Capítulo 5 Faxina e silêncio

Sofia narrando

Dois dias se passaram desde a humilhação na casa da dona Míriam, dois dias que eu tentei esquecer o vidro quebrando, o dedo na minha cara, as palavras que ainda ecoavam dentro de mim igual uma sinfonia de ódio, mas não dava, não dava pra esquecer porque a mão ainda doía, os cortes ainda ardiam quando eu apertava o pano de chão ou torcia o esfregão. Minha mãe perguntou o que aconteceu, claro que perguntou, viu meus dedos enrolados em esparadrapo e os olhos vermelhos de tanto chorar escondido.

— Cai no beco — menti. — Fui pisar em caco de vidro quebrado, sabe como é, aqui no morro jogam lixo em qualquer lugar.

Ela não acreditou, eu vi no olhar dela, mas minha mãe também sabe que perguntar demais dói mais do que não saber, então ela só passou a mão na minha cabeça e disse:

— Toma cuidado, filha. Tu é tudo que eu tenho.

João melhorou um pouco da febre, graças a Deus, mas o remédio acabou, e o dinheiro da dona Míriam não deu pra comprar tudo, só deu pra comprar leite, pão, e um frango pequeno que minha mãe fez cozido pra durar três dias. Comer frango foi uma festa, mano, eu sei que parece bestagem falar isso, mas quando você passa dias comendo só arroz e ovo, um pedaço de frango molhado no caldo parece a melhor comida do mundo, e eu vi o João sorrir, vi minha mãe alisar a barriga satisfeita, e aquilo me deu força pra continuar.

Mas continuar, pelo amor de Deus, continuar como?

Na quarta-feira eu tinha duas casas pra limpar, a primeira era da dona Helena, uma senhora idosa que mora sozinha no asfalto, ela é boa, me trata bem, me oferece café e biscoito, às vezes até deixa eu levar umas roupas usadas pro João, ela é o tipo de patroa que faz a gente acreditar que nem todo rico é desumano. Cheguei na casa dela às oito da manhã, o sol já tava forte, subi os dois lances de escada com a sacola na mão e a mão ainda doendo, mas não reclamei, não reclamo nunca, porque reclamar é luxo de quem pode escolher.

— Bom dia, dona Helena — falei, com o sorriso que eu ensaio toda manhã no espelho quebrado do banheiro.

— Bom dia, filha, entra, entra, tá quente hoje, hein?

Ela me deixou uma garrafa de água gelada na mesa da cozinha, um copo limpo do lado, e um pacote de bolacha Maria aberto.

— Come antes de começar, Sofia, você tá magra, parece que não come direito.

— Como sim, dona Helena — menti de novo, porque a verdade é que eu tinha comido só um pedaço de pão com margarina no café da manhã.

Comi três bolachas, bebi a água, e comecei o serviço. A casa dela é pequena, dois quartos, sala, cozinha, banheiro, fácil de limpar, mas eu limpo com carinho porque ela merece, porque ela me olha nos olhos quando fala comigo, porque ela diz o meu nome, Sofia, não "faxineira", não "menina", Sofia.

Enquanto passava o pano na sala, pensava na segunda casa do dia, a casa da dona Sônia, e meu estômago já embrulhou só de lembrar. Dona Sônia é amiga da dona Míriam, elas se conhecem do clube, e palavras voam, amigo, palavras voam mais rápido que pombo, com certeza a dona Míriam já tinha ligado pra dona Sônia contando que a Sofia quebrou uma taça de duzentos reais, que a Sofia é desastrada, que a Sofia não presta, e eu ia chegar lá e pagar o pato de novo. Terminei na casa da dona Helena ao meio-dia, ela me pagou quarenta reais, me deu mais um pacote de bolacha e um refrigerante que tava quase vencendo.

— Toma, filha, pro seu irmão.

Quase chorei ali mesmo, quase, porque gesto de bondade dói mais que gesto de maldade quando você não tá acostumada, sabe, dói no peito, dói na alma, dói porque você lembra que existe gente boa no mundo e que talvez, talvez um dia você possa ser tratada assim sempre. Guardei tudo na sacola e fui andando até a casa da dona Sônia, fica uns quinze minutos a pé, no meio do caminho passei pelo mesmo beco onde chorei naquela noite, onde aquele homem de olhos escuros me perguntou se eu tava bem.

Olhei pro beco, ele tava vazio, só lixo e um cachorro magro, mas eu lembrei da voz dele, lembrei do "cê tá bem", lembrei do jeito que ele me olhou, e senti um arrepio, não era medo, era outra coisa, uma coisa que eu não sabia nomear.

— Bestagem sua, Sofia — murmurei pra mim mesma, sacudi a cabeça, e segui em frente.

A casa da dona Sônia é grande, dois andares, jardim na frente, carro na garagem, e ela mesma abriu o portão, já com a cara fechada.

— Atrasada — ela disse, sem nem bom dia.

Olhei pro relógio. Meio-dia e quinze. O combinado era meio-dia.

— O trânsito, dona Sônia...

— Não me interessa. A Míriam já me falou de você, viu? Disse que você é desastrada, que quebrou uma taça cara e não quis pagar.

Abri a boca pra me defender, mas fechei de novo, porque defesa é pra quem tem voz, e eu aprendi que a minha voz não vale nada nessas casas.

— Vou caprichar hoje, dona Sônia. A senhora vai ver.

— Tomara, porque se quebrar alguma coisa aqui, você vai trabalhar de graça por um mês pra pagar, está entendida?

— Sim, senhora.

Entrei, peguei os panos, a vassoura, o balde, e comecei a trabalhar. Silêncio. Eu trabalho no silêncio. Não coloco música, não canto, não falo sozinha, porque já me disseram que barulho de pobre incomoda, então eu aprendi a ser invisível, a passar pano sem fazer barulho, a abrir portas sem ranger, a respirar baixo. Dona Sônia foi pro quarto, ligou a televisão, e eu fiquei lá, sozinha na sala grande, limpando móvel por móvel, prateleira por prateleira, chão por chão.

Faxina e silêncio.

Essas duas palavras resumem minha vida, mano, faxina e silêncio, limpar o sujo dos outros e calar a minha própria sujeira, limpar a bagunça dos outros e guardar a minha bagunça dentro do peito, limpar, silêncio, limpar, silêncio, até o fim dos dias. O pano deslizava na madeira, o cheiro de cera subia, e eu pensei no João, na febre dele, no remédio que não comprei, na conta de luz que veio ontem no valor de duzentos reais, duzentos reais, a mesma taça que eu quebrei, ironia do destino. Pensei na minha mãe, nos cabelos brancos que apareceram antes do tempo, nos ombros curvados de tanto cargar peso, no sorriso triste que ela dá quando acha que eu não tô olhando.

Pensei no homem do beco, aquele de olhos escuros, tatuagem no pescoço, presença que dominava o espaço, e me perguntei por que ele tinha parado, por que ele tinha perguntado se eu tava bem, por que ele tinha me olhado daquele jeito, como se eu fosse alguém importante.

Importante.

Eu nunca fui importante pra ninguém. Sou a faxineira, a invisível, a que passa o pano e some, a que ninguém lembra o nome, a que se machuca e ninguém vê. Continuei limpando, a sala, a cozinha, o banheiro, o quarto de hóspedes que não tinha hóspede, a varanda que ninguém usava, tudo brilhando, tudo no lugar.

Foram cinco horas de trabalho, cinco horas de silêncio, cinco horas de mão doendo e mente calada. Quando terminei, dona Sônia veio vistoriar, passou o dedo no móvel, olhou o chão, abriu a geladeira, sim, ela abriu a geladeira pra ver se eu tinha limpado dentro, e eu tinha, claro que tinha, eu limpo tudo, sempre tudo.

— Está aceitável — ela disse, como se estivesse me fazendo um favor. — Toma.

Me deu sessenta reais.

Sessenta.

Cinco horas de trabalho, doze reais por hora.

— Obrigada, dona Sônia — falei, guardei no bolso, peguei minha sacola e fui embora.

Na rua, o sol já tava baixo, o fim da tarde chegando, as pessoas voltando do trabalho, os carros buzinando, a cidade viva, e eu, ali, no meio de tudo, me sentindo morta por dentro. Subi o morro devagar, as pernas pesadas, os ombros caídos, a alma doendo. Passei pela venda da dona Lurdes, parei, respirei fundo.

— Boa noite, dona Lurdes.

— Ah, menina, chega, chega, tá cansada, né?

— Tô.

— Sabe que o Caio perguntou por você anteontem?

Meu coração deu um pulo.

— Quem?

— Caio, o filho do Zé, o herdeiro do morro, ele tava aqui no bar, perguntou quem era a faxineira do beco de cima, eu falei que era você, ele ficou uns minutos calado, só pensando, depois foi embora. Estranho, ele nunca pergunta de ninguém.

O homem do beco.

Ele era o Caio.

O filho do traficante.

Meu sangue gelou.

— Ele... ele perguntou de mim?

— Perguntou. Mas não liga, menina, ele é bandido, mas é gente, não faz mal não, só toma cuidado, esse mundo não é pra nós.

Saí da venda com o coração acelerado, a cabeça girando, o homem do beco, o que me perguntou se eu tava bem, era o herdeiro do tráfico, o dono do morro, o cara que todo mundo tem medo.

E ele perguntou por mim.

Por que ele perguntou por mim?

Entrei em casa, minha mãe tava fazendo arroz, João tava dormindo, o cheiro de comida me abraçou, e eu sentei no canto, tirei o dinheiro do bolso, contei. Cem reais no total, do dia todo, cem reais que não pagavam a luz, que não compravam o remédio, que não davam pra nada, mas era o que tinha. Minha mãe olhou pra mim, viu meus olhos marejados, viu meus dedos machucados, viu minha alma cansada, e não perguntou nada.

Só me abraçou.

E no silêncio da faxina que não termina nunca, no silêncio da vida que aperta sem parar, no silêncio da Sofia que chora quando ninguém vê, eu me deixei abraçar, só por um segundo, só por um instante. Porque amanhã, amanhã tem mais. Tem mais pano, mais chão, mais humilhação, mais silêncio. E talvez, talvez o homem de olhos escuros apareça de novo.

Talvez.

Eu não sei se quero ou se tenho medo, só sei que ele perguntou por mim. E ninguém nunca perguntou por mim antes.

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