traidor.

Eu a beijo de verdade por um segundo a mais do que deveria. A língua dela encontra a minha por um instante breve, quente, desafiadora. Um gemido baixo — o meu ou o dela, não sei — vibra entre nós. O gosto se aprofunda. O cheiro de jasmim e pele quente me embriaga. Meu outro braço quase sobe para a cintura dela, quase a puxa contra mim, quase esmago o corpo dela no meu só para sentir se ela treme do mesmo jeito que eu. O desejo explode como pólvora. Por um momento eu esqueço o salão, as câmeras, o plano, a vingança. Só existe a boca dela, o calor, a vontade absurda de aprofundar o beijo até ela se derreter ou me morder de volta.

Afasto-me bruscamente. A respiração sai ofegante. Os lábios ainda queimam. O corpo inteiro está tenso, a excitação dolorosamente evidente sob o tecido do terno. Olho para ela. A boca dela está um pouco aberta, úmida, vermelha. O peito sobe e desce rápido. Ela não treme. Mas eu sinto — no ar, no cheiro, no silêncio — que algo nela também se moveu.

— Agora você é minha — sussurro no ouvido dela, a voz rouca, carregada de um desejo que eu odeio admitir.

Ela não se move. Não treme. Não hesita.

— Desde quando fui algo que se possui?

Engulo seco. A frase me expõe. Ela viu através da máscara. Mesmo sem olhos. E o pior: meu corpo ainda lateja pelo gosto dela, pela memória da língua quente, pelo quase-contato dos corpos.

Durante o brinde, os flashes estouram como tiros. Sorrisos falsos me cercam. Aperto mãos. Repito palavras ocas. Cumpro o protocolo. Mas tudo o que quero é o silêncio. Quero tirá-la dali. Quero saber se o desafio é real ou apenas um verniz bem polido. Quero — e odeio querer — sentir de novo o gosto daquela boca, o calor daquela língua, o corpo dela contra o meu.

Quando finalmente nos recolhemos, a noite já engoliu tudo. Fecho a porta atrás de nós e ordeno que ninguém nos incomode. A sala da noite de núpcias é simples, bonita, teatral. Tudo parece pequeno demais com ela dentro.

Luna está sentada à beira da cama. O vestido impecável. O corpo firme. As mãos sobre o colo. O queixo erguido como se pudesse me ver. O perfume de jasmim preenche o ar e me faz oscilar. Meu corpo ainda carrega o eco do beijo. A excitação não desapareceu por completo.

Ela fala antes de mim:

— Você vai me despir como parte da punição ou da cerimônia?

A pergunta corta o ar. Precisa. Desafiadora. Como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo: me empurrando para a beira.

Chego mais perto. Não a toco. O calor do corpo dela me atinge mesmo à distância. Sinto o sangue latejar de novo. A tensão sexual é tão densa que quase posso mordê-la. Meu olhar desce pelo decote discreto, pela curva dos seios sob o tecido, pela cintura marcada. Odeio o fato de desejar o que planejei destruir. Odeio ainda mais o fato de que o beijo não foi suficiente. Quero mais. Quero a boca dela de novo. Quero o corpo dela sob o meu. Quero ouvir se ela geme quando perde o controle.

— Não vou te tocar hoje — digo.

A voz sai mais baixa, mais rouca, mais carregada de desejo do que eu admitiria. Talvez porque, no fundo, uma parte de mim não consiga cumprir o que prometi a mim mesmo.

— Ainda não.

Ela solta um suspiro curto, quase inaudível. Alívio ou frustração? Não consigo decifrar. Só sei que o som dela vibra em mim como um toque.

— Obrigada.

A palavra me atinge como um tapa. Como se me concedesse mérito por não violar a mulher que comprei como parte de uma guerra pessoal. Viro as costas. O quarto encolhe. A presença dela enche cada centímetro de ar. Sinto-me sufocado. Algo dentro de mim grita para que eu saia imediatamente, ou algo inesperado — e perigoso — acontecerá. O gosto dela ainda está na minha boca. O corpo ainda lateja.

Saio sem pronunciar mais nenhuma palavra. Encosto o corpo na parede do corredor. O peito dói. O coração bate como um tambor de guerra. Não é só raiva. É confusão. É desejo cru. É a consciência de que estou perdendo o controle. Porque eu não sou um homem que sente. Sou um homem que manda, que toma e que destrói. E ela está desmontando tudo com meia dúzia de frases, um beijo que ainda queima na minha boca e um silêncio que me esmaga.

Fecho os olhos. Respiro fundo. O perfume dela ainda está nas minhas narinas — jasmim e algo doce que não consigo nomear — e por algum motivo maldito aquilo me acalma e me provoca ao mesmo tempo. Sinto o sangue ainda quente, a excitação indesejada latejando entre as pernas, a raiva de não conseguir apagá-la.

Volto ao quarto uma hora depois. Ela dorme. Ou finge. Não falo nada. Não me aproximo. Fico parado no escuro, observando o vulto dela sob os lençóis. O peito sobe e desce ritmadamente. O vestido branco ainda cobre o corpo. Meu olhar demora demais na curva do quadril, no ombro exposto, na garganta. A pergunta volta, indesejada e cruel:

E se eu não conseguir destruí-la?

Porque Luna Castilho não é uma peça no meu jogo. É o tabuleiro inteiro. E talvez — só talvez — seja a única capaz de me fazer perder.

Mas isso não importa. A guerra já começou. Ela é minha esposa agora. Minha moeda. Minha arma. E se eu tiver que me queimar para vencer, que seja. Porque no fim só um de nós pode sair inteiro. E eu nunca fui metade de nada. Nunca fui dominado por uma mulher.

Seguirei com meus planos. Os objetivos serão alcançados custe o que custar.

Aperto o punho até as unhas entrarem na carne da palma e o gosto de sangue volta à boca — desta vez o meu — enquanto o cheiro de jasmim e o eco quente da boca dela continuam impregnados em mim como uma maldição que eu ainda não sei como arrancar.

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