Capítulo 2 O estranho perfeito
A maçaneta girou. O som foi suave, mas no silêncio estéril do quarto de hospital, bastou para provocar um tremor no peito de Elena. Ela congelou, a respiração curta, os olhos fixos no botão prateado enquanto ele se movia.
Então a porta se abriu, e a luz do corredor se derramou para dentro.
“Elena?” A voz de Adrian quebrou o silêncio, firme, mas tingida de preocupação. “Você acordou de novo.”
Ele entrou, a luz contornando sua figura antes de a porta se fechar com um clique atrás dele. A tensão no corpo dela não diminuiu.
“Você me assustou”, ela disse, a voz áspera.
“Desculpa”, ele respondeu, aproximando-se. “Você estava inquieta enquanto dormia. Vim ver como você estava.”
Ele colocou um copo de papel com água no criado-mudo. O cheiro discreto da colônia dele veio junto, uma mistura de cedro e algo mais cortante. Ela forçou uma inspiração, fingindo calma.
“Eu achei que já era de manhã”, murmurou.
“Logo vai ser.” Ele olhou para a janela, onde o céu estava pálido com o primeiro indício do amanhecer. “Eu também não consegui dormir. Fico pensando em levar você para casa.”
Ela hesitou antes de responder. “Casa.” A palavra ainda soava estranha.
Adrian sorriu. “Você vai ver. Assim que a gente voltar, tudo vai começar a parecer familiar de novo.”
Ela desviou o olhar, acompanhando o contorno tênue do próprio reflexo no vidro. “E se não parecer?”
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, estendeu a mão e pegou a dela outra vez, do mesmo jeito que tinha feito antes, como se a repetição pudesse tornar aquilo real. “Vai”, disse por fim. “Memórias são coisas teimosas. Elas sempre encontram o caminho de volta.”
Havia algo no tom dele que a deixou inquieta. Soava menos como consolo e mais como uma ordem silenciosa.
No fim da manhã, a equipe do hospital encheu o quarto com uma eficiência educada. Papéis foram assinados, soro foi retirado, e instruções foram dadas em tons calmos. Adrian conduziu cada etapa, a voz firme, a presença deixando pouco espaço para a autoridade de qualquer outra pessoa.
Elena observou da cama enquanto ele conversava com o médico. Os dois ficaram perto da janela, silhuetas recortadas pela luz do sol. A expressão de Adrian estava serena, mas a testa do médico se franziu de leve enquanto falava. Quando a conversa terminou, o médico se virou para ela.
“A senhora teve um progresso notável, Sra. Cross”, disse ele com um sorriso comedido. “Ainda pode haver lacunas na sua memória, mas, fisicamente, a senhora está se recuperando muito bem. Vá devagar. Um ambiente familiar pode ajudar.”
Ela assentiu. “Obrigada.”
O médico hesitou antes de acrescentar: “Se você sentir qualquer confusão, ligue direto para a clínica. Às vezes, as memórias podem voltar de repente. Pode ser avassalador.”
Adrian pousou a mão na curva da lombar dela, sutil, mas possessivo. “Vou garantir que ela tenha tudo de que precisa”, disse. O olhar do médico demorou um segundo a mais, então ele assentiu e saiu.
O trajeto de carro foi silencioso. O motorista de Adrian, um homem alto de terno preto, colocou a pequena bolsa dela no porta-malas e abriu a porta de trás. Elena entrou e se acomodou ao lado de Adrian, ainda se movendo com cautela.
A cidade do lado de fora passava como uma pintura em movimento — torres altas de vidro, semáforos, pedestres em fluxo. Ainda assim, tudo parecia distante, como se ela estivesse assistindo à vida de outra pessoa se desenrolar através de um vidro.
Adrian mexeu no celular por um tempo, respondendo mensagens em murmúrios baixos. Ela virou o rosto para a janela, tentando se ancorar em alguma coisa. O ritmo da estrada era hipnótico.
“Como aconteceu?” ela perguntou de repente.
Ele ergueu os olhos. “O acidente?”
Ela assentiu.
O olhar dele voltou para a pista à frente. “Você estava dirigindo para casa depois de um evento beneficente. Estava chovendo. Um caminhão avançou o sinal vermelho. Você perdeu o controle.”
Ela esperou por mais, mas foi só isso que ele disse.
“Tinha mais alguém comigo?”
“Não.” O tom dele era baixo, definitivo. “Você estava sozinha.”
A resposta se acomodou de um jeito estranho no estômago dela.
“E o motorista do caminhão?” ela insistiu.
“Ele morreu no local.” A mandíbula de Adrian se retesou. “Você teve sorte, Elena. Você sobreviveu a algo que deveria ter te matado.”
Ela não respondeu. Sorte não parecia a palavra certa.
Enquanto seguiam, ela pegou seu reflexo de leve no vidro da janela. Rosto pálido, braço enfaixado, olhos vazios demais para a suavidade da própria voz. A mulher que encarava de volta não parecia ser ela.
A cobertura era de tirar o fôlego, toda de vidro e linhas limpas, com vista para o horizonte da cidade. A luz do sol se refletia no piso polido, se espalhando pelas paredes de mármore claro. Devia ser lindo, mas para Elena parecia vazio, como um museu construído para homenagear outra pessoa.
Adrian a conduziu para dentro com uma mão no cotovelo dela. “Está tudo como você deixou”, ele disse. “Suas coisas, seu closet, seus materiais de arte.”
Ela girou devagar, examinando o espaço. Um piano de cauda ficava junto à janela, intocado. Um vaso de lírios frescos repousava na bancada, idêntico aos que tinham preenchido o quarto do hospital. O cheiro fez o estômago dela se contrair.
Ele largou a bolsa dela no chão e apontou para o corredor comprido. “O quarto é por ali. Você vai descansar um pouco. Vou pedir o almoço.”
Ela caminhou à frente, os passos abafados pelo carpete grosso. O quarto era elegante, quase estéril — lençóis brancos, madeira escura, nenhum traço de aconchego. Uma fileira de fotografias emolduradas se alinhava sobre a cômoda.
Ela pegou uma delas. Era a foto do casamento. Reconheceu a si mesma no vestido, sorrindo para a câmera, mas havia algo errado. O sorriso não chegava aos olhos. O braço de Adrian estava em volta da cintura dela, o sorriso dele impecável e contido, o olhar fixo nela em vez de na lente.
— Você parece perdida — ele disse, da porta.
Ela pousou a moldura com cuidado. — Eu não me lembro desse dia.
— Vai lembrar — ele disse. — Dê tempo ao tempo.
— A gente se amava? — ela perguntou, a pergunta escapando antes que pudesse se conter.
Ele hesitou e então atravessou o quarto. — Claro que sim. — A mão dele roçou a bochecha dela, suave, mas deliberada. — E ainda amamos.
Ela sustentou o olhar dele por um instante, mas havia algo naquela certeza que fez seu coração bater mais rápido — não de carinho, e sim de confusão.
Nos dias que se seguiram, o tempo pareceu ao mesmo tempo rápido e lento. Adrian preenchia o silêncio com planos, telefonemas e jantares dos quais ela mal sentia o gosto. Cada movimento na casa era previsível, cada som, calculado. A cidade lá embaixo mudava, mas dentro da cobertura, nada se alterava.
À noite, ela não conseguia dormir. Quando fechava os olhos, via lampejos de cor e som — o guincho de pneus, um homem gritando o nome dela, o grito de uma mulher rasgando a escuridão. Toda vez que acordava, Adrian já estava desperto, sentado na beira da cama, observando-a com uma preocupação serena.
— É só o trauma — ele dizia. — Você está lembrando de pedaços fora de ordem.
Uma vez, ela tentou descrever um dos sonhos em detalhes. — Tinha outro homem — ela disse. — Ele me chamava. A voz dele parecia perto, como a de alguém de quem eu gostava.
A expressão de Adrian mudou por apenas um segundo. — Sonhos são estranhos assim — ele disse. — Puxam coisas do nada.
— Mas parecia real.
Ele sorriu, paciente e frio. — Você sempre teve uma imaginação fértil.
Uma semana se passou antes que ela saísse sozinha. Adrian tinha ido a uma reunião, deixando-a aos cuidados da governanta deles, uma mulher mais velha chamada Marta, que falava pouco e se movia em silêncio.
Elena ficou na varanda, deixando o vento erguer seus cabelos. A cidade se estendia sem fim lá embaixo, carros tremeluzindo como veias de luz. Ela fechou os olhos, procurando algum vestígio de memória. Nada veio — apenas a dor silenciosa da ausência.
Quando ela se virou para voltar para dentro, algo lhe chamou a atenção perto da estante de livros na sala de estar. Uma foto emoldurada, levemente torta. Ela atravessou o cômodo e a pegou.
Era outra foto dela com Adrian, desta vez numa praia. Mas havia mais alguém ao fundo — um homem parado a poucos passos, meio virado na direção deles. A imagem estava um pouco desfocada, mas ela conseguia ver o contorno: alto, de um jeito estranhamente familiar.
Seu pulso acelerou. “Quem é esse?”, ela sussurrou.
Marta ergueu os olhos da cozinha. “O que a senhora disse?”
“Esse homem”, disse Elena, apontando para a foto. “Você sabe quem ele é?”
Marta hesitou, depois franziu a testa. “Essa foto ficava no escritório. Talvez tenha sido tirada durante a lua de mel?”
Elena voltou a observar o homem. Havia algo na postura dele, no jeito como enfiava as mãos nos bolsos, que lhe parecia conhecido. Mas, quando tentou puxar a lembrança para mais perto, ela escapou.
Adrian voltou naquela noite com o sorriso de sempre e uma caixa dos doces favoritos dela, de que ela não se lembrava de gostar. Quando ela lhe mostrou a fotografia, ele mal olhou.
“Provavelmente alguém da equipe”, disse ele. “Ou um turista. A gente viajou muito antes do acidente.”
Ela o observou com cuidado. “Você parece tão certo.”
“Eu me lembro de tudo”, ele disse. “É isso que o casamento deveria ser, não é? Um de nós lembrando quando o outro esquece.”
Ele tirou a moldura da mão dela e a colocou de volta na prateleira, perfeitamente reta desta vez.
Naquela noite, ela não conseguiu parar de pensar na figura desfocada ao fundo. Toda vez que fechava os olhos, a imagem ficava um pouco mais nítida, e um nome pairava logo além do alcance.
Quando finalmente adormeceu, o sonho voltou — a chuva martelando o vidro, faróis cortando a escuridão, e alguém gritando o nome dela. Mas, desta vez, não era a voz de Adrian.
Era a voz do homem da foto.
E, quando ela estendeu a mão em direção a ela, o sonho se retorceu. Um impacto. Um grito. Depois, silêncio.
Elena acordou ofegante, os lençóis embolados ao redor do corpo. Adrian estava sentado ao lado dela de novo, calmo como sempre.
“Pesadelo?”, ele perguntou baixinho.
Ela assentiu, sem conseguir falar.
Ele afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. “Está tudo bem”, disse. “Você está segura aqui.”
Mas, quando ela olhou nos olhos dele, sentiu aquele mesmo sussurro gelado se mexer dentro do peito.
Não, disse a mente dela. Não está segura. Ainda não.
E, no reflexo da janela escurecida atrás dele, ela achou que viu um movimento — apenas a mais tênue sombra passando pelo vidro, sumida antes que ela pudesse ter certeza de que era real.
