Capítulo 8 Peso da coroa

Caio narrando

Eu voltei pra casa naquele dia com o gosto da Sofia na boca, mano, com os lábios ainda quentes, com o coração batendo igual tambor de escola de samba, e sabia, sabia que tava ferrado, porque o bagulho agora era real, não era mais só vontade de proteger, não era mais só dó ou compaixão, era amor, porra, era amor de doer, amor de querer largar tudo, amor de querer ser outra pessoa, alguém que não fosse o herdeiro do morro.

Mas aí a vida bateu na porta.

Cheguei em casa quase três da manhã, subindo as escada igual ladrão pra não acordar minha mãe, mas quando passei pela sala, tava meu pai, o Zé, sentado no sofá com uma garrafa de pinga pela metade, os olhos vermelhos, aquela cara de poucos amigo que eu conhecia desde criança.

— Cê tá doido, Caio? — ele falou, sem nem olhar pra mim, só bebendo mais um gole. — Sabe que horas são? E amanhã tem guerra, tem o André na nossa cola, e tu sai rodando de madrugada igual moleque de condomínio.

— Tava resolvendo um negócio, pai.

— Negócio? Que negócio, filho? Tu acha que eu não sei de nada? Tu acha que eu não tenho olho no morro todo? Eu sei da faxineira, Caio, eu sei do remédio, eu sei da farmácia, eu sei da carona, eu sei do beijo no beco, caralho, tu acha que sou otário?

Meu sangue gelou na hora, porque o velho saber de tudo sempre foi uma benção e uma maldição, benção porque ninguém passava a perna na gente, maldição porque não tinha espaço pra respirar, não tinha privacidade, não tinha vida própria.

— Não tem nada a ver com o negócio, pai, a Sofia não tá no nosso ramo, ela não sabe de nada, ela é só uma faxineira, uma mulher honesta que trabalha pra sustentar a família, não envolve ela nessa porra.

O Zé levantou devagar, devagar igual cobra, e veio na minha direção, o cheiro de pinga forte, os olhos pequenos de quem já destruiu mais vidas do que eu consigo contar.

— Escuta aqui, seu moleque — ele começou, o dedo na minha cara igual fez com a Sofia a dona Míriam, só que pior, porque dedo do meu pai era dedo de bandido, dedo de quem matou. — Você é o herdeiro, herdeiro não pode ter fraqueza, e mulher é fraqueza, Caio, mulher é o calcanhar de Aquiles de todo homem de poder, cê vai deixar uma faxineira derrubar tudo que a gente construiu? Vai deixar ela saber dos esquema, dos esconderijo, das boca?

— Ela não sabe de nada, pai, e não vai saber, porque eu não vou contar, e ela não pergunta, ela só quer viver a vida dela, cuidar do irmão doente e da mãe cansada.

— E tu vai ficar correndo atrás de mulher miserável enquanto o André toma o morro? Enquanto os outro traficante tão rindo da nossa cara? Acorda, porra! A coroa pesa, Caio, pesa mais do que qualquer coisa, e se você não tiver cabeça pra carregar, eu acho outro herdeiro, tô entendendo?

Outro herdeiro.

Ameaça vazia ou ameaça real? Com o meu pai nunca dava pra saber, ele era capaz de tudo, já tinha matado amigo, já tinha matado parente, por que não mataria o próprio filho se precisasse?

— Tô entendendo — respondi, com os dente trincado, o ódio subindo igual ácido na garganta. — Mas não vou largar a Sofia, pai, isso não tem a ver com o negócio, isso é pessoal.

O Zé riu, uma risada seca, feia, sem alegria.

— Pessoal? Nada é pessoal, filho, tudo é negócio, tudo é poder, tudo é guerra, e se você não aprender isso rápido, a coroa vai te esmagar, e você vai morrer igual os outros, esquecido e sozinho.

Ele virou as costas, subiu pro quarto, e eu fiquei ali, parado na sala escura, o peso da coroa nas costas, o peso do amor no peito, os dois brigando, os dois querendo me matar devagar. Subi pro meu quarto, tirei a camisa, olhei no espelho quebrado que tava pendurado na parede, as tatuagem no peito, as cicatriz de tiro, os olhos fundos de sono e preocupação, e pensei no que meu pai falou, pensei na Sofia, pensei na coroa, pensei em como seria impossível juntar os dois mundos. Deitei na cama, mas não dormi, fiquei olhando pro teto, o ventilador girando devagar, o barulho da rua lá fora, os tiro de vez em quando, a vida do morro que nunca para, e uma coisa ficou clara na minha cabeça, uma coisa dura igual concreto.

Se eu quisesse a Sofia, ia ter que lutar.

Lutar contra o André, contra o meu pai, contra o mundo.

E talvez, talvez perder os dois.

O dia amanheceu cinza, nublado, com cheiro de chuva, o pior tipo de dia pra guerra, porque lama atrapalha, porque barro atola, porque sangue misturado com terra é mais difícil de lavar. Tomei um café rápido, minha mãe me olhou com aqueles olhos tristes, ela sabia, ela sempre sabia, mas não falou nada, só passou a mão na minha cabeça igual quando eu era criança.

— Toma cuidado, meu filho — ela falou, baixo. — Não faz nada que te tire de mim.

— Fico tranquila, mãe.

Mentira.

Não ia ficar tranquilo nunca mais. Desci o morro, encontrei o Rafa e os outros na boca principal, todo mundo armado, todo mundo sério, a guerra contra o André ia começar e ninguém sabia se ia voltar inteiro.

— E aí, patrão, tá na pior? — Rafa perguntou, vendo minha cara. — Parece que viu fantasma.

— Pior que fantasma, mano, vi meu pai.

— Falou da Sofia?

— Falou.

— Fodeu.

— Fodeu.

A gente se posicionou, os homem do André começaram a descer a ladeira, tinha uns quinze, armado até os dente, e o André no meio, com um sorriso debochado na cara, aquele ar de quem já se achava dono do morro.

— Caiu o herdeiro, hein, Caio? — ele gritou, de longe. — Tá parecendo moleque, moleque apaixonado, moleque de saia, cadê aquele homem que todo mundo tinha medo?

Apertei o punho da pistola, o suor escorrendo na testa, o coração batendo forte, e aí, nesse momento, nesse segundo, eu vi o rosto da Sofia na minha frente, o beijo no beco, os olhos dela sorrindo, a voz dela falando meu nome, e eu soube que não podia morrer.

Não podia.

Não porque o morro precisava de mim, não porque meu pai mandava, não porque eu era o herdeiro, mas porque ela, a Sofia, a faxineira, a mulher que limpava chão dos outros, tinha me dado uma razão pra viver que não fosse o poder ou o medo.

O primeiro tiro veio do nada.

Depois outro.

Depois dezenas.

Corri pra trás de um muro, atirei de volta, o barulho ensurdecia, a fumaça subia, a gente gritava, os homem caía, o sangue escorria no asfalto, e eu só pensava nela, nela, nela. Quando a poeira baixou, o André tinha fugido, perdeu quatro homem, a gente perdeu dois, o Rafa tava ferido no braço mas vivo, e eu, eu tava de pé, o rosto sujo de sangue que não era meu, as mão tremendo.

O peso da coroa tava ali.

Nas costas.

Mas agora, agora tinha um peso maior ainda, o peso do amor, o peso de querer voltar pra casa e encontrar ela, o peso de saber que não dava pra largar nenhum dos dois. Enquanto o Rafa era atendido, eu tirei o celular do bolso, mandei uma mensagem pro número que a Sofia me deu.

— Tô vivo, pensa em você."

A resposta veio rápido.

— Penso em você também, vem me ver quando der.

Guardei o celular, olhei pro céu cinza, a chuva que ameaçava cair, e sorri, sorri igual idiota, igual bobo, igual quem descobriu que o poder não é ter arma ou dinheiro ou boca de fumo, o poder é ter alguém esperando você voltar. Meu pai chegou no local, olhou pros corpo, olhou pros homem ferido, olhou pra mim.

— Sobreviveu — ele disse, sem emoção. — Amanhã a gente termina o serviço.

— Amanhã a gente termina.

Ele virou as costas, mas parou, olhou por cima do ombro.

— Aquela mulher, a faxineira, tu vai ter que escolher, Caio, um dia, a coroa ou ela, as duas não cabem, são peso demais pra um ombro só.

E foi embora.

E ele tava certo, porra, ele tava certo, e doer saber que ele tava certo, porque a coroa pesava, pesava igual concreto, igual cadeia, igual morte, e a Sofia pesava igual amor, igual esperança, igual vida. E como é que um homem carrega dois pesos tão diferentes sem quebrar no meio? Não sabia, só sabia que ia tentar.

Por ela e por nós.

Por esse amor besta que apareceu do nada e virou o centro de tudo. Guardei a arma, lavei o rosto na água da mangueira, e fui andando, fui subindo o morro devagar, passando pelas rua que eu conhecia desde criança, pelos beco onde eu aprendi a ser homem, pela vida que eu vivi até agora. E no meio do caminho, parei, olhei pro alto, pra laje onde ela morava, e sussurrei baixo, pro vento levar.

— Eu vou conseguir, Sofia, vou dar um jeito, juro pela minha vida.

Subi.

A chuva finalmente caiu, forte, grossa, lavando o sangue do asfalto, lavando a sujeira do morro, mas não lavando o que eu sentia, porque aquilo, aquilo já tava dentro de mim, igual tatuagem, igual cicatriz, igual herança. O peso da coroa continuava ali, mas agora eu carregava sorrindo.

Por ela.

Sempre por ela.

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