Capítulo 10 Mãe sofredora
Dona clara narrando
Eu não preciso de espelho pra saber que tô envelhecendo, não, o espelho mais fiel é a dor nas juntas, o cansaço nos ossos, a noite mal dormida pensando nos filhos, e ultimamente, ultimamente a preocupação com a minha Sofia tá me consumindo igual fogo em palha seca. Acordei hoje com o coração apertado, daquele jeito que a gente sabe que o dia não vai ser bom, sabe, aquela sensação no peito que não é infarto mas é quase, porque infarto de mãe é ver o filho sofrer e não poder fazer nada.
Olhei pro lado, a cama da Sofia vazia, ela já tinha saído, como sempre, quatro da manhã, correndo pra limpar a casa dos outros enquanto a minha casa ficava sem atenção, sem carinho, sem a presença dela que eu tanto preciso. João ainda dormia, o remédio que o Caio comprou fez efeito, a febre baixou, ele respirou melhor essa noite, e eu agradeci em silêncio, agradeci mesmo sabendo que aquele remédio vinha de mão suja, vinha de bandido, vinha de homem que não devia se aproximar da minha filha.
Mas agradeci.
Porque mãe é isso, mãe agradece até do diabo se o diabo curar o filho.
Levantei devagar, a coluna doendo, o joelho rangendo, fui pra cozinha, coloquei a água pra ferver, fiz um café fraco porque o forte tava caro, e sentei na mesa, olhando pro nada, pensando na vida, pensando na minha Sofia, pensando no que eu ia fazer pra proteger ela desse mundo que tava engolindo a gente. Minha filha sempre foi forte, sempre foi batalhadora, desde pequena, desde que o pai dela foi embora e deixou a gente com dívida e vergonha, a Sofia assumiu o lugar de homem da casa, mesmo sendo só uma criança, mesmo tendo mão de criança, ela ia, ia, ia, nunca reclamava, só trabalhava e calava, trabalhava e calava. E agora, agora ela tava se apaixonando, e eu deveria ficar feliz, não deveria? Toda mãe quer ver o filho feliz, quer ver o filho amado, quer ver o filho com alguém que cuide, mas o Caio, o Caio não era qualquer alguém, o Caio era o filho do Zé, o herdeiro do morro, o homem que carregava arma e poder e morte na sombra, e eu, eu que já perdi tanto na vida, não podia perder minha filha também.
Tomei o café amargo, olhei pro céu cinza lá fora, e decidi, decidi que ia falar com ela, ia falar sério, ia abrir o coração, ia pedir, ia implorar se precisasse, porque amor de mãe é maior que orgulho, é maior que medo, é maior que tudo. O dia foi passando, fiz a comida, lavei a roupa, arrumei a casa, cuidei do João, e a Sofia não chegava, e o tempo passava devagar igual água de torneira pingando, e a ansiedade crescia, crescia, crescia. Quando ela chegou, já era noite, o sol tinha ido embora, a lua tava aparecendo, e ela entrou com aquele sorriso no rosto, aquele sorriso que eu não via há anos, aquele sorriso que iluminava o barraco inteiro.
— Mãe, cheguei — ela disse, me beijando no rosto. — Tá com fome? Trouxe um pão que a dona Helena me deu, e um pouco de leite.
— Tô com fome não, filha, tô com preocupação.
O sorriso dela sumiu na hora, porque ela me conhece, sabe quando eu tô séria, sabe quando eu não tô brincando, sabe quando a mãe dela tá com o coração na mão.
— O que foi, mãe?
— Senta aqui, Sofia, senta e conversa comigo.
Ela sentou, os olhos arregalados, a mão ainda segurando o pão e o leite, e eu respirei fundo, respirei como quem vai pular de um lugar alto, porque o que eu ia falar não era fácil, não era bonito, não era o que ela queria ouvir.
— É sobre o Caio, filha, eu sei de tudo, sei do remédio, sei da carona, sei do beijo no beco, a Lurdes me contou, e não vem dizer que ela é fofoqueira porque ela só tava preocupada, igual eu, igual todo mundo que te ama.
— Mãe, deixa eu explicar...
— Explica nada, Sofia, escuta o que eu tenho pra dizer primeiro, depois você fala, tá?
Ela calou, o olho marejado, a mão tremendo, e eu segurei as mãos dela, as mãos calejadas, as mãos cortadas, as mãos que trabalharam mais do que qualquer pessoa merece.
— Eu sei, filha, eu sei que você tá apaixonada, eu sei que ele te trata bem, eu sei que ele comprou o remédio do seu irmão, eu sei que ele te deu carona, eu sei de tudo, mas isso não muda o que ele é, Sofia, ele é bandido, ele é filho de bandido, ele vive de bandidagem, e bandidagem, minha filha, bandidagem só traz desgraça, já trouxe desgraça pra essa família, já trouxe desgraça pro morro, já trouxe desgraça pra todo mundo que se envolveu.
— Mãe, ele quer mudar, ele me disse, ele quer sair disso, quer fazer coisa certa, quer...
— Quer, quer, todo bandido quer quando conhece uma mulher, todo bandido promete mudar quando o amor aparece, mas muda mesmo, Sofia? Muda? Você conhece algum bandido que virou santo? Conhece algum traficante que largou a arma e foi trabalhar de carteira assinada?
Ela não respondeu, porque não tinha resposta, porque a verdade era dura, era amarga, era cruel.
— Eu sei que você quer acreditar, filha, eu sei que o amor faz a gente acreditar, eu também já fui nova, eu também já amei, e o pai de vocês, o seu pai, ele também prometeu, prometeu mudar, prometeu arrumar emprego, prometeu cuidar da gente, e o que aconteceu, Sofia? O que aconteceu? Ele sumiu, foi embora, deixou a gente com dívida, com fome, com vergonha, e nunca mais voltou, nunca mais mandou um dinheiro, nunca mais perguntou como vocês estavam.
As lágrimas começaram a cair, não as dela, as minhas, porque falar do passado dói, dói igual faca, dói igual parto, dói igual perder.
— Eu não quero que você passe pelo que eu passei, filha, eu não quero ver você sozinha, grávida, desesperada, esperando um homem que não volta, esperando um homem que vai preso, esperando um homem que morre, porque nesse mundo, Sofia, nesse mundo bandido morre, e sobra mulher pra chorar, sobra filho pra passar fome, sobra dor pra carregar.
Ela chorava agora, chorava comigo, e eu segurei o rosto dela, enxuguei as lágrimas com o polegar.
— Mas mãe, eu amo ele, eu nunca amei ninguém assim, eu nunca me senti viva assim, e quando tô com ele eu esqueço da faxina, esqueço da humilhação, esqueço da fome, esqueço de tudo, ele me faz bem, ele me faz sorrir, ele me faz acreditar que eu mereço mais.
— Você merece mais, minha filha, você merece tudo, mas não com ele, não com alguém que pode te destruir sem querer, não com alguém que tem inimigo que pode te usar como alvo, você já pensou nisso? Já pensou que os inimigos dele podem te machucar, podem machucar o João, podem machucar a gente, só pra atingir ele?
Ela ficou em silêncio, os olhos perdidos, e eu vi naquele olhar que ela não tinha pensado, que ela tava cega de amor, cega de esperança, cega de sonho.
— Mãe, o que eu faço? — ela perguntou, e a voz dela era de criança, era de menina, era de filha que não sabe o caminho. — Eu não sei se consigo largar ele, eu não sei se consigo viver sem ele, e eu não sei se consigo viver com ele sabendo do perigo.
— Você tem que escolher, filha, e eu não posso escolher por você, mas eu posso te dizer uma coisa, a vida é feita de escolha, e cada escolha tem consequência, você escolhe ficar com ele, vai ter que aguentar o peso, vai ter que aguentar a guerra, vai ter que aguentar o medo de todo dia, você escolhe largar, vai doer, vai ser difícil, mas você sobrevive, você sempre sobreviveu, minha filha, você é forte, você é mais forte do que imagina.
Ela se jogou no meu colo, igual quando era criança, igual quando se machucava e vinha correr pros meus braços, e eu abracei ela com toda força que eu tinha, com todo amor que cabia no meu peito cansado.
— Eu não quero que você se machuque, Sofia, eu não quero perder você, você é tudo que eu tenho, você e o João, e eu não suportaria, não suportaria ver você sofrer, ver você chorar, ver você se perder por causa de amor.
— Eu sei, mãe, eu sei.
A gente ficou assim, abraçada, chorando junto, o barraco escuro, a lua entrando pela fresta, o João dormindo no quarto, e eu senti, senti que a minha filha tava dividida, tava partida, tava entre o amor e o medo, entre o coração e a razão, e eu, mãe, mãe sofredora, mãe guerreira, mãe que já viu tanto, só podia estar ali, segurando ela, deixando ela chorar, deixando ela sentir. Porque às vezes, às vezes a única coisa que a gente pode fazer é estar presente, é ouvir, é abraçar, e torcer, torcer pra que o amor, mesmo o amor bandido, mesmo o amor perigoso, não destrua o que a gente construiu com tanto suor e lágrima. Quando ela se acalmou, levantou, foi pro quarto, deitou na cama, e eu fiquei ali, sentada na cozinha, olhando a xícara de café frio, o pão que ela trouxe, a vida que a gente tem, e eu orei, orei em silêncio, orei com a alma, orei como só mãe sabe orar.
— Deus, protege a minha filha, protege o coração dela, protege os passos dela, e se for pra ser, se for pra ela amar esse homem, que o amor seja bom, que o amor não destrua, que o amor não mate, que o amor seja, pelo menos, um pouco de paz nessa vida tão dura.
E no meio da noite, quando eu já tava quase dormindo, ouvi o celular da Sofia vibrar, ouvi ela atender baixinho, ouvi a voz dela sussurrando:
— Oi, Caio.
E no silêncio da madrugada, eu entendi, que o amor não pede licença, entendi que o amor não obedece mãe.
O amor simplesmente é.
E eu, mãe sofredora, só podia esperar, confiar, e estar pronta, pronta pra segurar minha filha se a queda viesse, pronta pra enxugar as lágrimas se o amor machucasse, pronta pra ser
o colo que ela sempre teve. Porque isso é ser mãe, isso é amar, é sobreviver.
