Capítulo 3 3

CAPÍTULO 2 — O HOMEM POR TRÁS DO CIENTISTA

PARTE 1

Serena despertou pouco antes do alarme e levou alguns segundos para reconhecer o quarto.

Em vez do trânsito, das buzinas e dos passos de vizinhos que costumavam marcar suas manhãs, ouviu pássaros, folhas agitadas pelo vento e sons distantes vindos da propriedade.

A luz atravessava as cortinas de maneira suave, e o cheiro de madeira misturado ao da roupa de cama limpa reforçou a sensação de estar muito longe da vida anterior.

Bastou enxergar uma das malas ainda fechada junto à parede para que tudo retornasse:

A viagem, a fazenda, Vicente, a nova casa e o celular desligado sobre a mesa.

Gabriel surgiu em seus pensamentos imediatamente. O corpo reagiu antes que Serena pudesse impedir:

Os dedos apertaram o lençol, o maxilar enrijeceu e a respiração ficou presa. Se ligasse o telefone, provavelmente encontraria mensagens e chamadas.

Talvez explicações.

Mas a lembrança da porta entreaberta, do quarto e da mulher junto de Gabriel ainda era dolorosa demais.

Serena fechou os olhos e respirou profundamente até conseguir afastar a imagem. Não atravessara centenas de quilômetros para continuar vivendo presa àquela noite.

Quando se levantou, uma pontada no quadril lembrou o atropelamento, mas desapareceu depois de alguns passos.

Vicente a esperaria às sete e meia. Aquela seria sua primeira manhã verdadeiramente nova.

Quarenta minutos depois, Serena saiu usando roupas confortáveis, botas baixas e os cabelos presos.

A propriedade estava coberta por uma névoa fina, gotas de orvalho brilhavam sobre a grama e o sol atravessava as árvores.

Ela respirou profundamente o cheiro de terra úmida e vegetação, percebendo que até os aromas daquele lugar eram diferentes.

Foi então que Samuel Bastos surgiu pela estrada carregando uma caneca térmica. Alto, de postura naturalmente vigilante, apresentou-se como marido de Lígia e responsável pela segurança.

Serena agradeceu a gentileza da mulher no dia anterior, e Samuel brincou que Lígia só deixava de ser gentil quando alguém invadia sua cozinha durante o preparo do pão.

A conversa simples arrancou de Serena uma pequena risada.

Samuel explicou que Vicente não estava na casa-sede, mas a esperava perto do lago.

Quando ela comentou que ainda faltavam quinze minutos, ele respondeu que, para Vicente, aquilo significava estar no horário.

Serena seguiu pela trilha indicada, descendo por um terreno cercado por vegetação até avistar o lago refletindo a luz da manhã.

Vicente estava agachado diante de uma caixa metálica, examinando um equipamento ligado à água.

— Achei que estaria me esperando.

Vicente levantou os olhos.

— Estou.

— Parece que está trabalhando.

— Uma coisa não impede a outra.

Quando se levantou, Serena observou o equipamento e perguntou se era um sensor de condutividade.

Vicente simplesmente o entregou. Depois de examiná-lo, ela identificou um aparelho multiparâmetro capaz de avaliar condutividade, temperatura, pH e oxigênio dissolvido. O sorriso discreto dele revelou que o teste fora proposital.

— O que você vê? Perguntou, apontando para o lago.

— Um lago.

Vicente esperou.

Serena estreitou os olhos.

— Imagino que essa resposta esteja incompleta.

Ela tornou a observar a água, dessa vez como cientista.

Notou vegetação marginal, diferentes profundidades aparentes, presença de aves, insetos, transparência da água, pontos de entrada e saída e equipamentos de monitoramento.

Concluiu-se que se tratava de um ecossistema artificial integrado ao ambiente natural, provavelmente utilizado para acompanhar variações ambientais, períodos de chuva e estiagem, alterações microbiológicas, nutrientes e possíveis contaminantes.

— Melhor. Vicente respondeu.

Enquanto caminhavam pela margem, ele explicou que conhecia mais do trabalho de Serena do que ela imaginava.

Lera seu estudo sobre resistência microbiana em ambientes aquáticos submetidos a pressão química e também um relatório de estágio que nunca fora publicado, enviado por seu antigo orientador.

Serena se lembrava perfeitamente daquele trabalho.

Insistira que determinada anomalia deveria ser investigada, mesmo quando outros consideravam os resultados suficientes.

— E qual foi sua opinião? Perguntou.

Vicente parou diante dela.

— Que você estava certa em não ignorar uma anomalia apenas porque ela atrapalhava a hipótese inicial.

O reconhecimento a atingiu profundamente.

Serena passara anos tentando demonstrar que juventude não significava incapacidade, e Vicente não parecia elogiá-la para agradá-la.

Quando perguntou se aquela fora a razão do convite, ele explicou que era apenas uma delas. Queria alguém que fizesse perguntas antes de aceitar respostas.

Chegaram a uma pequena ponte sobre um canal ligado ao lago. Vicente apoiou as mãos no corrimão e explicou a filosofia que orientava o Centro.

Segundo ele, muitos pesquisadores estudavam a natureza como se ela existisse do outro lado de uma parede:

Coletavam uma amostra, colocavam-na num recipiente e começavam a tratar aquele fragmento como se fosse o ambiente inteiro.

Mas um frasco representava apenas uma fotografia microscópica de um sistema que continuava mudando.

Era por isso que construíra aquele lugar.

Campo e laboratório precisavam funcionar juntos.

Microbiologia, geoprocessamento, solo, água, vegetação, produção agrícola, recuperação ambiental e comunidades faziam parte de um mesmo sistema.

Ninguém trabalhava verdadeiramente sozinho porque a natureza não respeitava divisões acadêmicas.

Serena sentiu algo despertar dentro dela.

Ainda não era felicidade, mas uma curiosidade intelectual que a dor havia abafado desde a formatura.

— Quantos projetos estão ativos?

— Vinte e sete.

Ela se virou depressa, sentindo uma discreta fisgada no quadril. Vicente percebeu, mas respeitou seu silêncio.

— E em qual vou trabalhar?

— Ainda não decidi.

Serena franziu a testa.

— O senhor me trouxe até aqui sem decidir o que vou fazer?

— Sei o que quero que faça. Ainda não decidi por onde quero que comece.

Ele a conduziu até parcelas experimentais destinadas à recuperação microbiológica do solo sob diferentes formas de manejo e mencionou Marina, a agrônoma responsável por parte daquele trabalho.

Quando Serena demonstrou conhecer o nome, admitiu ter pesquisado a equipe antes de aceitar a proposta.

— Então pesquisou menos da metade. Vicente comentou.

A revelação despertou outra pergunta.

Serena queria saber por que existiam tão poucas informações públicas sobre o Centro.

Vicente demorou alguns segundos antes de explicar que certos trabalhos precisavam de divulgação, enquanto outros exigiam proteção contra interferência, pressão econômica, apropriação indevida de dados e até a ansiedade dos próprios cientistas em publicar resultados cedo demais.

A resposta fazia sentido, embora Serena tivesse a impressão de que ele não lhe contara tudo.

Seguiram até uma elevação de onde era possível enxergar grande parte da propriedade:

A casa-sede, o lago, estufas, galpões, cultivos, residências e uma extensa faixa de mata.

Vicente apontou para uma região coberta por vegetação e contou que, quando adquiriu as primeiras terras, aquele solo estava degradado, com pastagens exauridas, erosão e nascentes comprometidas.

— Levamos quase vinte anos para recuperar parte do que você está vendo.

Serena o encarou.

— Vinte anos?

— A natureza não trabalha no calendário da nossa vaidade.

Vicente explicou que cientistas gostavam de resultados mensuráveis, publicáveis e capazes de gerar reconhecimento, mas alguns dos trabalhos mais importantes talvez só estivessem completos quando aqueles que os iniciaram já não estivessem vivos para testemunhá-los.

— Então por que começar? Serena perguntou.

Vicente sorriu.

— Porque alguém precisa plantar uma árvore cuja sombra pertencerá a outra pessoa.

Serena ficou em silêncio. Até poucos dias antes, planejara a vida esperando acompanhar cada resultado:

Formatura, carreira, Gabriel, uma casa, talvez filhos.

Agora tudo aquilo parecia destruído, e Vicente falava sobre construir algo sem a garantia de testemunhar o final.

— Por que eu, Vicente?

Foi a primeira vez que pronunciou o nome sem título.

Ele percebeu.

— Porque você ainda se importa com a pergunta depois de encontrar a resposta.

No caminho de volta, Vicente anunciou que tomariam café antes que Lígia fosse buscá-los pessoalmente. Serena protestou que ainda não conhecera o Centro.

— Está conhecendo.

— Estou conhecendo a fazenda.

Vicente apontou para o solo.

— Esse foi seu primeiro erro de hoje.

Serena riu e o acompanhou pela trilha.

Somente então percebeu que fazia quase uma hora que não pensava em Gabriel. Em vez de culpa, sentiu uma inesperada vontade de descobrir o que existia depois da dor.

Pouco antes de alcançarem a área principal, Serena avistou um antigo galpão parcialmente escondido entre as árvores. Teria ignorado a construção se não percebesse algo incompatível com sua aparência rústica: a porta possuía um leitor biométrico.

Ela parou.

Vicente acompanhou seu olhar.

— Amanhã.

— O que existe ali?

— Amanhã, Serena.

Ele continuou caminhando.

Serena permaneceu alguns segundos observando a porta antes de segui-lo. A propriedade escondia muito mais do que mostrava, e alguma coisa dentro dela começava a despertar junto com aquela curiosidade.

Pela primeira vez des

de a noite da formatura, o desconhecido não lhe provocava vontade de fugir.

Provocava vontade de descobrir.

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