Capítulo 1 1

Ainda não havia amanhecido quando Serena Vasconcellos de Alencar desceu do carro diante da rodoviária carregando duas malas, uma mochila e a estranha certeza de que nenhuma daquelas bagagens continha o que realmente pesava.

O frio da madrugada atravessou o tecido do casaco assim que seus pés tocaram a calçada úmida, trazendo consigo o cheiro de asfalto molhado, combustível e café recém-passado que escapava de uma pequena lanchonete próxima às plataformas.

Por alguns segundos, ela permaneceu parada junto às malas, observando pessoas que chegavam e partiam sob a iluminação branca e impessoal do terminal.

Havia abraços demorados, despedidas apressadas, crianças sonolentas apoiadas nos ombros dos pais, casais trocando recomendações de última hora.

Todos pareciam pertencer a alguém.

Serena desviou os olhos quando viu uma mulher agarrar o rosto de um homem entre as mãos antes de beijá-lo.

Aquela intimidade simples doeu mais do que deveria, porque ninguém estava ali para se despedir dela.

E aquilo fora escolha sua.

Ninguém sabia exatamente onde Serena estava naquela madrugada.

Muito menos para onde estava indo.

Desde que recebeu alta do hospital, agiu com uma eficiência quase assustadora para alguém que ainda despertava durante a noite sentindo no corpo o impacto de um carro e, no peito, algo muito mais difícil de tratar.

Reuniu documentos, separou algumas roupas, escolheu os livros que não conseguiria abandonar, guardou fotografias dos pais e resolveu tudo que podia sem deixar rastros desnecessários.

Não telefonou para antigos colegas. Não avisou os conhecidos. Não escreveu mensagens de despedida.

Não porque ninguém importasse, mas porque qualquer conversa poderia conduzir ao único nome que Serena não suportava pronunciar.

Gabriel.

O pensamento surgiu com a mesma violência de sempre.

Ela apertou a alça da mochila.

O pior não era odiá-lo.

Era não conseguir.

Por baixo da raiva, da humilhação e da imagem que continuava retornando quando fechava os olhos, ainda existia amor.

Um amor absurdo, inconveniente e dolorosamente vivo por um homem que Serena acreditava ter transformado anos de confiança em uma mentira.

Talvez fosse isso que mais a envergonhasse.

Se Gabriel tivesse desaparecido de dentro dela no instante em que o encontrara naquela cama, tudo seria mais simples.

Serena poderia ir embora movida apenas pela indignação. Poderia chamá-lo de canalha, lamentar o tempo perdido e continuar.

Mas o amor não obedece.

Permanece.

Ferido, humilhado, quase irreconhecível, mas permanece.

Serena puxou as malas até a plataforma indicada no bilhete.

O funcionário conferiu seu nome e devolveu a passagem sem saber que aquele pequeno gesto parecia oficializar o fim de uma vida inteira.

Ela subiu os degraus do ônibus, guardou a mochila no compartimento acima do assento e se acomodou junto à janela.

Somente quando apoiou as mãos sobre o colo percebeu que os dedos tremiam. Apertou-os uns contra os outros, respirando lentamente, como fizera tantas vezes no hospital quando a dor aumentava e os médicos pediam que relaxasse.

Não adiantou.

A dor que a fazia tremer não estava onde o carro a atingira.

Quando o ônibus começou a se mover, Serena virou o rosto para a janela.

As luzes da rodoviária deslizaram pelo vidro antes de desaparecerem atrás dela.

A cidade ainda dormia sob a escuridão, com semáforos piscando sobre avenidas quase vazias e poucas janelas acesas nos prédios.

Era a cidade onde estudou, onde enterrou os pais, onde aprendeu a sobreviver depois de perdê-los e onde, quando já não acreditava que conseguiria pertencer novamente a alguém, conheceu Gabriel Montenegro Avelar.

A primeira esquina reconhecida trouxe uma lembrança.

Um café depois de uma aula.

Na avenida seguinte, outra.

Uma tempestade que os pegara desprevenidos e os fizera correr até o carro enquanto Gabriel ria porque Serena tentava proteger uma pasta de anotações em vez da própria cabeça.

Mais adiante estava o restaurante onde comemoraram sua bolsa de pesquisa.

Serena fechou os olhos.

Foi pior.

Gabriel apareceu inteiro.

Não o homem daquela última noite.

O outro.

O professor.

O amigo.

O amante.

O homem que ela imaginará amar pelo restante da vida.

Conhecera-o numa sala de aula, e talvez aquela fosse a crueldade maior:

Antes de desejar Gabriel, Serena o admirou.

Ele não ensinava repetindo slides. Fazia perguntas, desafiava certezas e obrigava os alunos a defenderem aquilo que afirmavam.

Na primeira vez em que discordou dela diante da turma, Serena preparou-se para ser corrigida.

Em vez disso, Gabriel se aproximou da bancada, apoiou a mão sobre a madeira e pediu que sustentasse o argumento.

Ela sustentou.

Ele contestou.

Serena respondeu novamente.

No fim, Gabriel sorriu.

— Uma boa cientista precisa saber defender uma hipótese sem se apaixonar por ela.

Meses depois, Serena se apaixonaria por ele.

A ironia quase a fez rir agora.

Quase.

O relacionamento não começou de maneira irresponsável. Gabriel fez exatamente o contrário.

Enquanto existiu qualquer vínculo acadêmico capaz de tornar a aproximação inadequada, mantivera distância.

Serena percebeu a atração nos silêncios longos, nos olhares interrompidos e na forma como as conversas continuavam depois que os assuntos científicos terminavam, mas ele jamais ultrapassou aquela fronteira.

Somente quando não havia mais relação direta entre professor e aluna Gabriel permitiu que falassem sobre aquilo que existia entre os dois.

Até naquele momento fora cuidadoso.

Serena lembrava-se da noite.

Do olhar dele.

Da distância deliberada entre seus corpos.

— Se você disser que não, nada muda entre nós.

— Eu sei.

— Serena, eu preciso que tenha certeza.

Ela tivera.

— Tenho certeza.

Agora aquelas duas palavras pareciam pertencer a uma mulher ingênua.

Serena abriu os olhos quando percebeu que estava prendendo a respiração.

O ônibus já deixava os bairros centrais.

Uma linha acinzentada começava a surgir no horizonte, anunciando o amanhecer, e ela apoiou a testa no vidro frio.

Depois vieram os anos de pequenas coisas.

E talvez o amor tivesse sido construído justamente nelas.

Café dividido entre livros. Finais de semana estudando. Jantares improvisados. Discussões por bobagens. Reconciliações na cozinha. Passeios sem importância.

Gabriel dormindo no sofá enquanto esperava Serena terminar um relatório. Serena reclamando dos artigos espalhados por toda parte.

Risadas. Toques distraídos. Silêncios que nunca precisavam ser preenchidos.

Quando os pais dela morreram durante a pandemia, Gabriel não tentou ocupar um lugar que não lhe pertencia.

Nunca disse que compreendia completamente.

Nunca pediu que Serena superasse.

Nos dias em que ela conseguia falar, ele escutava. Nos dias em que não conseguia, sentava-se ao lado e permanecia.

Apenas permanecia.

Depois de perder pai e mãe, Serena passou a acreditar que qualquer pessoa amada poderia desaparecer.

Gabriel lhe ensinou, lentamente, que algumas ficavam.

Talvez por isso descobrir que ele também podia destruir sua confiança tivesse sido tão devastador.

Serena não perdeu apenas um namorado naquela noite.

Perdeu o lugar onde acreditava estar segura.

O ônibus alcançou a rodovia quando o céu começou a clarear, e os prédios deram lugar a terrenos abertos cobertos por névoa.

Serena observou a paisagem, mas outra noite se impôs sobre a manhã.

A formatura.

Ela se lembrava de estar feliz.

Não apenas contente.

Feliz.

Passou horas se preparando, ajeitou o cabelo duas vezes e trocara os brincos porque Gabriel brincara dias antes que um dos pares parecia equipamento de laboratório.

Ela esperou encontrá-lo entre os convidados.

Procurou seu rosto assim que entrou.

Não estava.

Durante a cerimônia, tornou a procurar.

Nada.

Consultou o telefone repetidamente.

Nenhuma mensagem.

Ligou uma vez.

Depois outra.

Depois tantas que perdeu a conta.

A raiva demorou a chegar.

Primeiro veio o medo.

Esse detalhe ainda a destruía.

Enquanto Gabriel não aparecia, Serena não imaginou traição.

Pensou em acidente, doença, emergência.

Porque Gabriel jamais faltaria àquele momento sem avisá-la.

Quando a cerimônia terminou, ela mal conseguia comemorar.

Dirigiu até o apartamento.

A porta estava entreaberta.

A lembrança fez o estômago de Serena se contrair.

Chamou por ele.

Nenhuma resposta.

Entrou.

O corredor pareceu longo demais.

A luz do quarto estava acesa.

E então o mundo que conhecia terminou.

A mulher.

A cama desarrumada.

Um corpo feminino perto demais daquele que Serena conhecia de olhos fechados.

Gabriel.

Ela não perguntou.

Não conseguiu.

Não havia gritado, quebrado nada ou exigido explicações.

O choque foi grande demais até para a raiva.

Por alguns segundos, apenas ficará ali, incapaz de conciliar o homem diante dela com aquele que, poucas horas antes, deveria estar assistindo à sua formatura.

Depois correu.

Agora, dentro do ônibus, Serena fechou a mão sobre a própria coxa. As unhas afundaram no tecido.

Recordava a chuva.

O ar entrando nos pulmões depressa demais.

As lágrimas impedindo que enxergasse direito.

Depois, faróis.

Uma buzina.

O ruído violento dos pneus sobre o asfalto molhado.

A luz vindo em sua direção.

Dor.

E nada.

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