Capítulo 5
— Calma aí, pessoal! Pelo visto vocês já estão prontos pra muita diversão e emoção! — gritou o senhor Woodhouse no microfone, imitando o Elvis Presley.
A gente tinha se reunido num teatro ao ar livre para a primeira reunião com todos os monitores. Pode até soar chique, mas na prática era só um palco de madeira cercado de bancos. O senhor Woodhouse ia apresentar a gente e explicar nossas responsabilidades pro verão.
Eu sentei sozinha em uma das fileiras. Todos os outros bancos estavam ocupados, menos o meu, o que me fez sentir meio isolada, como se eu fosse contagiosa.
Muitos dos monitores eram conhecidos do ano anterior, mas, infelizmente, ninguém parecia lembrar quem eu era. Ver todo mundo conversando animado, colocando o papo em dia, me fez desejar ter alguém pra conversar também. Mas aí eu pensava que, no fim das contas, tanto fazia, porque você não sente falta do que nunca teve, né?
Eu e o Zenon nos separamos no caminho pra cá. Um grupo de meninas interceptou ele, e eu não fiquei pra assistir a mais um reforço pro ego já superinflado dele.
O senhor Woodhouse continuou:
— Eu sei que vocês são adolescentes cheios de energia, doidos pra eu acabar logo, mas a gente tem responsabilidades importantes esperando por nós neste verão. Vamos revisar as regras e…
Bem nessa hora, o Zenon entrou no teatro, no meio do discurso do senhor Woodhouse. Todos os olhos se voltaram pra ele. Um murmúrio correu pela plateia, foi ficando mais alto até que o público inteiro parecia um enxame, fofocando sobre ele. O nome dele pipocava por toda parte, e alguns até tiraram fotos.
Essa reação pegou ele desprevenido.
— Zenon Albert! — chamou o senhor Woodhouse no microfone, mudando de Elvis imitador pra apresentador de programa de auditório. — Bem-vindo ao Acampamento Beaver, onde não falta calor humano nem emoção! Com a sua presença, todo mundo sabe que está no lugar certo!
Pronto, o Zenon virou oficialmente o garoto-propaganda do acampamento. Não posso dizer que estou surpresa; é capaz da cara dele estar na capa do panfleto do ano que vem.
— Por que você não se senta, Zenon? — sugeriu o senhor Woodhouse. — Quem é mesmo a sua dupla?
— É a…
Ele tava mesmo esquecendo o meu nome? Nossos olhos se encontraram.
“Candace”, articulei sem som.
— Candy — ele repetiu, em voz alta.
Candace, seu idiota.
— Maravilha. Aqui a gente só trabalha com duplas dos sonhos. A nossa famosa Taça dos Monitores é entregue à melhor dupla de monitores no fim do verão. Enfim, Tamara, por que você não começa explicando a parte de logística?
Tamara, a miss do acampamento, levantou-se para falar. Ela era sobrinha do senhor Woodhouse e também modelo de passarela, prestes a ir para o Miami Dade College no outono. No verão passado, todo cara aqui tinha ficado doido pra sair com ela.
Zenon se sentou ao meu lado, aproveitando o espaço de sobra, já que a minha fileira estava vazia. Eu tentei ignorar os olhares curiosos que vinham na nossa direção.
"Você tá guardando esses lugares?", ele perguntou, estranhando o banco vazio.
"Não."
Deixei o silêncio ficar. Não havia necessidade de confessar para Zenon Albert que eu não tinha amigos.
As pessoas ainda encaravam o Zenon, e estar tão perto de tanta atenção me deixava desconfortável. Lancei um olhar rápido pra ele — ele parecia completamente tranquilo.
Problemas de cara gato.
Não faço a menor ideia de como é isso.
Os pássaros cantavam enquanto o sol nascente banhava as copas das árvores com um brilho dourado. O Acampamento Beaver Hills parecia uma fuga tranquila, um mundo distante da realidade pesada à qual eu estava acostumada.
Pela primeira vez, eu tinha acordado sem a minha família gritando ou a luz cortando porque a minha mãe esqueceu de pagar a conta. Era como se a Cachinhos Dourados tivesse me emprestado o chalé aconchegante dela por uma noite.
Ainda enrolada no meu pijama felpudo verde, arrastei os pés até a cozinha — e congelei ao ver a cena à minha frente.
Tamara. De fio-dental e camiseta. Comendo o meu Froot Loops.
"Esses são os meus Froot Loops?" Foi a primeira coisa que saiu da minha boca.
"São?", ela retrucou, seca, sem se dar ao trabalho de levantar o olhar. Depois de mais uma colherada, acrescentou: "Você podia muito bem comer menos."
Ah, ela teve a coragem mesmo.
Tamara era a rainha absoluta do acampamento de verão e, fora dali, uma modelo de verdade. Eu nunca tinha falado com ela antes — ela vivia cercada pelo próprio fã-clube. E, ainda assim, lá estava ela, na minha cozinha, comendo o meu cereal.
"O Zenon sabe que você tá aqui?"
"O que você acha?", ela rebateu na hora.
Menos de 24 horas de acampamento e eles já tinham… pois é.
"Por que você tá fazendo tanta pergunta?", ela rosnou.
"Porque você tá praticamente pelada na minha cozinha", respondi.
Uma risada grave soou atrás da gente. Tamara levou um susto, endireitou o cabelo na pressa e fez biquinho enquanto se virava na direção do dono da voz.
Zenon. Albert.
O motivo de a garota mais popular do acampamento estar dormindo na minha cabana.
Olhei pra ele e, de repente, entendi por que as meninas aqui enlouqueciam por causa dele.
Encostado no batente da porta, com um braço apoiado na moldura, ele observava a cena com uma expressão divertida. Como os olhos azuis dele podiam ser tão brilhantes logo de manhã? Enquanto isso, os meus mal conseguiam ficar abertos. O cabelo dele estava bagunçado de um jeito que, de alguma forma, deixava tudo ainda mais naturalmente atraente.
