Capítulo 3 — O Laptop Aberto

A primeira vez que Gabriel a convidou para o apartamento dele, Giulia quase disse não.

Não por medo — ela já confiava nele de um jeito que a assustava um pouco —, mas porque o apartamento ficava num bairro que não combinava com a história que ele contava. Era um prédio novo, de fachada limpa, com um porteiro de uniforme que cumprimentou Gabriel pelo sobrenome errado, e que Gabriel corrigiu rápido demais. Giulia reparou, mas não disse nada. Estava aprendendo, com ele, a colecionar pequenas estranhezas como quem guarda peças de um quebra-cabeça sem saber ainda qual é a imagem.

O apartamento por dentro era bonito e impessoal. Móveis caros, paredes vazias, nenhuma fotografia. Parecia um lugar onde alguém dormia, mas não vivia.

— Você acabou de se mudar? — perguntou ela, olhando em volta.

— Mais ou menos — disse Gabriel, indo até a cozinha. — Vou fazer um café de verdade pra você, pra variar. Sente-se.

Ela sorriu e sentou no sofá. Foi quando ele estava na cozinha, com o barulho do moedor de café abafando tudo, que aconteceu.

O laptop estava sobre a mesa de centro, fechado. Giulia não tinha a menor intenção de tocá-lo. Mas, ao se acomodar no sofá, o joelho dela esbarrou na mesa, e a tampa, que devia estar só encostada, deslizou e se abriu sozinha. A tela acendeu.

Ela não estava bisbilhotando. Era importante, depois, que ela soubesse disso de si mesma: ela não estava bisbilhotando. A tela simplesmente estava ali, acesa, na frente dos olhos dela, antes que ela pudesse decidir desviar o olhar.

E o que estava na tela parou o coração dela.

Era um documento. Um relatório, organizado em colunas e gráficos, com o tipo de formatação fria que ela associava a bancos e advogados. No alto da página, em letras grandes, estava escrito um nome que ela conhecia melhor do que o próprio: Ferreira Metalúrgica.

Giulia piscou. Por um segundo achou que estava lendo errado, que a mente dela tinha projetado aquilo. Mas não. Ali estava, em preto e branco. O nome da empresa do pai. E abaixo, num bloco de texto que ela começou a ler sem respirar, palavras que ela reconhecia uma a uma mas que juntas não faziam sentido naquele lugar: "passivo", "estrutura de dívida", "aquisição", "controle acionário".

E havia mais. Havia uma fotografia. Pequena, no canto do documento, como num dossiê. Uma fotografia do pai dela — Roberto Ferreira — saindo do portão da fábrica, com a expressão de quem não sabe que está sendo fotografado. A foto tinha a granulação de uma imagem tirada de longe, escondida.

E no rodapé de cada página, repetido como uma assinatura, havia um logotipo. Um símbolo simples, geométrico, em cinza-chumbo. Giulia não sabia o nome da empresa a que ele pertencia. Mas, no instante em que o viu, percebeu uma coisa arrepiante: ela já tinha visto aquele logo antes. Tinha visto na lateral de um carro estacionado na frente da fábrica do pai, semanas atrás. Tinha visto num envelope que o pai guardou rápido na gaveta quando ela entrou na sala dele. Tinha visto numa reportagem de jornal que passou correndo no celular. O logo estava de repente em todos os lugares da memória dela, como se sempre tivesse estado lá, esperando que ela o reconhecesse.

O barulho do moedor parou na cozinha.

Giulia não fechou o laptop por reflexo. Ela fechou devagar, com cuidado, com a mão firme apesar do coração disparado. Encostou a tampa exatamente como estava antes, com o mesmo ângulo. E então fez a coisa mais difícil que tinha feito na vida: voltou a se sentar no sofá, cruzou as pernas, e arrumou o rosto.

Porque Giulia Ferreira era pintora de rostos. Sabia melhor do que ninguém como uma face se reorganiza quando a pessoa decide esconder o que está sentindo. E naquele momento, ela usou todo esse conhecimento ao contrário — não para ler uma máscara, mas para construir uma.

Gabriel voltou da cozinha com duas xícaras. Sorriu para ela. Era um sorriso bonito, aberto, e Giulia, que tinha passado semanas tentando desenhar aquele rosto sem conseguir, entendeu enfim por que não conseguia. Era porque havia duas pessoas ali. A de cima, que sorria. E a de baixo, que ela acabara de vislumbrar num relatório frio sobre a destruição da família dela.

— Está tudo bem? — perguntou ele, entregando a xícara. — Você ficou pálida.

— Estou só com sono — disse ela, e a voz saiu firme, quase alegre. — O café ajuda.

Ela bebeu. O café estava ótimo, e isso, de algum jeito, foi a parte mais cruel.

Sentaram-se lado a lado. Gabriel falou de qualquer coisa, e Giulia respondeu nos lugares certos, riu nos lugares certos, manteve a máscara perfeita. Por dentro, porém, uma máquina silenciosa tinha começado a girar. Não era raiva ainda — a raiva viria depois. Era outra coisa, mais fria e mais útil: a necessidade de entender.

Quem era aquele homem. Por que tinha uma fotografia escondida do pai dela. O que significavam aquelas palavras sobre dívida e controle. E por que, de todas as cafeterias de São Paulo, ele tinha escolhido justamente a dela.

Ela tinha uma pergunta acima de todas as outras, e era uma pergunta que, ela sabia, ia mudar tudo. Não era "quem é você". Ela já desconfiava de que Gabriel não era Gabriel. A pergunta era pior, mais funda, mais perigosa:

Você se aproximou de mim de propósito?

Mas Giulia não fez essa pergunta naquela noite. Olhou para o homem ao lado dela, sorriu mais uma vez, e guardou a pergunta como quem guarda uma chave embaixo da língua.

Ela ia esperar. Ia descobrir tudo primeiro. E só então, no momento que ela escolhesse — não ele —, ela ia perguntar.

Quando Gabriel a acompanhou até a porta naquela noite e se inclinou para um beijo no rosto, Giulia deixou. O rosto dela estava perfeito. Por dentro, ela já não era mais a mesma mulher que tinha entrado naquele apartamento.

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