Capítulo 2 2

Quando o ônibus finalmente reduziu a velocidade diante de uma rodoviária pequena, cercada por construções baixas e árvores que projetavam sombras compridas sobre as calçadas, Serena Vasconcellos de Alencar demorou alguns segundos para compreender que havia chegado.

Depois de tantas horas vendo cidades surgirem e desaparecerem pela janela, ouvindo anúncios de paradas e sentindo o corpo reclamar da mesma posição, aquela informação pareceu estranhamente definitiva.

Ela ergueu os olhos para a placa do terminal, conferiu o nome da cidade com o endereço anotado no celular e sentiu um aperto discreto no estômago. Era ali.

Ou, pelo menos, era o ponto até onde Vicente Ferraz Villar havia orientado que viajasse.

O restante do caminho seria feito de carro, porque o Centro de Pesquisas ficava afastado da área urbana.

Serena respirou fundo antes de se levantar, pegou a mochila e esperou os outros passageiros avançarem pelo corredor.

O corpo ainda guardava pequenas dores do atropelamento, principalmente quando fazia movimentos rápidos, e a recomendação médica para que evitasse esforços parecia incompatível com duas malas, uma mochila e a decisão de começar a vida novamente a centenas de quilômetros de tudo o que conhecia.

O calor do lado de fora a atingiu assim que desceu.

Diferente do frio úmido da madrugada em que partiu, aquela tarde tinha um sol intenso, embora um vento constante movimentasse as copas das árvores ao redor da rodoviária.

O cheiro de combustível se misturava ao de terra aquecida e comida caseira que escapava de um restaurante do outro lado da rua.

Serena colocou os óculos escuros, observou as poucas pessoas esperando passageiros e procurou algum rosto conhecido apenas por instinto.

Não havia como conhecer ninguém.

Vicente disse que mandaria alguém buscá-la, mas não explicou quem.

Ela puxou a primeira mala para perto, depois a segunda, e conferiu novamente o telefone. Nenhuma mensagem nova.

Por um instante, uma insegurança incômoda atravessou sua determinação. Estava em uma cidade desconhecida, praticamente sem contatos, prestes a trabalhar em um lugar que conhecia principalmente pela reputação do homem que o dirigia.

Antes daquela semana, Serena jamais teria feito algo semelhante.

Planejava cada decisão, comparava possibilidades, pesquisava endereços e evitava mudanças impulsivas.

Agora havia atravessado uma distância enorme porque ficar pareceu mais assustador do que partir.

— Doutora Serena Vasconcellos de Alencar?

A voz masculina fez Serena se virar imediatamente.

Um homem de aproximadamente quarenta e poucos anos aproximava-se usando calça jeans, botas de trabalho e camisa de mangas dobradas até os antebraços.

Tinha o rosto queimado pelo sol, alguns fios grisalhos junto às têmporas e um jeito tranquilo que contrastava com a avaliação cuidadosa que fazia do movimento ao redor.

Serena tirou os óculos, mantendo uma das mãos sobre a alça da mala.

— Serena está ótimo. E sim, sou eu.

O homem sorriu, estendendo a mão.

— Miguel Arantes Figueira. Trabalho com o doutor Vicente. Ele queria vir pessoalmente, mas ficou preso numa reunião por videoconferência e me ameaçou umas três vezes para eu não me atrasar.

A espontaneidade inesperada arrancou de Serena algo muito próximo de um sorriso.

— Então acho que sua missão foi cumprida. Eu acabei de chegar.

— Ainda bem. Porque o chefe é um homem muito educado até alguém mexer nos horários dele. Depois disso, eu não garanto nada.

Miguel pegou uma das malas antes que Serena pudesse protestar. Quando tentou alcançar a segunda, ela segurou a alça com mais força.

— Essa eu consigo levar.

Ele olhou primeiro para a mala, depois para ela.

Não havia piedade em sua expressão, apenas uma observação rápida que fez Serena suspeitar que Vicente lhe contara sobre o acidente.

— Eu não disse que não consegue. Só estou dizendo que o carro está ali e eu tenho duas mãos livres.

Serena hesitou.

Nas últimas semanas, qualquer gesto de cuidado despertava nela uma resistência quase automática.

Não queria parecer frágil. Não queria que ninguém acreditasse que precisava ser salva.

Entretanto, havia uma diferença desconcertante entre ser ajudada e ser tratada como incapaz, e Miguel parecia compreender essa fronteira sem sequer conhecê-la.

— Tudo bem. Obrigada.

O veículo estacionado próximo à saída era uma SUV 4x4 escura, alta, com pneus próprios para terrenos difíceis e uma fina camada de poeira avermelhada cobrindo parte da lataria.

Miguel acomodou as malas no compartimento traseiro enquanto Serena entrou no banco do passageiro.

O interior cheirava a couro, café e terra.

Havia mapas dobrados no porta-luvas, uma lanterna presa junto ao console e um rádio comunicador instalado perto do painel. Aquilo não se parecia exatamente com o transporte de um centro científico sofisticado.

Serena passou os dedos discretamente pela lateral do banco enquanto Miguel assumia o volante e ligava o motor.

— Quanto tempo até o Centro?

— Dependendo da estrada, uns quarenta e cinco minutos. Se chover, pode virar uma hora e meia.

—Se chover muito, a gente começa a negociar diretamente com Deus.

Serena voltou a sorrir, dessa vez sem conseguir impedir.

— O doutor Vicente não mencionou essa parte.

— Vicente tem um conceito bastante criativo de informação essencial.

Eles deixaram a área central poucos minutos depois.

A cidade era pequena, mas movimentada o suficiente para concentrar mercados, farmácias, uma praça arborizada, hospital, lojas e restaurantes.

Miguel apontou alguns lugares enquanto dirigia, explicando onde Serena encontraria o que precisasse quando viesse à cidade.

Ela prestava atenção, tentando memorizar referências, até as construções começarem a rarear. Logo, o asfalto foi cercado por campos, plantações e propriedades rurais.

O horizonte parecia maior ali. Não havia prédios interrompendo a visão, apenas extensões verdes, cercas, árvores e, ao longe, elevações cobertas por vegetação.

— É muito isolado?

Miguel diminuiu a velocidade ao passar por um trecho irregular da pista.

— O suficiente para ter paz e perto o bastante para chegar à cidade quando precisar.

—A propriedade é grande, mas você não vai ficar sozinha no meio do nada. Tem gente morando lá, famílias, pesquisadores, pessoal administrativo, segurança.

—É praticamente uma pequena comunidade.

Serena franziu ligeiramente a testa.

— Vicente falou de alojamentos.

— Ele chama de alojamento porque é cientista.

—Se dependesse dele, uma casa de três quartos com varanda seria unidade residencial de apoio operacional.

Ela soltou uma risada curta, e o próprio som a surpreendeu.

Serena ficou imóvel por um instante, como se tivesse cometido alguma espécie de deslealdade com a dor que carregava.

Fazia poucos dias que sua vida havia desmoronado.

Parecia errado conseguir rir.

A sensação desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, substituída por uma lembrança indesejada de Gabriel sorrindo enquanto tentava convencê-la de que cientistas davam nomes excessivamente complicados às coisas simples.

O peito apertou. Serena virou o rosto para a janela antes que Miguel percebesse a mudança.

A estrada asfaltada terminou cerca de vinte minutos depois.

A SUV entrou por uma via de terra larga e bem conservada, ladeada por árvores altas.

O som dos pneus mudou imediatamente, e pequenas nuvens de poeira se ergueram atrás do veículo. Serena observou propriedades distantes, rebanhos espalhados pelos pastos e fileiras ordenadas de plantações.

Depois a vegetação se tornou mais densa.

O ar que entrava pela pequena abertura da janela carregava cheiro de folhas, terra e alguma flor que ela não conseguiu identificar.

Pela primeira vez desde que deixara a cidade, Serena não sentiu necessidade de comparar o lugar com alguma lembrança.

— Estamos chegando.

Ela endireitou a postura.

A estrada fez uma curva ampla e revelou uma porteira de madeira maciça entre duas colunas de pedra. Uma placa discreta estava presa ao lado esquerdo. Serena inclinou-se para frente para ler.

"Fazenda Experimental Vale Verde — Pesquisa, Conservação e Desenvolvimento Sustentável."

Piscou.

Leu novamente.

Depois olhou para Miguel.

— Fazenda?

O canto da boca dele se ergueu.

— Essa costuma ser exatamente a reação.

— O endereço dizia Centro de Pesquisas Ambientais Vicente Ferraz Villar.

— E você chegou ao endereço certo.

A porteira começou a abrir automaticamente. Serena acompanhou o movimento com uma confusão crescente.

Do outro lado havia uma longa estrada arborizada.

À esquerda, pastagens se estendiam até um lago. À direita, enxergava fileiras de árvores frutíferas, estufas, um galpão de madeira e um trator atravessando lentamente uma área cultivada.

Mais adiante, surgia uma grande construção de arquitetura colonial cercada por jardins.

Nada lembrava o instituto científico que Serena imaginara durante toda a viagem.

— Miguel, onde estão os laboratórios?

Ele entrou com a SUV pela propriedade e esperou a porteira fechar atrás deles antes de responder.

— Você vai descobrir.

Serena virou-se para ele.

— Isso foi propositalmente misterioso.

— Conviver com Vicente causa efeitos colaterais.

Ela tornou a olhar para fora, mas dessa vez sua curiosidade começava a vencer o cansaço.

Passaram por um pomar onde trabalhadores cuidavam das árvores, por uma área de estufas modernas parcialmente escondidas atrás de vegetação e por um pequeno lago onde aves caminhavam próximas à margem.

Havia algo cuidadosamente organizado naquela paisagem. Nada parecia colocado ao acaso.

Até as áreas aparentemente rurais tinham placas discretas, sensores, pequenas estações meteorológicas e estruturas que Serena reconheceu como equipamentos de monitoramento ambiental.

Então compreendeu que estava olhando errado.

Aquilo não era apenas uma fazenda.

Era um laboratório vivo.

A percepção fez seu coração acelerar pela primeira vez naquele dia por uma razão que não estava relacionada a Gabriel.

Miguel estacionou diante da grande casa colonial. Antes mesmo que desligasse o motor, a porta principal se abriu.

Um homem alto, de cabelos completamente grisalhos, apareceu na varanda.

Serena o reconheceu imediatamente.

Dr. Vicente Ferraz Villar.

O cientista que ela conhecia de artigos, entrevistas, congressos e fotografias caminhou até o primeiro degrau da varanda e permaneceu ali, observando a SUV com uma expressão que Serena não conseguiu interpretar.

Quando ela abriu a porta e desceu, Vicente sorriu.

Não foi o sorriso formal de alguém recebendo uma nova funcionária.

Havia alívio nele.

Quase emoção.

— Finalmente você chegou, Serena.

Ela ficou imóvel por um instante.

Vicente desceu os degraus lentamente e parou diante dela.

— Bem-vinda à sua nova casa.

Serena olhou para o homem, depois para a propriedade verde que se estendia ao redor deles.

Nova casa.

As duas palavras tocaram exatamente a parte dela que ainda estava tentando compreender tudo o que havia perdido.

E, pela primeira vez desde que partira, Serena não pensou no lugar que deixou para trás.

Pensou no que poderia existir diante dela.

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