Capítulo 4
Zenon fixou o olhar no nome entalhado na nossa cabana vizinha, ignorando a monitora que pedia ajuda.
“Cabana Banana?”
“Todos os grupos têm nome de fruta”, expliquei, vendo a cara dele se contorcer de nojo.
“Alguém pode, por favor, ajudar?” ela gritou de novo, claramente falando com a gente.
“Será que ela vai embora se a gente ignorar?” ele perguntou, apertando os olhos por causa do sol forte.
“O quê?! De jeito nenhum!” Olhei pra ele como se tivesse enlouquecido. “Ela claramente precisa de ajuda!”
“AAAAAAAHHHHH!” O grupo de crianças de 8 anos disparou correndo na nossa frente e invadiu a nossa antes tranquila cabana. Foi o começo do caos absoluto.
“Se vira com isso aí”, ele apontou para a bagunça que se formava dentro da cabana enquanto começava a andar na direção da cabana ao lado.
“Você vai mesmo me abandonar aqui?” gritei atrás dele.
“Seja legal com os vizinhos”, ele gritou de volta, com um tom claramente divertido.
O que ele sabe sobre ser um bom vizinho? Eu sou vizinha dele, afinal, e duvido que ele lembre meu nome.
“Eu falei que tava sentindo que tinha alguma coisa errada”, murmurei pra mim mesma.
Biscoitos. Deliciosos.
Zenon nunca voltou. Eu tive que mediar seis brigas diferentes por causa da escolha de beliche, como se fosse a Organização das Nações Unidas. Depois, achei o kit de primeiros socorros pra uma menina que machucou o joelho subindo na cama.
Em seguida, passei meia hora consolando um menino chorando de saudade da mãe. Sem falar no esforço que foi fazer todo mundo ficar quieto pra eu conseguir explicar as regras do acampamento.
Finalmente, um micro-ônibus chegou pra levar todo mundo pro refeitório, na hora do jantar. Eles passaram por mim como um furacão, gritando nomes de comidas.
“Panqueca!”
“Cachorro-quente!”
Eles estavam realmente empolgados com a refeição.
“Nutella!”
Pronto, essa é a minha criança preferida agora.
Desabei numa cadeira, completamente exausta. Minha roupa já tava manchada, e meu cabelo, uma bagunça. Provavelmente até linhas de preocupação estavam surgindo na minha testa. Eu sentia que tinha envelhecido uns dez anos em quatro horas.
Onde é que ele se meteu?
Zenon tinha ido “salvar” o forno da nossa vizinha e não deu mais sinal de vida. Parceria ótima, viu, Zenon. Depois de um tempo, levantei pra ir atrás dele. O que diabos ele tava fazendo lá?
Quando saí, enchi os pulmões com o ar fresco e admirei o verde intenso das árvores ao redor. Um lago azul se estendia bem na minha frente. A verdadeira beleza do Acampamento Beaver Hills tava na paisagem natural deslumbrante.
A Cabana Banana era idêntica à nossa, só que lá as monitoras cuidavam de meninas de 13 anos, então o ambiente era bem mais tranquilo. Elas também já estavam no jantar.
Espiando pela janela, vi cerca de uma dúzia de monitores esparramados pela cozinha. Alguém tinha levado bebida alcoólica, e eles estavam todos lá, relaxando juntos. Parecia o ponto de encontro oficial da galera descolada.
Eu nunca tinha sido convidada.
No meio de todo mundo, vi o Zenon, recostado numa cadeira com uma cerveja na mão. A postura relaxada dele parecia quase magnética; ele realmente parecia carismático...
Como a aparência podia enganar.
“Uou”, alguém apontou na minha direção. “Que que é aquilo?”
Eu? Eu devia estar com cara de maluca, espiando pela janela com o cabelo todo desgrenhado e os olhos arregalados.
Na hora, me abaixei e me enfiei no meio dos arbustos, ouvindo alguém dizer: “Ela caiu no mato... Sei lá. Alguma estranha olhando pra gente.”
Ah, não. Rezei em silêncio para ninguém me encontrar. Apesar do desconforto, continuei escondida. Os galhinhos arranhavam minha pele, e eu tinha quase certeza de que uma formiga tinha entrado no meu tênis.
— Ei.
Olhei para cima.
Zenon estava inclinado para fora da janela, com os braços apoiados casualmente no parapeito. Ele não parecia surpreso por me ver — provavelmente já esperava por isso.
— Oi, e aí, tudo bom? Você resolveu a situação do forno? — perguntei, tentando agir como se aquilo fosse totalmente normal. Tipo, quem é que não passa o tempo livre no meio dos arbustos?
— Tá tudo bem aí embaixo?
— Eu? Bem? Claro! — respondi empolgada demais, fazendo um galho bater bem no canto da minha boca. Cuspi terra. — Esse é o melhor dia da minha vida.
Um sorriso discreto apareceu no canto dos lábios dele.
Mais tarde, enquanto eu tomava banho, o Zenon voltou da cabana da nossa vizinha. Ela tinha dado pra ele uma bandeja de biscoitos, que ele nem tinha encostado. Minha recompensa pelo dia eram alguns arranhões nas pernas, um no rosto e o cotovelo avermelhado.
O vapor tomou conta do banheiro quando aumentei bem a temperatura da água. Eu amo transformar banho quente em show particular, então não notei que o Zenon já tinha voltado pra casa, porque eu estava ocupada demais cantando.
— PLEASE HAVE MERCY ON ME, TAKE IT EASY ON MY HEART. EVEN THOUGH YOU DON'T MEAN TO HURT ME—
Minha voz é horrível. Sei que você provavelmente não estava esperando a voz de um anjo... Tá bom, com certeza não estava. Mas eu estava dando o meu máximo mesmo assim, cantando num tom agudo e completamente desafinado enquanto ensaboava o cabelo com mais uma camada de shampoo, fingindo que o frasco era meu microfone.
— WOULD YOU PLEASE HAVE MERCY, MEEEEERCY ON MY HEAR—
— Tem um gato morrendo aqui?
Eu gritei e derrubei o frasco de shampoo no chão. Quase escorreguei nele, lutando pra me manter em pé dentro do box.
— Zenon?!
Às vezes o calor faz a gente imaginar coisas. Ou talvez esse fosse só o começo de uma situação bem estranha.
Uma sombra escura começou a se formar do outro lado da cortina — o contorno de um garoto alto, de ombros largos. Como se fosse um desenho pra colorir, o resto eu preenchi na minha cabeça.
A voz dele, profunda e confiante, veio de trás da cortina:
— Cantando Shawn Mendes?
— O que você tá fazendo no meu banheiro?
— Tô pedindo misericórdia.
Meu Deus.
Pode me matar agora.
Fazia tempo que eu não passava tanta vergonha. Primeiro, eu vou parar nos arbustos embaixo de uma janela, e agora estou cantando que nem um gato morrendo...
— Eu paro de cantar — falei, concedendo o pedido de misericórdia dele — se você sair do meu banheiro.
— Tá bom.
Mas a sombra dele não se mexeu.
— Zenon! Agora!
O que ele estava fazendo? Planejando entrar? Eu não estava pronta pra ele me ver sem roupa. A gente tinha acabado de se falar pela primeira vez hoje, e agora a situação estava escalando desse jeito...
— Para de surtar. Eu não tô tentando flertar com você.
— Então o que você tá fazendo?! — Eu já estava irritada. O shampoo escorria pelo meu pescoço como se fosse gosma.
— Eu preciso de pasta de dente.
Isso é por causa de pasta de dente? Ele invadiu o meu banho por causa de pasta de dente?
— Por que a gente não pode conversar sobre isso depois que eu terminar o banho?
— Até lá eu já vou estar surdo.
Cerrei os dentes.
— Eu paro de cantar. Talvez seja a primeira vez que uma garota fala isso pra você, Zenon, mas cai fora.
— Primeira vez que um cara entra no seu banheiro?
Meu silêncio respondeu por mim.
— Não é a minha primeira vez, Candy.
Arregalei os olhos e segurei firme na cortina, com medo de ele entrar. Ele riu da minha reação e saiu pela porta, pasta de dente na mão:
— A gente não é tão próximo assim. Continua sonhando.
— Eu não tava!
Desisto.
