Capítulo 3 Humilhação na sala de jantar
Sofia narrando
Eu corria pro trabalho no dia seguinte. Ainda doía o peito. Ainda ardia a garganta de chorar. Mas não tinha tempo. O mundo não para porque a Sofia está triste. No outro dia, o despertador tocou quatro da manhã.
Quatro.
Acordei com o braço pesado. João tava com febre, minha mãe roncava no colchão ao lado. Levantei devagar pra não acordar ninguém. Escovei os dentes na pia da cozinha. Não tinha água quente. Faz meses que não tem. Vesti a mesma calça jeans de sempre. A camiseta branca manchada. Amarrei o cabelo. Peguei a sacola com os panos e a garrafa de água.
Antes de sair, beijei a testa de João.
— A mamãe volta logo — sussurrei, mesmo sabendo que ele não escutou.
Desci o morro no escuro. As ruas vazias. Só os cachorros latindo e algum viciado vagando. Cruzei com um deles, ele nem me viu. Às vezes, eu penso que sou invisível. Que ninguém me enxerga. No asfalto, o movimento começava. Os carros passavam rápido. A cidade acordando enquanto eu já estava de pé há horas.
Hoje era terça.
Terça é o dia da casa da dona Míriam. Meu estômago embrulhou só de lembrar. Dona Míriam é o tipo de patroa que te trata igual lixo e acha que tá fazendo favor. Mora num sobrado enorme no início do asfalto. Marido advogado. Filha na faculdade particular. Cachorro de raça que come carne nobre. E eu, a faxineira que limpa a bosta do cachorro.
Cheguei às sete.
Ela já tava na sala, tomando café numa xícara de porcelana, com robe de seda. Me olhou dos pés à cabeça.
— Você está atrasada — disse, sem nem bom dia.
Olhei pro relógio da parede. Sete e dois. Dois minutos.
— Desculpa, dona Míriam. O ônibus...
— Não quero saber de desculpa. Quero serviço feito. Começa pela cozinha, que ontem a empregada noturna deixou tudo bagunçado.
A empregada noturna. Tinha até empregada noturna. E eu limpava o que ela não limpava.
— Sim, senhora.
Comecei na cozinha. Louça empilhada, resto de comida secando nas panelas. Molho de tomate na parede. Gente rica é tão suja quanto pobre. A diferença é que eles têm quem limpe. Lavei, esfreguei, sequei. Pus tudo no lugar. A geladeira tava cheia. Comida que estragava porque compravam demais. Pensei no João comendo arroz com ovo todo dia. Quase chorei de novo. Mas não chorei. Choro não enche barriga.
Passei pra sala. Aspirei o tapete persa. Tirei o pó dos móveis de madeira. Lustrei o vidro da mesa de centro. Tudo brilhando.
— Vem pra sala de jantar — dona Míriam chamou, lá das escadas. — A cristaleira tá horrível.
Cristaleira.
Armário cheio de copos e taças que eles usam duas vezes por ano. Mas tem que brilhar. Tem que mostrar pros outros que são ricos. Peguei o pano e o produto específico. Ela me ensinou uma vez.
— Não pode usar qualquer coisa. Isso é cristal, Sofia. Cristal. Vale mais que seu salário do mês.
Pois é.
Comecei a limpar cada peça. Uma por uma. Devagar. Com cuidado. As mãos tremiam de cansaço. Mas eu mexia como se fosse uma cirurgia. Dona Míriam sentou na ponta da mesa, tomando outro café. Me vigiava. Era assim. Ela não trabalhava. Não fazia nada. Só ficava ali, olhando.
— Você limpou o banheiro?
— Limpei, sim, dona.
— E a área de serviço?
— Também.
— E o quarto de hóspedes?
Fiz uma pausa. O quarto de hóspedes não estava na lista.
— A senhora não tinha pedido...
— Não interessa o que eu pedi. Interessa o que precisa ser feito. Você tem que ter iniciativa, Sofia. Faxineira que espera ordem não serve. Acorda.
Apertei os lábios.
— Vou limpar agora.
— Depois da cristaleira.
— Sim.
Continuei. Passava o pano, enxugava, guardava. Uma taça. Outra. Um prato decorado. Um bolo de vidro. Até que uma das taças escorregou. Não foi culpa minha. Meu dedo tava molhado. O pano tava úmido. O vidro era liso.
Mas escorregou.
Eu vi ela caindo em câmera lenta. Girando no ar. Refletindo a luz do sol. E então...
TCHIM!
Estilhaços. Vidro pra todo lado.
Silêncio.
Dona Míriam levantou devagar. O rosto dela mudou. Não era mais olhar de desprezo. Era olhar de ódio.
— O que você fez?
— Senhora, me desculpa, eu não quis...
— NÃO QUIS? — Ela gritou. Gritou tanto que a voz ecoou no sobrado todo. — SABE QUANTO CUSTA ESSA TAÇA? DUZENTOS REAIS! DUZENTOS REAIS, SUA IMBECIL!
Eu recuei. Meu corpo tremia.
— Eu pago, dona Míriam. Eu juro que pago. Deixa eu pagar em...
— PAGAR? COM O QUE? COM ESSA SUA VIDA DE MISÉRIA? VOCÊ NUNCA VAI TER DUZENTOS REAIS SOBRANDO. NUNCA! VOCÊ É UMA FALIDA. UMA ZÉ NINGUÉM. UMA BICHINHA QUE LIMPA CHÃO DOS OUTROS.
Cada palavra era um tapa. Ela chegou mais perto. Apontou o dedo na minha cara.
— Sabe qual é o seu problema, Sofia? Você acha que pode ser igual. Mas não pode. Você é e sempre será uma faxineira. E faxineira se lasca mesmo. Pisa em vidro, se corta, e ninguém liga. Porque você não é ninguém.
Meus olhos marejaram. A vontade era correr. Sumir. Mas meu corpo não obedecia. Congelou. Ela se aproximou mais. O robe dela encostou em mim.
— Vai catar esse vidro tudo com a mão. Agora. E depois você vai embora. E não volta mais. Não quero ver sua cara fedida aqui nunca mais.
Ajoelhei.
Com as mãos nuas. Os cacos pequenos cortavam meus dedos. Vi sangue. Vi lágrimas caindo no chão misturadas com vidro. Mas eu continuei. Porque se eu não catasse, ela não me pagaria o dia. E eu precisava do dinheiro. Precisava do remédio do João. Catei cada caco. A mão sangrando. O joelho no chão. A alma também. Quando terminei, ela jogou uma nota de cinquenta na mesa.
— Toma. Mais do que você merece. Agora some.
Peguei a nota com a mão cortada. Guardei. Levantei. Na saída, a filha dela apareceu na escada. Me olhou. Não falou nada. Só desviou o olho. Ela tem vergonha de mim. Ou vergonha da mãe? Não sei. Não importa. Desci a calçada. O mundo tava claro demais. O sol doía nos olhos. A mão doía mais. Fui andando sem direção. O corpo tremia. A respiração ficava curta. Entrei num beco qualquer. Não conseguia mais andar. Sentei no chão. Apoiei as costas no muro úmido. Olhei pra minha mão. Sangue nos dedos. Vidro preso na pele.
E aí...
Aí veio tudo.
O choro não foi da boca. Foi de dentro. De um lugar fundo. O lugar onde eu guardo cada humilhação, cada tapa, cada você não é ninguém. Chorei igual criança. Com soluço. Com ranho escorrendo. Com as pernas encolhidas.
— Por que... por que... — repetia, como se alguém fosse responder.
Ninguém respondeu.
Até que alguém apareceu. Um homem. Não vi o rosto direito. Só vi que era grande. Impunha presença. Ele parou na entrada do beco. Eu levantei a cabeça. Olhos escuros. Rosto sério. Tatuagem no pescoço.
Meu coração quase parou.
— Cê tá bem? — ele perguntou.
A voz não combinava com o tamanho. Era quase... doce. Limpei o rosto. Peguei a sacola. Levantei, mesmo com o corpo pesado.
— Desculpa — falei com a voz falhando. — Não era pra ninguém ver. Não tô pedindo nada não, moço.
Moço.
Por que eu chamei ele de moço? Ele me olhou de um jeito estranho. Diferente. Não era o olhar de dó. Nem de nojo. Era... eu não sei. Só sei que me deu medo. E ao mesmo tempo, uma vontade de ficar.
Bestagem minha.
Virei as costas e subi o morro. A mão doendo. O peito doendo. A alma doendo. Não olhei pra trás. Mas juro que senti os olhos dele na minha nuca até o fim da ladeira.
