Capítulo 4 4: LUNA

“Ele acha que me possui, mas ainda não entendeu: no escuro onde ele tenta me prender, sou eu quem enxerga melhor. Sou eu quem domina.” — Luna Castilho

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Meu único objetivo nesta noite é sobreviver intacta ao casamento forçado com Fernando Torrenegro sem entregar a ele nem um centímetro da minha vontade, enquanto decifro as rachaduras do homem que pretende me usar como arma contra meu pai — e a dificuldade maior não é a cegueira que carrego desde o nascimento, mas o fato de que cada passo que dou neste jardim me empurra mais fundo na jaula de ouro de um Don que jurou destruir tudo o que leva o nome Castilho.

O dia da minha penitência chegou. Hoje deixo de ser a filha imaculada e frágil de Hernán Castilho para me tornar a esposa oficial do homem que odeia meu sangue. A criada puxa o zíper do vestido branco com cuidado excessivo, como se temesse que o tecido se rasgasse sob a pressão do destino. O cetim frio gruda na minha pele, pesado, sufocante, uma segunda pele que não pedi. Sinto o peso das pérolas no decote, o cheiro adocicado do perfume que esfregaram em meus pulsos, o leve tremor das mãos da mulher que me veste. Ela não fala. Ninguém fala. O silêncio é a única linguagem permitida nesta casa hoje.

— Pobre coitado — murmuro baixo, só para mim. — Se imagina que vai me dominar, está enganado. Estou sendo jogada na fogueira contra a vontade, mas não queimarei sozinha.

A criada prende a última mecha do meu cabelo e me guia pelo braço. O chão de pedra sob os pés descalços (tiraram meus sapatos para a foto, disseram) está frio e irregular. O aroma das flores e das folhas molhadas define o jardim. Música instrumental suave paira no ar, quase ofensiva na sua tentativa de maquiar a verdade. Eu não vejo os fotógrafos nem os jornalistas, mas os sinto: o clique discreto das máquinas, o farfalhar de papéis, a respiração contida de quem registra a grande notícia do ano — a união entre Castilho e Torrenegro. Uma união de sangue e dívida. Uma encenação perfeita.

A cerimônia é rápida, fria e mecânica. O juiz fala com voz de quem já repetiu as mesmas palavras mil vezes. Eu respondo quando preciso. Fernando permanece ao meu lado como uma presença densa, silenciosa, calculada. Seu perfume — madeira escura, algo metálico por baixo — invade meu espaço a cada respiração. Quando o juiz diz “pode beijar a noiva”, um alerta atravessa meu peito como fio elétrico.

Ele não vai ter coragem, penso.

Mas Fernando me beija.

O contato é rápido e preciso, quase burocrático. Lábios firmes, secos, sem pressa de aprofundar. Um selo de pele e sal. Porém eu sinto o tremor. Um milésimo de segundo em que a boca dele hesita sobre a minha. Uma falha ínfima na armadura de controle. Ninguém mais notaria. Eu noto porque não enxergo o mundo com os olhos. Eu o sinto com o corpo inteiro — a temperatura da pele, a tensão nos músculos do maxilar, o leve atraso no batimento que se transmite pelo toque.

Naquele milésimo, Fernando Torrenegro deixa de ser apenas o mafioso cruel cujo nome assombra corredores de poder. Ele se torna homem de carne, sangue… e medo.

Não medo de mim. Homens como ele não temem o inimigo visível. O que o assusta é o que carrega dentro do peito e não consegue conter. O que lateja quando a lógica falha. O que arde quando o ódio, por um instante, vacila.

Naquele beijo contido, eu percebo: Fernando teme sentir.

E isso me entrega o primeiro fio de poder.

Permaneço imóvel. Não por submissão. Nunca. Mas para escutá-lo. O silêncio de Fernando é um campo minado — denso, carregado, quase insuportável para quem não aprendeu a respirar entre as ausências. Há raiva nos gestos que ele reprime. Há tensão na forma como se desloca, como se cada movimento fosse um cálculo para não explodir por dentro. E há desejo. Não o desejo sujo e imediato dos homens que me cercaram a vida inteira, lobos disfarçados de gentileza. O dele é outro. É desejo acorrentado, sufocado, envergonhado de existir. O tipo que grita calado e queima sem mostrar a chama.

Quando ficamos sozinhos no quarto, o ar muda. A casa parece prender a respiração. Até as paredes sabem que o que começa ali não é um casamento — é uma guerra silenciosa entre dois mundos que nunca deveriam ter se tocado.

Sento-me na beira da cama. O vestido de noiva ainda gruda na pele como uma segunda camada de silêncio. Pesado. Sufocante. Símbolo da prisão em que me jogaram. Mas eu não sou prisioneira. Sou estrategista. Deixo que ele tome a dianteira apenas o tempo necessário para medir o terreno. Depois pergunto o que precisa ser perguntado:

— Você vai me despir como parte da punição ou da cerimônia?

Minha voz sai firme. Sem tremor. Sem doçura. Uma lâmina embainhada em palavras.

Sinto o baque. Ele não esperava. Homens como Fernando estão acostumados a dobrar mulheres, a ler submissão até nos olhos que fingem orgulho. Eu não ofereço doçura. Ofereço espelhos. E espelhos cegam quem não suporta a própria imagem.

Ele hesita. No intervalo entre minha pergunta e a resposta dele, algo rachou.

— Não vou te tocar hoje — diz por fim. A voz é baixa, controlada, mas carrega um peso que não consegue esconder por completo. — Ainda não.

Aquela pequena concessão não é gentileza. É uma batalha vencida dentro dele.

O alívio escorre pelas minhas costelas como um suspiro libertado. Não apenas por me manter intacta. Porque, naquele instante, Fernando escolheu não ser o monstro que todos dizem que ele é. E isso me confunde. Parte de mim quer odiá-lo com a mesma força com que fui marcada por homens menores, de alma apodrecida. Mas Fernando não me repugna. Ele me intriga. Ele se afasta de mim — não literalmente, mas energeticamente — como se eu fosse a única ameaça que ainda não sabe como controlar. E essa fuga dói em algum lugar que ainda não tenho nome.

Quando a porta se fecha atrás dele, o quarto volta a respirar. Deito-me com o vestido ainda no corpo, um cadáver elegante de uma festa que nunca começou. Passo as mãos pela colcha. A textura é firme, luxuosa, fria sob os dedos. Deslizo as pontas dos dedos pelas bordas do criado-mudo, pela madeira lisa que guarda histórias que meus olhos nunca verão, mas que minhas mãos leem como braile emocional. O som da lâmpada trêmula. O perfume do jasmim envelhecendo no vaso. O tic-tac discreto de um relógio de parede. Tudo compõe a sinfonia da solidão. E eu a conheço bem.

Não é o escuro que me assusta. É a ausência de verdade.

Neste quarto, a única verdade que resta é o nome que ecoa como tambor dentro do meu peito: Fernando.

Cada batida do meu coração soa como a presença dele. Como se, mesmo do outro lado da porta, ele ainda estivesse impregnado em mim. Como se o beijo rápido e seco tivesse deixado um traço invisível que queima sob a pele.

Não me odeio por isso. Apenas registro. Odiar seria entregar poder demais a uma emoção que ainda não compreendo.

Fernando é feito de sombras. E as sombras só existem porque há luz — por mais mínima que seja. Eu quero encontrar essa luz. Porque, se conseguir, talvez descubra o que o assombra tanto. Será culpa? Arrependimento? Amor afogado no pântano da vingança?

Ele me quer como símbolo. Como moeda. Como lembrança viva do homem que odeia: meu pai. Mas esqueceu uma coisa essencial. Símbolos têm poder. Moedas têm valor. E lembranças corroem mais do que qualquer bala.

Sou a filha do inimigo e a mulher que ele pretende usar. Ao mesmo tempo, sou a única que consegue ver o que ninguém mais vê — não com os olhos, mas com a alma. Fernando Torrenegro carrega morte nos passos, sim. Mas também dor. Uma dor tão antiga, tão entranhada, que ele já se esqueceu de onde começou. E talvez — só talvez — eu consiga decifrá-la.

Isso não é salvação. É guerra.

Porque eu também tenho minhas cicatrizes. Meu corpo pode não carregar feridas visíveis, mas a cegueira me moldou. Aprendi a caminhar em becos escuros onde a vida tenta roubar o nome e a dignidade. Aprendi a ouvir os sons que os outros ignoram, a interpretar silêncios como mapas, a usar o medo como guia. É com essa força que vou enfrentá-lo. Não com gritos. Não com lágrimas. Com precisão.

Se Fernando Torrenegro quer jogar, vai aprender que no escuro sou eu quem reina, caça e vence.

Amanhã, perante a imprensa, serei oficialmente sua esposa. O que ele ainda não percebeu é que esse papel pode ser a chave do fim ou o estopim de uma nova guerra.

Levanto da cama. Os pés descalços tocam o chão frio. Com as duas mãos, agarro o tecido do vestido de noiva na altura do peito e puxo o zíper para baixo até o fim, sentindo o cetim escorregar pelos ombros e se acumular no chão como uma cascata de seda morta, enquanto o ar gelado do quarto marca cada centímetro da minha pele descoberta.

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