Capítulo 4 Olhos que viram além
Caio narrando
A mina sumiu na ladeira, mas os olhos dela ficaram, sabe, os olhos vermelhos de chorar, marejados, mas com um brilho que eu nunca vi em ninguém aqui do morro, não era brilho de medo ou de pedido, era brilho de luta, de quem tá no chão mas não se entrega, e aquilo me pegou de um jeito que eu não tava esperando.
Fiquei ali parado no beco, encostado no muro, fumando um cigarro atrás do outro, pensando, e eu não sou de pensar muito não, quem pensa demais vacila, e quem vacila morre, meu pai sempre disse isso, então eu geralmente só ajo, mas naquela noite eu pensei, caralho, pensei na mão dela toda cortada, pensei no jeito que ela levantou e saiu andando sem pedir nada, pensei no "moço", a porra do "moço" que saiu da boca dela.
— E aí, patrão, tá de boa? — A voz do Rafa me tirou do transe, ele chegou na minha direção com dois copos de refri na mão, tinha ido no bar buscar. — Tá parecendo um poste parado aí, mano.
Peguei o copo, bebi um gole, a coca gelada ardeu na garganta.
— Quem é a mina que faxina ali no beco de cima, Rafa.
— Qual mina, cara tem um monte, aqui é o morro, tem mulher pra caralho limpando casa de rico e voltando com fome.
— Baixa, cabelo escuro, magra, olho meio puxado, chorava igual o fim do mundo.
Rafa pensou, coçou a barba, aí deu um sorriso safado.
— Ah, cê tá falando da Sofia, a faxineira que todo mundo humilha, a mãe dela é a Dona Clara, mora lá no alto, tem um pivete doente, o pai sumiu faz tempo, a mina rala igual condenada pra sustentar todo mundo, mas é quieta, não se mete, só trabalha e chora calada, os rico trata ela igual lixo, mano, já vi cada história, dá ódio.
Sofia.
O nome ecoou na minha cabeça igual tiro de fuzil.
— Por que o interesse, Caio? Tá afim da mina? Ela é bonita, mas é pobre de doer, véi, não é do teu mundo não.
— Que se foda o mundo — respondi, mais seco do que devia, e vi o Rafa arquivar a sobrancelha, porque eu nunca falo assim, nunca me importo com ninguém.
Larguei o copo vazio no muro, acendi outro cigarro, e disse.
— Quero saber quem humilhou ela hoje, vai lá, descobre, pergunta pra dona Lurdes, pergunta pros menor, quero nome e endereço.
— Caralho, Caio, tu vai arrumar treta com os rico por causa de uma faxineira? O teu pai vai pular no teto, mano, cê tá louco.
— O meu pai não precisa saber — olhei bem no olho do Rafa, e ele entendeu, porque ele sempre entende, a gente se conhece desde pivete, desviando bala junto. — Vai, porra.
Ele foi, reclamando baixo, mas foi.
Fiquei sozinho no beco, a noite já tava escura, o céu da favela é bonito mas é triste, as estrelas aparecem mas a luz do asfalto rouba o brilho, igual os rico roubam tudo da gente, e eu pensei na Sofia de novo, na mão dela cortada, nos olhos dela que viram além, que viram algo em mim que nem eu sabia que existia. Porque quando ela me olhou, mano, ela não me viu como bandido, não me viu como herdeiro, não me viu como Caio do morro, ela me viu como gente, como ser humano, como alguém que podia ouvir o choro dela sem querer nada em troca, e ninguém nunca me olhou assim, nem meu pai, nem minha mãe, nem as mina que se jogam em mim por causa do poder.
Só ela.
Uma faxineira.
Uma mina que limpa chão dos outros e leva esporro de patroa sem revidar. Mas tinha algo mais, tinha fogo naquele olho marejado, tinha uma força que nem ela sabia que tinha, e eu, Caio, que já vi tiro, já vi morte, já vi sangue escorrer no asfalto quente, nunca vi uma parada igual aquela, nunca senti vontade de proteger alguém igual senti naquele beco.
Terminei o cigarro, joguei a bituca no chão, pisoteie com a bota, e subi a ladeira devagar, pensando nela, nos olhos dela, na voz dela falando "moço", e sorri sozinho, porque no morro eu nunca sorrio, sorrir é fraqueza, mas ali, no escuro, sem ninguém ver, eu sorri. Rafa voltou uns vinte minuto depois, ofegante, todo suado.
— É a Dona Míriam, mano, aquela do sobrado amarelo, marido advogado, a Muié é foda, mó corna, o marido trai ela com a secretária, mas ela desconta nos outros, a Sofia tava limpando a casa dela hoje, derrubou uma taça de vidro, dois pila cada uma, e a véia surtou, humilhou a mina na frente de todo mundo, fez ela catar caco com a mão, a mão da Sofia ficou toda cortada, mano, igual tu falou.
Apertei os punhos.
Duas vezes.
Soltar.
— Anota o endereço — falei, com a voz baixa, mas o Rafa já me conhece, sabe que quando falo baixo é o pior sinal.
— Caio, pensa, véi, pensa direito, o teu pai já tá puto com a treta do André, se tu arruma mais confusão com advogado, com rico, vai sobrar pra tu, vai sobrar pra nois tudo.
— Eu falei anota o endereço, porra.
Rafa anotou.
Guardei no bolso, e antes de virar as costas eu falei.
— Não vai ser agora, não vai ser amanhã, mas um dia aquela mulher vai pagar pelo que fez com a Sofia, e ninguém, nem rico, nem pobre, nem polícia, vai me impedir.
— Mas por que, Caio? Por que tu tá se importando tanto com essa mina? Tu nem conhece ela direito.
Olhei pro céu, as estrela teimando em brilhar mesmo com toda a luz da cidade, igual a Sofia teimou em levantar mesmo com toda humilhação do mundo.
— Porque, Rafa, eu nunca vi ninguém tão quebrado e tão inteiro ao mesmo tempo, ela é foda, mano, ela é mais foda do que muito homem armado que eu conheço, e eu não vou deixar ninguém pisar nela nunca mais.
Rafa ficou em silêncio, sério, aí balançou a cabeça.
— Tá, mas cê tá apaixonado ou é loucura passageira?
Nem eu sabia responder aquilo, só sabia que os olhos da Sofia tinham visto além da minha casca de bandido, tinham visto algo que eu nem sabia que existia, e agora eu não conseguia parar de pensar nela, na mão cortada, no choro sufocado, no "moço" que saiu da boca dela igual uma oração.
— Vamos embora, Rafa — falei, virando as costas pro beco, pro passado, pra tudo que eu fui até agora. — Tenho o que pensar.
E eu tinha mesmo, tinha muito o que pensar, mas uma coisa eu sabia, uma coisa era certa, o herdeiro do morro tinha encontrado a única pessoa que podia mudar tudo, ou destruir tudo, e eu não sabia qual dos dois ia ser, só sabia que queria ver ela de novo, que queria ver os olhos dela sorrindo, sem lágrima, sem corte, sem humilhação. E por ela, mano, por ela eu tava disposto a arriscar o que fosse. Porque os olhos dela viram além,
viram o que ninguém viu, e eu não podia mais fingir que não tinha visto o mesmo.
