Capítulo 3
Soltei um grito, um grito completamente histérico, e fiquei tão desesperada tentando soltar o cinto de segurança que levei uns bons três minutos. Escancarei a porta do carro e corri para trás, onde o Zenon já estava ajoelhado.
No meu estado de choque, eu nem percebi de quem estava me aproximando nem com quem eu estava. Fui direto até ele e caí de joelhos, desabando contra o corpo dele. O impacto devia ter derrubado o Zenon, mas ele permaneceu firme, me segurando com um braço sem nem olhar na minha direção.
"O QUE ACONTECEU?! QUEM EU ATROPELEI?! EU NÃO ACREDITO NISSO! O QUE FOI QUE EU FIZ?!"
Gritei de novo, ofegante, quase em pânico total.
"EU NUNCA LEVEI NEM UMA MULTA NA VIDA! Uma vez, eu quase atropelei um guaxinim na garagem, mas desviei bem na hora e acabei acertando o vaso de flores da minha mãe. Mas tudo bem, porque eu salvei o guaxinim! EU NÃO ACREDITO que eu FIZ isso!", berrei.
Vários monitores e campistas subiam pelos caminhos de pedra em direção aos chalés ali perto. Todos se viraram para encarar a gente. Todo mundo estava olhando. Eu não fazia ideia de quão constrangido o Zenon podia estar por ser visto comigo — já que ele não demonstrava emoção nenhuma —, mas imaginei que devia ser muito.
Parei, respirando fundo. Não havia nenhum corpo debaixo do carro, então pelo menos eu não era uma assassina. Que alívio.
Ele esperou pacientemente eu me acalmar até finalmente perguntar:
"Acabou?"
A voz dele era suave e envolvente, me acalmando na mesma hora. Olhando para ele ali, eu me sentia dentro de um sonho.
"Eu... ahn... não... consigo... falar", desisti de tentar formar frases. Ele tinha me deixado sem palavras.
"Você passou por cima da minha mochila. Acho que quebrou meu notebook."
Ok, talvez eu tenha exagerado. Só um pouquinho.
"Eu não quis estragar suas coisas", eu disse. "Eu juro que sou uma motorista boa. Uma vez, eu até desviei de um guaxinim na minha garagem."
Ele levou a mão ao rosto, "O que isso tem a ver com alguma coisa?"
"Ah, é que você tinha que estar lá; foi bem dramático na hora", defendi a minha história, já meio na defensiva.
"Me lembra seu nome de novo?"
Grilos.
Ele balançou a cabeça, "Olha, tanto faz. Você pode só voltar pro seu carro pra eu pegar minha mochila e ir embora?"
Estava claro que o Zenon não ficava nada empolgado com a minha presença. Isso já tinha ficado evidente quando ele tentou trocar nossa divisão de quarto mais cedo. Agora, eu estava sendo mais incômoda do que nunca.
"Eu..."
Eu me senti péssima. Mas voltei para o meu carro, e ele pegou a mochila e foi embora, exatamente como tinha avisado. Uma parte de mim — a parte tímida, medrosa — queria continuar escondida. Normalmente, é essa parte que vence. Mas hoje, por algum motivo, um lado mais decidido tomou conta. Vamos chamar de meu lado tigresa. Sim, até pra mim isso soava ridículo.
"Espera!"
Gritei para ele do meio da nossa entrada de carro justo quando ele chegou na soleira da porta do chalé. Ele parou, com uma expressão confusa.
Juntando coragem, saí do carro.
"Você não me deixou terminar de pedir desculpa. Foi um acidente."
Ele suspirou, os músculos fortes dos ombros se movendo enquanto ajustava as alças da mochila.
"Olha, eu não quero estar aqui, e a gente não precisa fingir que se dá bem. Só fica fora do meu caminho."
Ele abriu a porta da frente.
"Ei! EI!" Até eu me surpreendi com a minha determinação. "Você não pode falar uma coisa dessas e sair andando. Não tô nem aí quem você é; eu tô tentando pedir desculpa aqui! E eu vou te pagar tudo o que eu estraguei."
Ele me deu uma olhada de cima a baixo.
"Duvido."
"Você tá insinuando que eu sou mão de vaca? Juro que vou pagar cada centavo que eu te devo, mesmo que você não mereça. Sério, quem deixa a mochila largada no chão, pra começo de conversa?! Foi muito idiota da sua parte..."
"Isso é um pedido de desculpa ou um insulto?"
"Não pode ser os dois?"
"Não é assim que funciona. Você não pode quebrar meu notebook e ainda sair xingando." Ele virou de costas, empurrando a porta da frente com um movimento de mão.
"Você que começou!" eu gritei. Bem madura, Candace...
Tá, eu vacilei. Mas eu estava determinada a consertar as coisas.
Era o certo a fazer.
Mesmo que ele fosse um babaca.
Às vezes, a vida parece uma roleta-russa. A gente nunca sabe quando está girando o tambor.
Por exemplo: quando eu cheguei no acampamento hoje, nunca imaginei que uma coisa dessas fosse acontecer. Neste verão, eu ia morar com um símbolo sexua*l.
Zenon Albert.
O que ele usa pra dormir? Ele fica andando sem camisa? Minhas noites vão virar sessões ao vivo de Magic Mike?
Perguntas válidas. Eu já ouvi o que as meninas falam dele...
"Que cheiro é esse?"
"Natureza."
Respirei fundo enquanto o Zenon e eu encarávamos dez acampantes hiperativos subindo a trilha correndo em direção ao nosso chalé, gritando e rodando em círculos. A gente tinha tirado a pior parte — ficamos com o grupo mais novo do acampamento (crianças de oito anos) pra cuidar.
"Não, sério, eu tô sentindo um cheiro mesmo", insisti.
"Problema não é meu."
"Você acha que dá pra tentar ser uma pessoa decente hoje?"
"Quem disse que eu já não tô tentando?"
Aff. Esse cara.
Ele estava incrível com uma camiseta branca, bermuda preta e um tênis Nike Zoom. O porte atlético dele era inconfundível. Eu já tinha visto ele assim antes, mas geralmente da distância segura da janela do meu quarto. E normalmente sem essa atitude convencida estragando a vista.
É impressionante como a personalidade consegue manchar uma imagem icônica. As outras pessoas sabem que ele é um babaca mimado e arrogante? Ou eu é que tive a sorte de conhecer esse lado dele?
"Alguém ajuda! Eu queimei os biscoitos!" uma monitora do chalé ao lado saiu correndo pela porta da frente.
Agora eu sabia que cheiro era aquele.
