Capítulo 9 Vizinha fofoqueira

Dona Lurdes narrando

Ô, meu Deus do céu, a coisa tá feia, tá feia mesmo, eu que sou velha e já vi de tudo nesse morro, desde os tempo do meu finado marido que vendia galinha na feira até os dia de hoje que o que mais vende é bala e pólvora, nunca vi uma fofoca tão gostosa e tão perigosa ao mesmo tempo igual a do Caio com a Sofia.

Senta aqui, meu anjo, pega esse café que eu tô passando, que a história é longa e a tarde tá fria, senta e escuta o que essa velha aqui tem pra contar, porque se tem uma coisa que eu sei fazer melhor que vender pão e refrigerante é saber das coisa, e saber das coisa nesse morro é questão de sobrevivência, viu?

Pois então, vamos começar pelo começo, que é sempre o melhor lugar.

Eu tô na minha venda desde as seis da manhã, como sempre, abro o portão, coloco as caixa de refrigerante na frente, ajeito os salgado no balcão, e o dia já começa com movimento, os pedreiro indo pro trabalho, as criança indo pra escola, as mãe comprando pão, o padeiro passando com o carrinho, a vida normal, aquela vidinha de todo dia que a gente finge que é calma.

Mas não era calma não, eu já sentia no ar, já sentia na minha coluna, porque quando a coluna dói é porque fofoca grande vem, e minha coluna tava doendo igual parto, desde que eu vi o Caio na farmácia com a Sofia, desde que eu vi o beijo no beco, desde que eu vi o Zé com cara de poucos amigo na rua de baixo, aquilo tudo era tempestade se formando, e eu sou véia mas não sou cega, não senhor.

— Dona Lurdes, bom dia — era a Jéssica, amiga da Sofia, chegando na venda com a cara de quem quer informação. — Me dá um refri e um salgado, por favor.

— Toma, menina — passei as coisa, mas não ia deixar ela escapar assim, não, eu queria saber o que ela sabia, porque Jéssica é fofoqueira igual a mim, só que mais nova e com menos experiência. — E me diz uma coisa, a Sofia, como é que ela tá?

Jéssica deu um sorriso malandro, aquele sorriso de quem sabe mais do que devia.

— Tá diferente, dona Lurdes, tá até mais bonita, mais corada, parece que comeu alguma coisa boa, mas não é comida não, é homem, eu tô ligada, a Sofia não me conta tudo mas eu não sou besta, o Caio tá atrás dela, e ela tá gostando, isso eu sei.

Eu sabia, claro que eu sabia, mas ouvir confirmado é sempre melhor.

— E você acha que isso vai dar certo, menina? O Caio é filho do Zé, a Sofia é uma faxineira honesta, são dois mundo diferente, dois mundo que se misturam igual água e óleo.

— A vida é assim, dona Lurdes, a gente não escolhe quem ama, o coração escolhe, e o coração da Sofia escolheu um bandido, fazer o quê?

Suspirei fundo, porque aquela menina não entendia o perigo, não entendia que amor de bandido é igual rosa com espinho, bonito mas fere, e quando fere, fere fundo, fere sem dó, fere até a alma.

O dia foi passando, fui vendendo, fui ouvindo, fui juntando as peça do quebra-cabeça, porque informação é poder, e nesse morro quem não tem informação morre cedo, seja de tiro ou de ignorância.

O Rafa passou na venda mais tarde, comprou cigarro e uma água, tava com o braço enfaixado, a cara de quem viu guerra.

— E aí, Rafa, como é que foi a treta de hoje com o André?

— Dona Lurdes, a senhora não quer saber não, foi feio, perdi dois homem, quase perdi o braço, o Caio salvou minha pele, mas o negócio tá quente, o André não vai parar, ele quer o morro, e o Caio não vai entregar.

— E a Sofia nessa história, onde é que ela entra?

Rafa riu, mas foi risada amarga, de quem sabe que a bomba vai explodir.

— A Sofia é o ponto fraco do Caio, dona Lurdes, todo mundo já sabe, o André já sabe, o pai do Caio já sabe, a única que parece não saber é ela, ou sabe e finge que não, não sei, mas o negócio é que se pegarem a Sofia pra atingir o Caio, aí vai ser o fim do mundo.

Meu coração apertou, apertou de verdade, porque a Sofia é uma boa menina, sempre foi, desde pequena ajudava a mãe, cuidava do irmão, nunca se meteu em bagunça, nunca deu trabalho, e agora tava no meio de uma guerra que não era dela, porque amor de gente grande tem dessas coisa, arrasta a gente pra fogo que não pediu.

Depois que o Rafa foi embora, fechei a venda por uns minutos, fiquei sentada no balcão, tomando um chá de erva doce pra acalmar os nervo, e fiquei pensando, pensando na Sofia, no Caio, no Zé, no André, em todo mundo que ia se machucar nessa história, porque amor de bandido nunca termina bem, nunca, eu já vi isso acontecer tantas vezes, tantas moça se apaixonar por homem do tráfico e acabar viúva, ou pior, acabar na cadeia, acabar morta, acabar sumida.

E a Sofia, a Sofia era tão pura, tão simples, tão batalhadora, ela merecia coisa melhor, merecia um homem que levasse flor, que levasse chocolate, que levasse ela pro cinema, não um homem que levasse bala e guerra.

Mas o coração, o coração não obedece.

Eu sei bem disso, porque no meu tempo, quando eu era nova, também amei um homem que minha mãe não aprovava, o Zé, meu falecido marido, ele não era bandido não, era só um vendedor de galinha, mas minha mãe achava que eu merecia coisa melhor, e eu casei com ele mesmo assim, fui feliz, ele me deu filho, me deu neto, me deu saudade, e no fim, no fim a vida é isso, a gente escolhe e aprende a viver com a escolha.

No fim da tarde, a Sofia passou na venda.

Ela tava diferente mesmo, mais corada, os olhos brilhando, o cabelo mais solto, a boca com um sorriso que ela tentava esconder mas não conseguia.

— Dona Lurdes, me dá um quilo de arroz, um de feijão, e um pacote de açúcar, a senhora pode anotar na minha conta?

— Pode, menina, pode sim, você sempre paga, não tenho do que reclamar.

Enquanto eu pesava as coisa, ela ficou mexendo no celular, e eu vi, vi a mensagem que chegou, vi o sorriso que abriu no rosto dela, um sorriso bobo, daqueles de quem tá apaixonada, daqueles que não tem jeito de esconder.

— É ele, né, menina? — perguntei, sem rodeio, porque comigo não tem tempo pra enrolação.

Ela corou, ficou vermelha igual tomate, baixou a cabeça.

— A senhora sabe de tudo, dona Lurdes, a senhora é uma coruja, não escapa nada.

— Sei, e por isso mesmo vou te dar um conselho de mãe, de avó, de quem já viveu mais que você, toma cuidado, Sofia, o Caio é homem bom, eu conheço ele desde criança, ele tem coração grande, mas o mundo dele é perigoso, o pai dele é perigoso, os inimigo dele são perigosos, e você, você é o ponto fraco dele, todo mundo sabe, todo mundo vai usar você contra ele.

Ela ficou séria, o sorriso sumiu, e eu vi nos olhos dela que ela sabia, que ela já tinha pensado nisso, que ela tinha medo.

— Eu sei, dona Lurdes, eu sei, mas eu não consigo, eu não consigo ficar longe dele, quando ele me olha eu sinto que tudo vai ficar bem, quando ele me abraça eu esqueço do mundo, e quando ele me beija... ai, senhora, quando ele me beija, parece que eu tô voando.

— Filha, voar é bom, mas voar alto demais dá medo de cair, e quando a queda vem, ela vem forte, ela vem sem aviso, ela vem e te quebra.

Ela pegou as compras, pagou o que devia, me agradeceu, e foi embora, mas antes de sair, virou pra mim e falou uma coisa que ficou ecoando na minha cabeça a noite inteira.

— Eu já tô quebrada, dona Lurdes, eu já tô quebrada desde criança, então se for pra cair, que seja por amor, que seja por ele, que seja por alguém que me fez sentir viva.

E foi embora.

E eu fiquei ali, na minha venda, olhando ela subir o morro, a sacola de compra na mão, o coração cheio de esperança, e eu, coitada de mim, fiquei com o coração cheio de medo, porque quando a gente ama, a gente sofre, e quando a gente ama bandido, a gente sofre em dobro.

Fechei a venda no fim do dia, fui pra casa, fiz minha janta, comi sozinha, porque meu neto foi visitar a namorada, e fiquei olhando pela janela, o morro todo iluminado pelas luzes da cidade, a vida lá embaixo, a vida lá em cima, a vida no meio, e o amor, o amor que não respeita fronteira, o amor que não pede licença, o amor que invade, que toma, que transforma.

E por mais que eu fosse fofoqueira, por mais que eu gostasse de saber e contar tudo, ali, naquela noite, eu fiz uma prece, uma prece sincera pra qualquer santo que tava ouvindo.

— Protege a Sofia, protege o Caio, protege esse amor doido, e se não der pra proteger, pelo menos alivia a queda, pelo menos deixa eles caírem juntos, porque ninguém merece cair sozinho.

Apaguei a luz, deitei na cama, a coluna ainda doendo, a fofoca ainda quente, mas o coração, o coração tava pesado, pesado de preocupaç

ão. Porque quando o morro ama, o morro sofre. E o morro, essa noite, tava amando demais.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo