Capítulo 2 O Herdeiro do Morro

Caio narrando

A boca de fumo fica lá em cima. De onde eu tô, dá pra ver a cidade inteira. Os riquinho lá embaixo, com seus carros brilhando e suas vidinha sem sal. E aqui em cima? Aqui em cima a gente manda.

— Cê tá ouvindo o que eu tô falando, porra? — Meu pai tá na minha cara. Hálito de pinga e bala. Olho de quem já matou mais homem do que eu conheci na vida. — Um dia isso aqui vai ser teu. Tu vai sentar na cadeira que eu sento. E não pode ser moleque, Caio. Moleque não comanda. Moleque obedece. Tu entendeu?

Entendi. Sempre entendi. Desde que me entendo por gente, escuto isso. Eu tenho vinte e três ano. Cria do Jacarezinho, mas não sou qualquer um. Sou Caio Silva. Filho de Zé da Silva. O Zé. O próprio. O cara que botou medo nos bandido da zona sul. O cara que ninguém encara sem tremer.

Eu sou o herdeiro.

E sabe o que isso significa? Que eu não posso vacilar. Nunca. Se eu mostro fraqueza um segundo, já tem quinze querendo tomar meu lugar. Já tem nove na linha de tiro querendo provar serviço. Já tem um monte de olho esperando eu pisar fora da linha.

— Tá de boa, pai — respondo, acendendo um cigarro. — Não vou te decepcionar.

— Tu já me decepcionou — ele corta. Sobe o dedo na minha cara. — Na semana passada tu deixou o André passar por cima. O André! Aquele verme. Ele deu entrevista pro jornal, falou que aqui no morro quem manda é ele, e tu não fez nada.

— Ele vai cair. Tenho plano.

— Plano? Plano de menino de condomínio. Tu não é playboy, Caio. Tu é o bagulho mais sinistro dessa porra. Quero o sangue dele até sexta.

Ele vira as costas e some na escada. Sobrou eu. Lá em cima, no morro, venta frio. Mas eu tô suando. Não é medo. É ódio.

O André.

Esse nome martela na minha cabeça.

Fico olhando o céu, tragando o cigarro. Penso em nada. E penso em tudo. Como é que eu vou fazer pra matar esse arrombado sem dar confusão? Como é que eu vou mostrar pros outros que eu sou o bicho?

Meu telefone toca.

É o Rafa. Meu braço direito. Fiel. A gente cresceu junto, desviou tiro junto.

— E aí, mano. A casa do André tá limpa. Tem nóis três na esquina, dois na rua de trás.

— Não vai ser hoje. O velho quer pra sexta.

— Caralho, Caio. O velho não pode esperar não? A gente tava pronto.

— É o que tem. Espera. Mas não tira o olho.

Desligo.

Desço o morro de moto. Capacete? Nem pensar. Quero que vejam minha cara. Quero que saibam que eu tô passando. Os menorzinho acenam.

— Salve, Caio.

Aceno com a cabeça. Não sorrio. Sorrir é fraqueza. Na rua de baixo, um carrão preto importado tá estacionado na vaga que era pra ser minha. Quase que eu paro. Quase que eu volto e meto bala nos pneu. Mas não. Hoje não. Hoje eu tô manso. Estaciono a moto num canto. Tiro o fone do bolso, coloco um rap, ando devagar. Tem uma mina na calçada. Me olha. Eu olho de volta. Ela desvia. Tô acostumado. As mina me olha e desvia. Não encara. Dizem que meu olho é pesado.

O que eu sei é que o respeito é meu. As bocas, o ponto de jogo, os carro, tudo é meu. Ou melhor, é do meu velho. Mas vai ser meu. Entro no bar da dona Lurdes. Ela é velha, mas conhece a quebrada toda. Boa pra ter informação.

— Caio, meu filho — ela já vem com um copo de refrigerante. Sabe que eu não bebo pinga. Beber é pra quem não tem o que perder. — Tá sumido.

— Correria, dona Lurdes. Bota um pão com ovo também, por favor.

— Já vai, já vai.

Enquanto ela prepara, encosto na parede. Observo. O morro tá quieto. Quieto demais. A guerra com o André não vai demorar. E quando começar, vai sobrar sangue no asfalto. Mas também vai sobrar uma cadeira vazia.

A cadeira do meu pai.

E eu vou sentar nela.

— Pronto, meu filho.

Dona Lurdes me entrega o prato. Como ali mesmo, rápido. Compro mais dois pão com ovo pra viagem. Pra levar pra minha mãe. Ela pede, mas eu sei que às vezes ela não come não. Só pra não me preocupar. Minha mãe é foda. Dona Vera. Mulher de bandido, mãe de bandido. Mas nunca deixou faltar nada em casa. Ela que segurava a barra quando meu pai era preso. Ela que chorava escondido. Mas não chora mais. Não. Ela já viu tanto. A gente já viu tanto. Saio do bar. A favela é cinza, feia, cheia de fiação e rato. Mas é minha. O sol vai se pondo. A luz fica laranja. É bonito e feio ao mesmo tempo. Igual a vida aqui.

Vou subindo a ladeira. Tô pensando no André. Tô pensando no meu pai, pensando no que eu vou ser quando tudo isso acabar. Porque uma hora acaba, né? Uma hora eu vou ser dono disso tudo. E aí? Aí o que?

Não sei.

Só sei que não posso fraquejar. No meio do caminho, escuto um choro. Não choro de criança. É choro de adulto. Choro sufocado. Aquele que a pessoa tenta esconder mas não consegue.

Paro.

Olho pro lado. Tem um beco escuro. E nesse beco, uma mulher. Ela tá sentada no chão, de costas pro muro. A cabeça baixa. Os ombros tremendo. Tem uma sacola de pano do lado. Deve ser uma das faxineira. Normalmente, eu passo reto. Que se foda. Cada um com sua dor.

Mas alguma coisa me faz parar.

Não sei o que. Alguma coisa no jeito que ela chora. É um choro pesado. Doido. Choro de quem tá cansada de aguentar. Ela levanta a cabeça.

Me vê.

Nossos olhos se encontram.

Caralho.

Os olhos dela tão vermelhos. Mas brilham. Brilham de um jeito que nenhuma mina aqui brilha. Ela me olha sem medo. Sem desviar.

Só me olha. Meu peito aperta. O que é isso? Nunca senti isso. Ela limpa o rosto com as costas da mão, pega a sacola, levanta rápido.

— Desculpa — ela fala, com a voz falhando. — Não era pra ninguém ver. Não tô pedindo nada não, moço.

Moço. Ela me chamou de moço.

Ninguém me chama de moço. Me chamam de patrão, de chefe, de cara, de mano, de fala, Caio. Mas moço? Nunca.

— Cê tá bem? — Pergunto. E eu nunca pergunto se alguém tá bem. Nunca.

Ela hesita. Dá um passo pra trás.

— Tô. Obrigada.

Não tá. Óbvio que não tá.

Mas ela vai embora. Sobe a ladeira rápido, sem olhar pra trás. Eu fico ali parado. Ó o barato doido. Uma faxineira chorando no beco. Isso não era pra me afetar. Mas afetou. Caralho, como afetou. Tiro outro cigarro. Acendo. Trago. O nome dela? Não sei. Mas vou saber. Alguma coisa naquele choro mexeu aqui dentro de mim. Mexeu num lugar que nem arma, dinheiro ou poder mexe. E eu, Caio, herdeiro do morro, nunca senti vontade de proteger ninguém.

Até hoje.

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