Capítulo 2 — O Que Ele Sabia
Heitor Barros tinha construído um império aprendendo a ver o que os outros escondiam. Era esse o seu talento, o motivo pelo qual o seu nome valia mais que o de muitas empresas que ele comprava: ele sabia ler pessoas e balanços com a mesma frieza. Sabia identificar a empresa que estava prestes a quebrar antes mesmo dos donos admitirem para si próprios. Sabia quando um homem mentia sobre os números, e sabia quando um homem mentia sobre os motivos.
Por isso era estranho, quase humilhante, que ele tivesse passado a noite inteira incapaz de ler a própria consciência.
Tudo começara três meses antes, com uma ligação. Uma voz que ele não ouvia havia anos — Tomás Vieira, um homem que tinha sido sócio do pai de Heitor numa época em que os dois ainda não eram nada, em que dividiam um galpão e um sonho na Zona Leste. Tomás estava velho agora, com a voz trêmula, e pediu a Heitor um favor que não era pequeno.
— Tem um amigo meu — disse Tomás. — Roberto Ferreira. A gente cresceu junto. Ele tem uma metalúrgica, pequena, mas honesta. E tem gente querendo tomar a empresa dele à força.
Heitor ouviu sem interromper. Era um padrão que ele conhecia bem. Uma empresa pequena, endividada, e um grupo de credores agressivos farejando a oportunidade de transformar a dívida em controle acionário. Era legal. Era cruel. Era, infelizmente, comum.
— Por que você está me contando isso? — perguntou Heitor.
— Porque você é o único que pode parar. — Tomás fez uma pausa. — Roberto não vai aceitar caridade. O homem tem orgulho. Se você chegar como salvador, ele te expulsa. Mas se alguém comprar a dívida antes desses abutres, alguém que não vá destruir tudo… Ele nem precisa saber que foi você.
Era um pedido absurdo. Heitor tinha mil motivos para recusar. Mas Tomás tinha sido como um tio para ele, e havia uma dívida antiga ali, do tipo que não aparece em nenhum balanço. Então Heitor disse que ia olhar os números.
Os números eram piores do que Tomás imaginava. A Ferreira Metalúrgica estava a poucos meses de ser engolida. Os credores — liderados por um sujeito chamado Aurélio Massa, um homem que Heitor já tinha enfrentado antes e desprezava — já tinham começado a comprar as dívidas com o objetivo claro de forçar a falência e depois assumir o controle dos ativos. As máquinas, o terreno, a marca. Roberto Ferreira perderia tudo, e os funcionários junto.
Heitor montou uma operação silenciosa. Por meio de uma holding sem nome reconhecível, começou a comprar a dívida da metalúrgica antes que Massa conseguisse consolidar a sua. Era um trabalho de bastidores, invisível, exatamente como Tomás tinha pedido. Roberto nunca saberia. Continuaria tocando a fábrica, achando que ainda estava lutando contra os credores, sem perceber que a maior parte da sua dívida agora pertencia a um homem que não tinha a menor intenção de cobrá-la.
Tudo teria terminado ali — uma boa ação anônima, um favor pago — se Heitor não tivesse cometido o erro de querer entender quem ele estava protegendo.
Ele foi até a fábrica uma vez, disfarçado, fingindo ser um fornecedor. Viu Roberto Ferreira de longe: um homem de costas largas e cabelo grisalho, que tratava os operários pelo primeiro nome e ria alto. E foi ali, no estacionamento da fábrica, que Heitor viu Giulia pela primeira vez. Ela tinha vindo levar o almoço esquecido do pai. Os dois conversaram à sombra de um caminhão, e Heitor, que estava a vinte metros, não ouviu uma palavra — mas viu o jeito como o rosto do homem duro se abria diante da filha, e o jeito como ela ria, com o corpo inteiro, sem reservas.
Ele não soube explicar o que sentiu. Inveja, talvez. Daquela leveza. Daquela vida que não precisava de máscaras.
Foi um impulso que ele depois chamaria de loucura. Mandou descobrir onde ela trabalhava. E uma terça-feira chuvosa, vestiu uma roupa comum, deixou o relógio caro em casa, inventou um nome — Gabriel, o primeiro que lhe veio — e entrou no Café Mandacaru só para vê-la de perto. Só uma vez. Era o que ele tinha dito a si mesmo. Só uma vez.
Foram seis vezes em duas semanas.
E agora, naquele andar alto, Heitor enfrentava a verdade incômoda de que tinha se enredado na própria armadilha. Ele queria proteger a empresa do pai dela. Ele tinha começado a querer, também, simplesmente estar perto dela. E os dois desejos eram incompatíveis, porque um deles exigia silêncio absoluto e o outro exigia ser conhecido.
Giulia gostava de Gabriel. Heitor via isso. Via no jeito como ela guardava a mesa do canto, no café um pouco mais forte que ela servia para ele, nas conversas que se alongavam depois que os outros clientes iam embora. E cada sinal de que ela gostava dele era também uma facada de culpa, porque a pessoa de quem ela gostava não existia.
"Pessoas", ela tinha dito. "Eu pinto os rostos quando elas acham que ninguém está olhando. Quando a máscara cai."
Heitor pensou no que aconteceria se a máscara dele caísse. Pensou no rosto que ela veria. E pela primeira vez em anos, o homem que sabia ler todo mundo teve medo de ser lido.
Ele guardou a fotografia dela na gaveta. Trancou. E disse a si mesmo, mais uma vez, a mentira que sustentava todas as outras: que ia contar a verdade em breve, que era só uma questão de encontrar o momento certo, que ainda dava tempo de fazer aquilo virar uma história bonita.
O que ele não sabia — o que nenhum dos dois sabia — era que o momento certo nunca chega. O que chega é o acidente. E o acidente já estava marcado, dali a uma semana, na forma de um laptop esquecido aberto sobre uma mesa.
