Capítulo 6 Proteger é poder
Caio narrando
Três dia se passaram desde que eu vi a Sofia chorando naquele beco, três dia que eu não consigo dormir direito, não consigo pensar em outra coisa, não consigo planejar a guerra contra o André sem ver o rosto dela na minha frente, os olhos marejados, a mão cortada, a voz falando "moço" igual se eu fosse um ser humano normal, porra, isso tá me matando devagar. Rafa acha que eu enlouqueci, óbvio que acha, porque eu nunca, nunca mesmo, deixei uma mina mexer com a minha cabeça assim, eu sempre fui frio, calculista, direto, comia e vazava, sem apego, sem sentimento, sem essa de ficar pensando em olhinho vermelho de chorar, mas a Sofia não saía, mano, ela ficava ali, na minha mente, no meu peito, até no meu sonho ela apareceu, tava varrendo uma sala enorme e eu via ela de longe, tentando chegar perto, mas não conseguia.
Acordei suando.
— Tá doente, Caio? — Minha mãe perguntou na mesa do café, quinta-feira de manhã, ela fez pão caseiro, me olhou com aqueles olhos que enxergam tudo. — Você tá estranho, meu filho, não tá comendo direito, não tá sorrindo, e olha que você já não sorria muito mesmo.
— Tô bem, mãe, coisa do negócio, o pai tá na minha cola por causa do André.
— Seu pai sempre esteve na sua cola, Caio, isso não é novo, tem outra coisa, me fala, sou sua mãe, pode confiar.
Quase contei, quase falei da Sofia, da faxineira, do beco, dos olhos dela, mas travei, porque como é que eu explico pra minha mãe, uma mulher que já viu tanta morte e tanta guerra, que o bagulho que me deixou doido foi uma mina chorando no chão?
— Depois eu conto, mãe, juro.
Ela não insistiu, mas colocou mais pão no meu prato, me olhou mais um tempo, depois foi lavar a louça. Saí de casa com a cabeça fervendo, decidi que não dava mais, eu ia atrás dela, ia ver a Sofia de novo, nem que fosse só pra saber se ela tava bem, se a mão tinha sarado, se ela tinha comido alguma coisa, porque pelo corpo magro e pelo olho fundo, aquela mina não comia direito não. Desci o morro, a moto tava estacionada na ladeira, subi nela e fui pro asfalto, não sabia onde ela trabalhava naquele dia, mas eu tinha um plano simples, perguntar pra todo mundo, alguém sabia, a Sofia não era invisível igual ela pensava, não pra mim.
Parei na casa da dona Lurdes primeiro, velha é fofoqueira mas é boa, ela sabe tudo da quebrada.
— Dona Lurdes, cadê a Sofia hoje?
Ela me olhou de lado, aquele olho de quem tá julgando, aí coçou o queixo.
— Tá na casa da dona Helena, lá no asfalto, número cento e vinte, mas Caio, deixa eu te falar uma coisa, tu vai com calma, hein, aquela menina já sofre demais, não precisa de bandido enchendo o saco.
— Não vou encher o saco, só quero ver se ela tá bem.
— Bem ela não tá, isso eu te garanto, mas o que tu pode fazer, Caio? Tu é o herdeiro do morro, não é assistente social, não é bombeiro, não é Deus, às vezes é melhor deixar quieto, cada um com sua cruz.
Ela tava certa, porra, ela tava certa, mas eu não liguei, virei a moto e fui pro cento e vinte, parei na frente da casa da dona Helena, uma casa pequena mas bonita, jardim bem cuidado, cortina de renda, parecia casa de velhinha mesmo. Estacionei a moto na calçada, tirei o capacete, fiquei olhando pro portão, e aí me deu um branco, o que eu ia falar? Oi, Sofia, sou o bandido que te viu chorando, vim aqui pra te stalkear? Caralho, Caio, tu perdeu a noção completa.
Antes que eu decidisse ir embora, o portão abriu.
Ela tava ali, na minha frente, a Sofia, com a sacola de pano na mão, o cabelo preso, a camiseta branca manchada, os olhos vermelhos de cansada, não de chorar, mas de viver, que às vezes é pior.
Ela me viu e congelou.
— O senhor de novo — ela falou, e o senhor doeu mais do que o moço, porque senhor é distância, é respeito, é medo.
— Oi, Sofia — respondi, tentando afinar a voz, porque minha voz normal é grossa, pesada, voz de bandido. — Lembra de mim?
— Lembro — ela deu um passo pra trás, quase tropeçou no degrau. — O senhor é o Caio, o filho do Zé, o herdeiro do morro, todo mundo conhece o senhor.
— Pode me chamar de Caio, sem "senhor" não, porra, me sinto véio.
Ela quase sorriu, quase, o canto da boca mexeu, mas voltou pro lugar, o medo era maior.
— O que o senhor— o que você quer comigo? Eu não tenho nada, não devo nada, não me envolvo com essas coisas, só trabalho, cuido da minha mãe, do meu irmão, não quero problema.
— Não vim cobrar nada, não vim ameaçar, vim saber se você tá bem, porra, é crime perguntar se alguém tá bem?
Silêncio.
O vento soprou, trouxe o cheiro de comida da casa da dona Helena, o barulho de um carro passando, e ela ficou ali, me olhando, tentando entender, tentando decifrar, igual bicho que não sabe se corre ou se luta.
— Tô bem — mentiu, igual mentiu no beco, igual mentia pra todo mundo.
— Tua mão, curou?
Ela olhou pra própria mão, os dedos ainda enrolados em esparadrapo, os cortes ainda vermelhos.
— Quase.
— Aquela mulher, a dona Míriam, ela vai pagar pelo que fez, pode deixar comigo.
O rosto dela mudou na hora, não era mais medo, era desespero.
— Não, pelo amor de Deus, não faz nada, não quero vingança, não quero confusão, eu só quero viver em paz, esquecer aquilo, seguir em frente, por favor, Caio, por favor, não arruma briga por minha causa.
Ela falou meu nome.
Caio.
Sem senhor, sem moço, sem distância. Foi a primeira vez que alguém falou meu nome com aquele tom, não era medo, não era bajulação, era pedido, era desespero, era alma.
— Por que você tá fazendo isso? — ela perguntou, com a voz tremendo. — Por que você se importa? A gente nem se conhece, eu sou só uma faxineira, você é... você é tudo aqui no morro, por que uma pessoa como você quer saber de uma pessoa como eu?
E ali, na calçada da dona Helena, com o sol quente batendo na minha nuca e o cheiro de esgoto subindo do bueiro, eu tentei responder, tentei colocar em palavra o que eu sentia, mas não saía, as palavra não vinham, porque o que eu sentia não tinha nome, não tinha explicação, não fazia sentido nem pra mim.
— Porque te vi chorar — falei, simples assim. — E teu choro me quebrou, Sofia, me quebrou de um jeito que nem bala perdida quebrou, nem morte de amigo quebrou, nem ver meu pai preso quebrou, foi teu choro, foi tu no beco, foi tu com a mão cortada levantando e indo embora sem pedir nada, aquilo mexeu comigo.
Ela ficou em silêncio, os olhos marejando de novo, mas não chorou, não dessa vez.
— Eu não sei o que dizer — sussurrou.
— Não precisa dizer nada, só me deixa te ajudar, deixa eu te proteger, pelo menos até você ficar de pé, pelo menos até você não precisar mais limpar chão de gente que te humilha.
— Proteger? — ela repetiu, como se a palavra fosse estrangeira. — Ninguém nunca me protegeu, Caio, eu sempre me protegi sozinha, desde criança, desde que meu pai foi embora, desde que minha mãe adoeceu, desde que o João nasceu, sempre fui eu, sozinha, contra o mundo.
— Agora não tá mais sozinha — respondi, e senti o peso do que eu tava dizendo, senti a responsabilidade, senti o perigo, mas não voltei atrás.
Ela me olhou por um longo tempo, os olhos buscando alguma mentira no meu rosto, alguma maldade, alguma segunda intenção, mas não tinha, porra, não tinha, era só verdade, era só vontade de proteger, e proteger, naquele momento, virou a coisa mais importante do mundo.
Mais que o morro, que o poder, que o herdeiro. Proteger ela era o único poder que fazia sentido.
— Eu preciso ir — ela falou, desviando o olhar. — Minha mãe tá esperando, meu irmão tá doente, tenho que comprar remédio.
— Deixa eu te dar uma carona, pelo menos até a farmácia.
— Não precisa.
— Eu sei que não precisa, mas eu quero, Sofia, me deixa fazer isso, só isso, uma carona, nada mais.
Ela pensou, mordeu o lábio, os dedos apertaram a sacola de pano, e finalmente, finalmente, ela acenou com a cabeça.
— Só até a farmácia.
— Só até a farmácia.
Ela subiu na garupa da moto devagar, com medo, as mãos tremendo, e quando ela encostou os dedos nos meus ombros, mano, eu juro por tudo que é sagrado, eu senti um negócio, um negócio elétrico, um negócio que subiu da espinha até a cabeça e desceu pro peito, e eu soube ali que não tinha mais volta. Liguei a moto, o motor roncou, e a gente saiu devagar pelas ruas do asfalto, eu sentindo os dedos dela nos meus ombros, o vento batendo no rosto dela, o cabelo dela voando atrás do capacete que eu dei pra ela usar.
Era só uma carona.
Mas parecia o começo de tudo.
Parecia o começo de um mundo novo, um mundo onde eu não era só herdeiro do morro, onde eu não era só bandido, onde eu não era só filho do Zé, onde eu era só Caio, e ela era só Sofia, e a gente tava ali, juntos, no meio do caos, tentando sobreviver. Chegamos na farmácia, ela desceu, tirou o capacete, me devolveu.
— Obrigada — falou, baixo, quase um sussurro.
— De nada.
Ela entrou na farmácia, eu fiquei olhando, o balcão, o atendente, ela pedindo o remédio, tirando o dinheiro amassado do bolso, contando as moedas uma por uma com os dedos machucados.
E não tinha remédio.
O preço tinha subido.
Ela ficou parada, com a nota na mão, o rosto desmoronando devagar, e eu vi, vi tudo, vi a humilhação nova que ia chegar, a derrota, a vontade de chorar que ela tava segurando com unhas e dente. Entrei na farmácia, tirei uma nota de cem do bolso, coloquei no balcão.
— O remédio dela — falei pro atendente, sem olhar pra Sofia, sem esperar resposta. — E mais um de reserva, pra semana que vem.
— Caio, não — ela tentou me impedir, pegou no meu braço. — Não aceito, não posso aceitar.
— Pode sim — falei, pegando o remédio e colocando na sacola dela. — Não é esmola, é ajuda, é o que gente faz quando se importa.
— Mas você não me deve nada.
— Não devo, mas quero, Sofia, eu quero te ajudar porque te ver sozinha me dói mais do que qualquer tiro que eu já tomei, e olha que eu já tomei tiro, viu?
Ela não falou nada, só me olhou, os olhos cheios de lágrima que não caía, e eu vi ali, na farmácia fedida de remédio barato, que proteger não era poder, não, proteger era mais do que poder, proteger era amor, e eu, Caio, herdeiro do morro, nunca tinha amado ninguém na minha vida inteira.
Até agora.
